segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Alçadas

Este termo vem do vocábulo jurídico e significa, de acordo com o dicionário, “jurisdição”, “competência”. Neste texto, quero utilizar-me da palavra “alçadas” (no plural), num sentido mais amplo, de tudo aquilo sobre o qual temos poder e capacidade de influenciar e modificar. Pergunto: qual o poder que temos sobre o amor que o outro ou os outros têm por nós?... Penso que, diretamente, não temos nenhum. Quem tem, diretamente e em primeiro lugar, alçada sobre o amor que sente, dentro de si, é a própria pessoa que ama. O amor pertence a cada um. É ele quem cuida e é responsável por seu próprio sentimento.

A pessoa amada pode corresponder ou não. É ela que tem alçada para deixar-se ou não contagiar pelo amor do outro. Duas pessoas que se amam precisam entender e saber respeitar essa hierarquia. Este é o princípio. Na prática, os gestos e atitudes não vêm com carimbo de qualidade. As verdadeiras intenções nem sempre transparecem. Estão sujeitas às mais variadas interpretações. Um presente pode ser entendido como uma prova de amor ou como uma chantagem, um meio para controlar os sentimentos do outro.

Respeitar as alçadas exige maturidade humana. Quem não tem uma base de auto-estima e de segurança pessoal, não consegue manter-se bem, diante das exigências normais de uma vida a dois. A falta de confiança em si próprio é transferida para o outro. Sobrevém a necessidade de vigiá-lo, controlá-lo.O amor perde sua espontaneidade natural, sendo substituída pelo medo da perda. Decresce a qualidade do relacionamento. Decresce, também, a capacidade de as pessoas se proporcionarem felicidade.

É próprio dos adultos sadios e conscientes serem responsáveis por suas ações e sentimentos. É um direito que possuem e que deve ser respeitado pelos outros. Os pais respondem pelos filhos menores. Na medida em que eles crescem e se desenvolvem, vão, pouco a pouco, assumindo poder sobre suas vidas. Nessa dinâmica toda, o sentido das alçadas vai sendo estabelecido e vivenciado à sua maneira, em cada fase da vida e de acordo com as circunstâncias que envolvem cada um. É um aprendizado constante. Se os indivíduos sabem se respeitar mutuamente, a sociedade em seu todo só tem a ganhar. As alçadas existem, para que os valores fundamentais da vida tenham lugar e respeito no dia a dia das pessoas e da sociedade. 

Por José Morelli

sábado, 7 de dezembro de 2013

Centrar-se no Interlocutor

Interlocutor é aquela pessoa ou aquele grupo de pessoas com quem você fala ou para quem escreve. “Centrar-se” é dar atenção à pessoa a que se dirige, considerando-a como centro, principal razão de sua comunicação.

É claro que o assunto, também, precisa ser do interesse do destinatário; entretanto, no momento em que a comunicação ocorre, a preocupação maior não deve ser com o discurso (conteúdo da fala), mas com o entendimento do discurso pelo interlocutor. Daí a necessidade de manter-se atento nele, percebendo-o em suas reações, se está ou não entendendo o assunto, acompanhando-o e com que interesse.

Um professor ou professora, excessivamente preso (a) ao conteúdo de sua aula, não conseguirá prestar a devida atenção nos alunos. Essa falta de atenção em seus interlocutores pode prejudicar o aprendizado. A segurança do professor (a) facilita seu desprendimento do conteúdo a ser ensinado, permitindo-lhe comunicar-se melhor.

Ao falar em público, o orador transmitirá sua mensagem, com muito mais eficácia, se conseguir olhar para seu auditório, transmitindo-lhe, no olhar, sua confiança em si mesmo, no tema que está tratando e nas pessoas, que estiverem ali para ouvi-lo. Para portar-se assim, o orador precisa superar as inseguranças, que porventura tenha, com relação ao tema que tem como objetivo abordar, e com relação à sua aceitação, como pessoa, da parte de seus ouvintes.

Você que me lê nesta coluna é, também, um interlocutor. Infelizmente, não posso vê-lo, nem conversar com você, ouvindo-o a respeito do que costumo escrever aqui. Acontece, vez ou outra, de algum leitor comunicar-se por carta ou telefone. Pessoas que me conhecem pessoalmente, também costumam comentar um ou outro tema lido no jornal.

Porém, para que eu possa, realmente, centrar-me no interlocutor, seria preciso que mais leitores (as) se manifestassem a respeito dos artigos sobre psicologia, publicados a cada semana. Pareceres, críticas e sugestões serão bem aceitas. Com este retorno, acredito, a qualidade destes trabalhos poderá ser ainda melhor. Antecipadamente, agradeço!

Por José Morelli

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Acreditar

Para poder ajudar é preciso acreditar. Se não acreditamos na capacidade do outro e de sua boa vontade para vencer as próprias dificuldades e problemas, de se superar em seus limites, consideramos sua mudança um caso perdido e nada podemos fazer, de maneira eficaz, para que o mesmo se modifique. Nossa “compreensão”, quando não acreditamos no outro, não apostando em seu potencial é o mesmo que acomodação e cumplicidade.

Acontece, às vezes, que é justamente aquele que está necessitando da ajuda, quem mais faz para destruir a crença dos que o querem ajudar. Através de vários meios, procura destruir toda esperança e todo propósito de quem nele bota alguma fé: são queixas, acusações, chantagens, cenas dramáticas ou histéricas, somatizações, como ânsia de vômito, dor de cabeça, disfunções intestinais ou outros distúrbios psicossomáticos.  

O acreditar incomoda. Incomoda por que exige que o outro se desacomode. E é isso que lhe é difícil fazer. Fica mais fácil jogar sobre quem ainda tem alguma esperança, que não o compreende, que não conhece o tamanho de suas dificuldades. Assim, vai se desculpando e procurando alguém que lhe passe a mão na cabeça, aceitando-o em sua incapacidade. Essa aceitação não o ajuda, apenas facilita sua permanência com seus problemas, enquanto o tempo vai passando e as oportunidades de viver com mais qualidade também.

A função do psicoterapeuta é acreditar nas capacidades do paciente, de superar suas dificuldades. É evidente que existe limite nessa crença. Em contrapartida, o paciente também precisa ter confiança no psicoterapeuta. Assim, com essa mútua crença, o paciente vai superando sua resistência em acreditar em si mesmo e em colocar suas capacidades em ação.

Marido e mulher, pais e filhos também podem e devem acreditar uns nos outros para que possam se ajudar mutuamente. Certa dose de cumplicidade faz parte do equilíbrio nos relacionamentos. O acreditar, no entanto, nunca pode ser dispensado, seja nos relacionamentos mantidos entre pessoas, seja nos mantidos entre grupos sociais. Os embates entre patrões e empregados (greves ou outros) são instrumentos legítimos de reivindicações que, além de permitirem a medição de força entre as partes, manifestam também a crença de ambas na continuidade de seus relacionamentos e parcerias. O viver humano exige um constante ato de fé.

Por José Morelli 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Uma viagem incrível

Desde o momento em que passamos a ocupar um lugarzinho especial no seio de nossa mãe, demos início a uma incrível viagem pelo imenso espaço sideral. Ainda não conhecíamos a luz do dia. Passado o período de gestação, ganhamos novo lugar sob a luz solar, junto a nossos pais e familiares e aos demais humanos e viventes dos cinco continentes do mundo. Nosso planeta Terra pode ser comparado a uma imensa aeronave. Cada volta que completa em torno do Sol tem a duração de um ano (365 dias e 6 horas). 

Enquanto perfaz seu caminho, a Terra gira em torno de si mesma, num movimento conhecido como de rotação. Quando o lado em que nos encontramos de nossa nave se encontra voltado para o Sol, vislumbramos o céu claro e azul de horizonte a horizonte. Quando nossa nave se encontra voltada para o lado oposto ao do Sol, temos a possibilidade de vislumbrar os inúmeros outros astros e estrelas em suas respectivas constelações ou nebulosas.

Além da trajetória em volta do Sol, o conjunto de astros que compõem o sistema solar, percorre outros espaços siderais. A curiosidade dos astrônomos, cada vez mais equipados com instrumentais mais potentes, quase que diariamente traz novidades fotografadas de lugares ainda não tão bem conhecidos. Uma amplitude que não para de aumentar e, da qual, todos participamos de alguma forma, modificando-nos direta ou indiretamente em nossas maneiras de pensar e de sentir.

As viagens possíveis de serem feitas de um país para outro, de um continente para outro, transpondo mares e oceanos, não se comparam com essa incrível viagem, na qual a aeronave é o nosso próprio planeta. Engana-se, portanto, quem diz que nunca fez uma grande viagem. Todos nós viventes, sem exceção, viajamos ininterruptamente. Nossa nave é muitíssimo mais sofisticada do que os melhores aviões das maiores empresas aéreas existentes em todo mundo.

O micro e o máximo não nos são acessíveis sem o uso de instrumentos especiais. O reconhecimento da coexistência destes como partes de nossa realidade de vida, nos inspiram a voarmos em nossas imaginações e fantasias.

Por José Morelli

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

“Torcer o nariz”

A resposta não é dada verbalmente; mas apenas com o gesto de “torcer o nariz” para um dos lados, às vezes acompanhado de uma espécie de grunhido. Através desse gesto instantâneo se pode expressar o desagrado frente a alguma coisa, pessoa ou situação. As expressões de entendimentos e de sentimentos (indicativas de estados emocionais) podem se apresentar por meio de gestos: alguns mais outros menos sutis na expressão de suas mensagens.

Palavras possuem sentidos mais claros e precisos. A mímica facial e gestual se constitui como forma de expressão que antecede a da comunicação pela fala, mais socializada e racionalizada. Quando se juntam palavras e gestos, estas junções podem ou não apresentar, entre si, certa coerência de sentidos.
Palavras e gestos se constituem como códigos de comunicação. Independentemente do idioma falado, muitos gestos podem ser entendidos universalmente, em qualquer parte do mundo.

O nariz está associado diretamente à sua função específica que é a de sentir os cheiros. É a única via no corpo humano, através da qual, os odores são captados e seus efeitos transmitidos ao córtex cerebral. O cérebro decodifica os cheiros, classificando-os como agradáveis ou desagradáveis, desejáveis ou indesejáveis.

Quem se julga sempre melhor do que tudo e todos à sua volta, tende a manifestar-se com desdém, torcendo o nariz constantemente. Parece que não consegue reagir de outra forma, um eterno descontente. Quem consegue ter de si um conceito objetivo, reconhecendo-se em seus aspectos positivos e negativos, tendo também para com os outros e para com o mundo essa mesma forma de ver e de julgar, não deixa de torcer o nariz eventualmente, mas o faz sem contaminações de juízos tendenciosos e preconceituosos. É livre para gostar ou não gostar. É livre para ter esperança em si mesmo e nos outros e, consequentemente, na vida em suas partes e em seu todo. 

E, só para lançar um desafio à imaginação, aqui vai uma pergunta, que acabou de surgir em minha mente: Quantos sentidos poderiam ser atribuídos aos beijos, com os narizes, praticados pelos povos esquimós?!

Por José Morelli

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Aprimorar-se

Aperfeiçoar-se, melhorar-se. O viver é uma chance, uma oportunidade para o aprimoramento dos seres humanos. De duas, uma: ou nos aproveitamos das possibilidades que a vida nos proporciona para crescermos em nossa maneira de ser e de agir, ou deixamos de aproveitar essas oportunidades, mantendo-nos como sempre nos entendemos que fomos ou somos, não aceitando modificações que nos ajudem a melhorar-nos. “Eu nasci assim, e vou morrer assim”, quem não fez ou não ouviu uma afirmação como essa?

Mudanças radicais na personalidade destruiriam a própria identidade. Se o indivíduo não é ele mesmo, quem ele é?... Cópia de algum outro?! Aquilo que é da natureza profunda de cada ser humano permanece como uma marca registrada, como uma qualidade ou um defeito de fabricação. No entanto, essas qualidades, com inteligência e boa vontade, podem ser dinamizadas e, os defeitos, podem ser minimizados ou contornados.

A tarefa de aprimorar-se é sempre acompanhada de altos e baixos. Há situações em que se dá passos à frente e há situações em que se dá passos para trás. Isso faz parte do processo. Nem sempre se pode cantar vitória. Tudo, porém, serve ao aprendizado e ao aprimoramento. Importante é entender que os acontecimentos da vida são como lições a serem aprendidas.

Nossa base é a adesão que temos conosco mesmos. O aceitar-se não significa passividade. A interação com o tempo e o espaço e com os demais seres viventes, naturalmente, possibilita o desenvolvimento de um processo de evolução e de aprimoramento do ser, de suas estruturas físicas e psicológicas. Os psicólogos humanistas falam de uma força propulsora, existente dentro de cada indivíduo, força que impulsiona no sentido daquilo que é saudável, daquilo que é bom e contribui para o desenvolvimento e para a saúde, em sentido amplo.  

Recomendar a alguém que se aprimore é pedir muito, algo acima de suas capacidades? Nos momentos de paixão e de raiva em que o “eu” precisa encontrar justificativas de seus posicionamentos, pode parecer pedir muito. Nos momentos em que se está com a cabeça fresca, no entanto, qualquer um de nós pode entender a importância do aprimoramento pessoal para o próprio desenvolvimento e realização.  

Por José Morelli

sábado, 28 de setembro de 2013

Cortes e recortes

De quantas maneiras podemos visualizar uma laranja? – Certamente, não será apenas de duas formas diferentes: a partir de fora e a partir de dentro! – Dependendo dos cortes e recortes que fazemos a visão da laranja não será a mesma, permitindo-nos a ampliação de nossos conhecimentos a respeito dessa excelente fruta cítrica, tão rica em vitamina C. Se a cortarmos na horizontal, na vertical, nas perpendiculares de um lado e de outro, os pequenos gomos com que ela é formada serão visualizados com imagens diferenciadas.

As ciências físicas e filosóficas estudam a vida em seu todo, em sua abrangência. À semelhança do exemplo da laranja, as ciências são cortes e recortes a partir de diversos possíveis ângulos de visão. A realidade por inteiro é uma só (única e una). Pode ser vista sob o ângulo das quantidades, através da matemática. Pode ser vista sob o ângulo da temporalidade, através da história, Pode ser vista sob o ângulo dos elementos que a constitui, através da química, da geologia. Estes e outros tantos são os cortes e recortes que podemos realizar, aproximando-nos e distanciando-nos, a fim de alargarmos ou estreitarmos as abrangências de nossas visões.

Os cortes e recortes das ciências não são e não podem ser considerados como formas isoladas e não interligadas. Precisam ser reconhecidas em seu conjunto. Na medida em que as novas tecnologias vão ampliando a capacidade de avançar nas pesquisas quanto à vida, em tudo o que dela faz parte, vamos acrescentando novos elementos de compreensão de cada parte e do todo.

A sabedoria antiga já dizia que “quanto mais aprendemos, mais descobrimos o quanto ainda não sabemos”. Hoje, mais do que no passado, não podemos nos isolar uns dos outros. Os meios de comunicação nos permitem que troquemos nossas figurinhas e, com isso, ampliemos nossos conhecimentos do mundo, de nós mesmos e das interações que estabelecemos uns com os outros.

No mapa-múndi encontramos as representações dos continentes, países, oceanos mares e outros acidentes geográficos. Nos mapas que reproduzem o céu visualizamos astros de várias grandezas, nebulosas e constelações de estrelas. As ciências também poderiam ser representadas como num grande mapa: cada matéria a partir de um modo de olhar diferente. As filosofias, igualmente, cada uma constituída a partir de um recorte especial, possui sua própria lógica de visão e de pensamento.

Por José Morelli