segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

"Inflar o ego"

É como se o ego fosse uma bexiga e pudesse ser enchido ou inflado. Foi dito: “como se”, uma vez que o ego não se constitui como realidade material, mas sim como uma capacidade mental/emocional própria dos seres racionais. Com essa capacidade os humanos captam e criam representações da realidade dando-lhe sentidos que passam a servir-lhes como referência. O ego é a dimensão do que cada um pensa e sente de si mesmo, de como é ou se apresenta a realidade existente fora de si e, por fim, como se dá a interação entre ele próprio e os outros e com o mundo à sua volta.

Um ego vazio dá a sensação de fraqueza ou impotência e, consequentemente, de insegurança. Um ego cheio dá a sensação de força e de poder perante si mesmo, perante o outro e perante as condições com que se apresenta o mundo ou a vida fora. A segurança pessoal depende de como o ego consegue ver e sentir a realidade nua e crua, despojada de ilusões, sonhos e fantasias.

“Alimentar o ego” é o mesmo que inflá-lo. Reconhecimentos na forma de elogios alimentam, dão sustentação a ele. “Saco vazio não para em pé” é o que ensina a sabedoria popular. O sucesso é o retorno daquilo que se faz. Fama, prestígio, riqueza podem ser recompensas que alimentam o ego. Quem se encontra nutrido fisicamente tem energia para gastar: correndo; trabalhando, se divertindo. Quem se encontra nutrido psicologicamente tem energia mental/emocional para fazer as coisas com energia e ânimo, empenhando-se em sua totalidade, com espontaneidade e criatividade.

Quem reconhece e dá valor só às coisas materiais deixa de dar importância às realidades imateriais ou que transcendem, ultrapassam ao físico. Esse não reconhecimento e não valorização tem um preço. A falta do referencial espiritual impede o desenvolvimento do ser humano em sua integralidade.

Pequenos gestos podem alimentar o ego: um olhar de atenção; um sorriso; uma palavra de estímulo ou de elogio; uma reflexão pessoal; a leitura de um texto capaz de ser entendido e que ajude numa maior compreensão de si e da vida; a superação de um problema de saúde ou de algum trauma psicológico; o reconhecimento objetivo das próprias limitações, a superação da tendência de fugir, de negar aquilo que desagrada ou causa algum incômodo.   

Postado por José Morelli

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Indução

 Do verbo “induzir”, que significa influenciar alguém, conduzi-lo a partir de fora. Existem idéias que já se encontram em nossa mente, fazem parte de nossos pensamentos. Existem outras que ainda não se encontram registradas e catalogadas em nosso consciente e que, pouco a pouco, nos chegam a partir de nossa interação com o meio externo. Julgamos a importância delas, entendemos que podem nos ajudar a compreender os enigmas da vida, sejam estes do âmbito pessoal ou universal. Nesse processo, acabamos por assimilá-las, incorporando-as em nosso repertório pessoal de idéias, com as quais já nos encontramos familiarizados.

Somos receptores de idéias. Captamos conhecimentos através de nossos cinco sentidos. Um bom receptor precisa estar bem sintonizado. Para captar os sinais de uma emissora, um aparelho de rádio precisa ter o seu dial bem ajustado ao número certo em que esta transmite sua freqüência. Se não o estiver, haverá uma distorção da mensagem. Ruídos dificultam ou até mesmo impedem sua compreensão.   

Momentos certos de induzir. A mente humana tem seus momentos especiais, em que se encontra melhor predisposta a ouvir e a assimilar aquilo que lhe chega de fora. Quando ela se encontra dispersa, avoada, não consegue prestar a devida atenção e, consequentemente, pouco é capaz de reter e assimilar. Os graus de concentração podem ser vários. Vivemos no tempo. Precisamos tê-lo como amigo e não como inimigo. A ansiedade nos coloca em conflito com o tempo. Queremos atropelá-lo. Perdemos o foco daquilo que nos acontece à volta. Nossa mente consegue melhor captar as contribuições que recebe, na medida em que se encontra atenta e focada naquilo a que está se dedicando.

A existência de problemas que exigem respostas urgentes é outra predisposição importante, que ajuda a mente na assimilação das boas palavras, ensinadas pela própria vida das mais variadas formas. Quanto maior o problema, maior é a necessidade de se encontrar solução para o mesmo. Se, da dor, se pode tirar algum proveito, este é um deles, sem a menor sombra de dúvida. De duas uma: ou se fica com a dor acostumando-se com ela ou se busca algo que a mande embora.

Postado por José Morelli

domingo, 31 de janeiro de 2021

Como funcionam os sentimentos?...

 Bem ou mal comparando, podemos dizer que os sentimentos funcionam como o clima. Os sentimentos são um clima interior. As condições do tempo nos atingem de fora pra dentro, provocando, facilitando ou dificultando nossas ações. Se é frio ou calor, se o ar é úmido ou seco, se a pressão da atmosfera é alta ou baixa variam nossas sensações físicas. Os sentimentos de alegria, de tristeza, de angústia, de ansiedade, de ciúmes, de inveja, de raiva ou qualquer outro, da mesma forma, influenciam em nosso ânimo e em nossas ações, podendo provoca-las, impedi-las, facilitá-las ou dificultá-las em sua execução.

Podemos, também, comparar os sentimentos com o pano de fundo de um palco: as figuras, as cores, a intensidade das luzes representam o ambiente em que se desenvolvem as cenas. As tonalidades das cores, simbolicamente, representam as emoções que devem ser provocadas na plateia. A montagem de um teatro, de uma coreografia, de um show, exige arte na escolha das cores no cenário e da iluminação, capazes de suscitar emoções de acordo com o sentido da música, da ação ou do texto. Funcionam como agentes externos, capazes de mobilizar sentimentos.

Os acontecimentos do dia a dia são estímulos desencadeadores de emoções. Eles podem ser ações, palavras, sons, perfumes, sabores, etc. Desde que cheguem à nossa mente, instantaneamente, buscamos significados para eles, encaixando-os de acordo com alguma lógica de entendimento. Nessa busca, relacionamos esses acontecimentos a outros, antigos ou recentes, guardados em nossa memória. A fantasia faz associações e imagina coisas, até aparentemente disparatadas. Como resultado de todos esses processos mentais surgem os sentimentos.

Situações vividas e que não temos como conscientes, também podem servir a esses processos mentais, tornando mais difícil a compreensão da origem e fonte de onde emanou o sentimento. É por isso que não entendemos como fatos em si mesmos insignificantes, podem provocar emoções tão fortes e tão incômodas, que nos impactam tanto.  

Podemos ter apenas certo domínio dos processos que regem o funcionamento das emoções em nós. Não será possível termos um domínio total e isso nem seria bom. Perderíamos a espontaneidade e tudo se tornaria frio e calculado, sem riscos, mas também sem nenhuma vibração e/ou adrenalina. 

Postado por José Morelli 

 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Com que tintas?...

Essa deveria ser uma pergunta que todos nós, tranquilamente, deveríamos fazer ao vermos imagens de indígenas brasileiros, com seus rostos e corpos sofisticadamente pintados. Certamente, eles não nasceram assim, tão coloridos, como se apresentam em fotografias e em filmagens que despertaram e despertam a atenção de muitos, seja aqui no continente americano seja em terras de além mar. Os europeus dos tempos pós-descobertas, tinham imensa curiosidade de saber a respeito da vida vivida pelos silvícolas brasileiros, bem como de seus costumes e tradições.

O conhecimento das tintas pelos indígenas remonta a tempos imemoriais. Ao contrário do que se ouve dizer, a arte indígena não pode ser vista como pouco elaborada. A partir da observação da natureza, esses povos primitivos representam formas geométricas que, pela variação de tamanho, manifestam ritmo e equilíbrio, sendo que cada tribo tem o seu próprio estilo.  Quanto à fabricação das tintas, utilizando-se de sementes de plantas, tais como as do urucum, as do jenipapo e as do urucuzeiro, esses povos produzem uma tinta natural que não prejudica a própria pele, como acontece nas tintas fabricadas com agentes químicos industrializados. 

As pinturas corporais são apenas um dos elementos constitutivos da cultura indígena. Há uma sabedoria, apreendida em séculos de convívio harmônico com a natureza, que engloba um conjunto valioso de saberes, que muito pode contribuir na busca de caminhos a serem trilhados pela humanidade, em todos os tempos.

Quando o indivíduo é bem resolvido em sua própria identidade, ele é capaz de se confrontar com outras identidades sem grandes problemas. Se a diversidade não for vista e sentida de maneira positiva, ela não poderá ser compartilhada em suas riquezas e, consequentemente, restará apenas o fechamento de cada povo em si mesmo e em seu próprio egoísmo e em seu próprio egocentrismo. A humanidade se distanciará de seu mais fundamental desenvolvimento.

Postado por José Morelli

 


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

"Bem-estar"

 Estar e perceber-se bem. Sentir-se confortável, sem incômodos que impeçam a própria vida de ser reconhecida como estando satisfeita em seus desejos. Fazer o que deve ser feito de maneira fluida, prazerosa. Dar-se o descanso sem se fazer cobranças de não parar de produzir nenhum instante. Dormir um sono leve e reconfortante. Permitir-se sonhar sonhos bons e agradáveis. Levantar de manhã cedo, podendo sentir o frescor do dia que nasce. Estes e outros “bem-estares” merecem ser desejáveis? Constituem-se como um direito legítimo e mesmo necessário à vida de qualquer pessoa ou seriam eles um privilégio concedido apenas a alguns poucos eleitos da sorte?

A resposta a estas perguntas se encontra na própria natureza humana que, por sua contingência material, embora represente oportunidade, não deixa de impor limites a suas possibilidades. A matéria, constituindo-se também como tempo e espaço, é a base sobre a qual se sustenta qualquer realização humana. Na maior parte das pessoas, felizmente, parece existir certo equilíbrio entre as situações que geram sensações de bem-estar e mal-estar. Em outras, em número menor, se observa o predomínio de situações e de sensações de bem-estar. Por fim, há um terceiro grupo de pessoas não tão numeroso, em que predominam sensações incômodas de mal-estar.

É voz comum que, por sua utilização, o cachimbo deixa torta a boca de quem dele faz uso constante. Assim também o predomínio de situações e de sensações de mal-estar tende a tornar crônica essa sensação.  O mesmo se pode dizer a respeito daqueles em que predominam sensações positivas de bem-estar, sensações estas que podem levar a dificuldades de aceitação da realidade em seus aspectos mais difíceis de serem enfrentados.

Seja qual for a qualificação das situações e das sensações, prazerosa ou dolorosa, importa sobremaneira que cada um aprenda a lidar com as próprias percepções temperando-as com objetividade em seus juízos e compreensões. Os juízos que delas são feitos pela mente de cada indivíduo podem ou não ajudar na forma de administrá-las. A capacidade emocional de suportá-las se desenvolve na medida em que são feitas constatações, que ajudam no dimensionamento mais aprofundado da realidade em seu todo.

Postado por José Morelli

 

  

 

 

domingo, 3 de janeiro de 2021

Casa & Terreno

Inúmeros são os testemunhos de que a casa, situada no número 80 da Rua Dr. João Ribeiro, esquina com Major Ângelo Zanchi, foi a primeira no histórico bairro da Penha de França construída em alvenaria. Nela morou Dona Catarina de Albuquerque. Sua localização ocupa o chamado Centro Histórico da Penha. Anos atrás, em uma entrevista dada a este jornal, Dona Catarina, já com idade muito avançada, testemunhou ter participado de uma recepção ao Imperador Dom Pedro II, juntamente com sua esposa, a Imperatriz Teresa Cristina, tendo, ela e outras meninas, jogado pétalas de rosas sobre o casal, no interior da Igreja de Nossa Senhora da Penha.

No quintal desta mesma casa havia uma nascente de água potável. Em um passado não tão recente, algumas pessoas fizeram um teste para verificar se a água que por ali passava e passa era a mesma que também jorra no Clube Esportivo da Penha. Jogaram um corante dentro do poço e foram ver se a água colorida chegaria àquela nascente. A experiência não comprovou a hipótese presumida.

Hoje, as condições de preservação do imóvel se encontram precaríssimas. O quintal, embora tenha sido todo recoberto com um piso de cimento, nem para estacionamento vem sendo utilizado.

Nos folhetos promocionais que divulgam vendas de apartamentos em prédios, na Penha, é comum encontrar o apelo da historicidade do bairro. É um glamour a mais a tradição de tantos anos com tantos acontecimentos relevantes, garantia de que a vida aqui vai continuar sendo tão generosa aos seus futuros moradores como o foi para as gerações passadas.

A fim de que não se fique apenas no discurso, vale propor que sejam feitas ações concretas no sentido de recuperar esses e outros bens históricos que ainda restam no bairro. A retirada do piso e o replantio do verde no quintal acima referido, faria com que a nascente voltasse a prover as pessoas com seu precioso líquido, um exemplo eloquente de cuidado pela natureza e de amor às futuras gerações.

Postado por José Morelli

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Quilombo da Penha

Em seu livro “Penha Histórica”, editado em 2001, o saudoso historiador Dr. Sylvio Bomtempi, relata em cinco páginas: da 85 à 90, como se deu a Escravidão em nosso bairro. Inicia contando que o então arrabalde de Nossa Senhora da Penha era porta de entrada dos escravizados recém-chegados do continente africano, trazidos do porto do Rio de Janeiro e também os que subiam a Serra do Mar passando por Mogi das Cruzes, Vila criada em 1611.

Nas primeiras décadas do século XVII, a Penha serviu como lugar onde, devido aos surtos de varíola, “os cativos procedentes do Rio de Janeiro e de Santos através de Mogi das Cruzes, foram obrigados à quarentena no Caminho da Penha”, da mesma forma como acontecia no Lavapés, com os chegados pelo Caminho do Mar.

O Dr. Sylvio explica ainda que as atrocidades, praticadas por senhores desumanos contra os escravizados, lançavam-nos a fugas impetuosas reunindo-os em quilombos, “arraiais temidos difíceis de expugnar”. Entre os lugares que mais procuravam para embrenhar-se, longe da cidade, contavam com os matagais da Penha.

Em 10 de fevereiro de 1748, Inácio Pedroso Aveiros foi nomeado pelo Senado da Camara da Vila de São Paulo capitão-do-mato no âmbito da Penha, que devia convocar os moradores hábeis para, sob seu comando, destruírem os redutos dos foragidos e matarem os negros resistentes, cortando-lhes a cabeça e entregando-as à Justiça.

Tendo como pano de fundo a realidade acima exposta, no livro de Assentamentos da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos da Penha consta o surgimento da Irmandade, cuja primeira assinatura é de 1755. A este grupo é atribuída a idealização e construção da Igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, patrimônio histórico do bairro, que teve e tem papel importante na vida dos negros e negras da Penha e região. A respeito dessa história tive a alegria de pesquisa-la e sobre ela escrevê-la no livro “Penha de França – Expressões do Rosário”, lançado a público oficialmente em 25 de janeiro de 2017.

Postado por José Morelli