domingo, 14 de abril de 2019

Mitos

Os m i t o s  ocupam um lugar especial no pensamento das pessoas. Na forma de pequenas histórias ou através de simples frases ou palavras, eles servem de modelo a ser alcançado na vida. Uma quantidade razoável de mitos é do conhecimento de grande parte da sociedade. Quando se faz referência a eles, logo são identificados e entendidos. Os mitos são um ponto de convergência, no qual os pensamentos se encontram e, a partir do qual, conseguem avançar na extensão e profundidade de seus desdobramentos.

Da mesma forma como os mitos podem servir de trampolim, de onde se pode mergulhar fundo na realidade e nos significados, que a ela podem ser atribuídos, assim também é possível que os pensamentos e os  sentimentos se estanquem neles, não conseguindo ultrapassá-los. O mito do “príncipe encantado” representa a forma mais gratificante do envolvimento de um casal, num relacionamento estável e infindo.  

A expectativa deste “mundo de felicidades - sem restrições -”, no entanto,  não é capaz de se concretizar, plenamente, nas condições normais, em que os humanos estabelecem suas vivências a dois, no casamento. As notícias mostram que mesmo casamentos entre reis e príncipes, de verdade, não têm sido aquele “mar de rosas” , capaz de merecer o mesmo final-feliz das histórias infantis, de príncipes e princesas“: enfim, eles se casaram e foram felizes para sempre”. 

Existe grande distância entre o idealizado (representado pelo mito) e a realidade. A impossibilidade de compatibilizar esses dois planos, pode fazer do mito um inimigo em potencial. No lugar dele ser visto apenas como um ideal, que estimule  na busca do que é melhor, ajudando naqueles momentos em que a rotina e o peso das responsabilidades exigem mais do casal, ele é confundido como a única forma aceitável de vida. A decepção se torna insuportável e o casamento deixa de corresponder minimamente àquilo que dele esperavam, transformando-se numa frustração.

Apesar desses eventuais mal-entendidos, os mitos podem ajudar na ampliação dos entendimentos da vida, em muitas de suas circunstâncias, pelo que ela pode proporcionar de máximo e de mínimo a cada um. Aprendendo a desvendá-los, conseguiremos descobrir os segredos de sabedoria que neles e na vida se ocultam.

Postado por José Morelli

segunda-feira, 8 de abril de 2019

"Limpar a relação"

Muitas vezes, do que precisamos não é de romper um relacionamento, que mantemos com alguém; mas de limpá-lo daquilo que, nele, não julgamos conveniente e nos incomoda. Situações mal-resolvidas, desentendimentos, motivados por falhas na comunicação, podem ser enfrentados e melhor esclarecidos, se buscamos aprimorar a qualidade de nossas conversas, deixando mais claro e transparente o que pensamos e sentimos. Cuidando para não deixar nada pendente, não deixamos de manifestar se existe alguma mágoa, que nos esteja sufocando. Racionalmente, poderíamos até tentar negar essa nossa necessidade; mas, se não a revelamos, nosso ser inteiro não deixará de nos cobrar e denunciar nossa “covardia” ou “falta de confiança”.

No íntimo, não ficamos satisfeitos quando nos vêem de forma errada (da maneira como não gostamos de ser vistos). Por outro lado, não concordamos que a pessoa, com quem nos relacionamos, se sinta aceita de um jeito diferente daquele que, em verdade, condiz com o que estamos sentindo a seu respeito.

Podemos até deixar o tempo passar, resistindo encarar o momento de “abrir o jogo”. No entanto, enquanto nada fazemos para  “limpar o relacionamento”, mantê-mo-lo em bases muito frágeis, correndo o risco de desfazê-lo, a qualquer instante. Não ficamos satisfeitos e, dificilmente, estaremos convencendo o outro, deixando-o satisfeito também. O medo será a base sobre a qual se manterá o relacionamento. E o medo, como se costuma dizer, não é bom conselheiro, principalmente em questões tão importantes, como as que nos envolvem com outra pessoa.

Fantasiar que as verdades vão destruir a pessoa do outro, pode não passar de uma projeção de nossa própria dificuldade de lidarmos com nossos temores e inseguranças. Nem sempre vale a pena subestimar a capacidade do outro de encarar as próprias verdades e as nossas. Da mesma forma, nem sempre vale a pena subestimar-nos em nossa capacidade de lidar com o que der e vier.

Se deixarmos o tempo passar, permitindo que um relacionamento se estruture sobre mentiras, vamos tornando mais difícil a volta. As mentiras vão ganhando status de verdades. Vamos sendo vistos da forma como não gostamos e os círculos formados por nosso convívio vão se alargando e comprometendo-nos junto ao outro, falsificando a imagem que projetamos de nossa realidade.

Postado por José Morelli 

Intuição

A palavra intuição é originária do latim: into-ire. Into é dentro. Intoire é ir para dentro, penetrar no âmago da questão, alcançar a essência do conhecimento de alguma coisa, sua razão primeira ou, como é usual no campo da farmacologia, seu princípio ativo. O dicionário do Silveira Bueno diz que “intuição” é o mesmo que “percepção clara, reta e imediata de verdades, sem necessidade de intervenção do raciocínio”.

É o que costumam dizer e a experiência parece confirmar que as mulheres são mais intuitivas que os homens. É provável que elas tenham desenvolvido essa capacidade, em função das exigências da maternidade: os meses que trazem o filho no seio e os primeiros cuidados com o bebê, além da dedicação à casa e à família, por gerações e gerações, funcionaram como condicionantes, natural e cultural, que as ajudaram e ajudam no aperfeiçoamento deste dom humano.

A intuição não é reconhecida como capaz de garantir cientificamente uma verdade, que se possa aplicar de casos particulares para o geral. Por isso, no campo científico, a intuição não goza do mesmo status da razão, do raciocínio. No entanto, sabemos que a intuição participou de muitas descobertas científicas. Não foram poucos os pesquisadores e cientistas que partiram de uma primeira intuição e, depois, conseguiram comprová-la, utilizando-se dos métodos científicos racionais.

Qualquer pessoa pode ter intuições, independentemente de sua escolaridade. A intuição é de suma importância na resolução de grande parte dos problemas do dia-a-dia. O interesse, o amor, a experiência da vida e a inteligência ajudam a intuição a encontrar respostas e caminhos a seguir. Não importa que as verdades, assim conseguidas, não gozem do status de serem científicas, elas se aplicam a situações imediatas e isso é o que vale.

Acreditar na própria capacidade de intuir, percebendo e construindo as próprias lógicas de pensamentos, de maneira clara, correta e imediata é um motivo de segurança na vida, um reforço positivo à autovalorização e à autoestima. Exercitar-se nessa capacidade faz com que ela se aprimore sempre mais.

Todo bom profissional precisa saber se utilizar tanto dos conhecimentos de sua área de atuação, como de sua intuição. Conhecimento, capacidade de raciocínio e intuição são fontes que convergem para um mesmo ponto. O resultado é o melhor possível. Na prática psicológica, o concurso desses fatores é de fundamental importância para garantia dos bons resultados, seja qual for a linha teórica adotada pelo profissional da área.

Postado por José Morelli

terça-feira, 2 de abril de 2019

Desdobramentos

Uma infinidade de coisas é passível de desdobramentos: uma camisa, uma folha de papel de seda, um lençol... Tomando como exemplo este último, podemos perceber que a cada novo desdobramento, a visão do lençol se duplica em seu tamanho, até que nos apareça em sua dimensão total. Se ele for de tecido estampado, os desenhos irão aparecendo, pouco a pouco. Só quando estiver totalmente aberto e estendido, é que perceberemos sua beleza e combinação com o ambiente.

Dos acontecimentos, podemos dizer que, também, se desdobram e como. Uma simples atenção pode dar origem a uma conversa mais prolongada, da qual pode nascer uma amizade, que pode se transformar num amor e num namoro, que, enfim, pode terminar num casamento duradouro e feliz. Não sabemos quais os rumos dos desdobramentos. Eles podem se orientar para vários sentidos, sendo que, cada um deles, pode reservar surpresas imprevisíveis. 

Os resultados daquilo que fazemos, pensamos e sentimos nos comprometem. São como caminhos que não têm volta. Não dá para desfazê-los ou apagá-los. Todo acontecimento tem aspectos bons e maus. Existem alguns que comprometem mais para o positivo, outros mais para o negativo. A bebida, as drogas, a ociosidade, o crime têm conseqüências. Os que enveredam por estes caminhos ficam enredados e não lhes é fácil deles saírem.

No plano social se dá o mesmo. A orientação da política e da economia, adotada por um governo tem, também, seus desdobramentos. Muitas conseqüências advêm de cada medida tomada. É difícil imaginar todos os efeitos que podem ocasionar ao povo a retirada de direitos adquiridos através de mudanças no regime de previdência social. Por outro lado, não dá para se imaginar os benefícios, para uma cidade, estado ou nação a adoção de meios mais eficazes de combate à corrupção, quanto, a médio e longo prazo, isso implicaria na melhora da qualidade de vida do povo e das condições para um desenvolvimento sustentável da nação em todos os aspectos.

Desdobramentos são todos os efeitos que podem advir daquilo que é buscado efetivamente. A escolha política de toda e qualquer medida, a exemplo do que fazem os jogadores de xadrez, deve ser acompanhada de acurados cuidados quanto à sua execução, a fim de que seus desdobramentos garantam os melhores resultados.

Postado por José Morelli



sábado, 16 de março de 2019

Namoro das maritacas

Da janela dos fundos de casa ainda é possível ver uma paisagem relativamente ampla, comparada com a que sobrou no lado oposto (aquele que é o da entrada da casa). O vale que se descortina ao fundo compreende parte da Rua Pércio de Azevedo. À direita, são vistos alguns prédios do centro histórico da Penha: alguns mais próximos ao antigo santuário e, outros, ao Largo do Rosário. Mais à esquerda, a basílica é vista em sua parte de trás, segundo minha opinião, um verdadeiro presente para os olhos, uma vez que sua arquitetura apresenta-se com um conjunto mais rico em detalhes e com mais harmonia do que sua parte fronteiriça. As duas subidas da Pércio, tanto para o lado da basílica como para o lado da rua Betari, possuem boa quantidade de árvores, ainda. Toda essa área recebe a incidência matinal da luz do Sol, que nasce do lado oposto desde os confins da zona leste.  

É nesse cenário que, nestes primeiros meses do ano, se apresentam em bandos as festivas maritacas. Com suas plumagens predominantemente verdes, de tamanho pouco menor do que os papagaios, essas aves ainda mesclam suas penas com tons cinza e vermelho. De acordo com informações colhidas no Wikipédia do Google, o nome maritaca provém do tupi e significa “coisa ruidosa”, “barulhenta”.  Outra informação coletada nessa mesma fonte é de que as maritacas costumam voar em bandos de seis a oito indivíduos. Quando há muita comida à disposição esses bandos podem ser formados de até cinquenta aves. 

Embora o período de reprodução das maritacas ocorra nos meses de agosto a janeiro, cuja incubação dos ovos seja de 23 a 25 dias, ainda assim podem ser observados vôos e permanência de casais, em conversas ruidosas e mesmo em afagos, sobre beirais de casas ou sobre os fios dos postes da rua.

As maritacas compõem com a natureza em seu todo. Não dá para dizer que sejam discretas em suas manifestações; muito pelo contrário. Parecem querer chamar a atenção para tudo o que fazem. Exibem-se em seus vôos. Os ruídos que produzem não as deixam passar desapercebidas. Até no namoro são centradas e descontraídas.

No Wiki Aves se encontra a afirmação de que “os mais velhos e os habitantes da zona rural conseguem fazer uma distinção clara entre as diversas espécies e sabem diferenciar uma maritaca de um periquitão e de um periquito”. Mesmo que o cidadão urbano viva fascinado pelos avanços tecnológicos, ainda é saudável , para que possa se desenvolver física e psicologicamente, que não deixe de observar e de se inspirar na natureza que, de forma tão espetacular, insiste em chamar-lhe a atenção.

Postado por José Morelli



segunda-feira, 11 de março de 2019

Alegria e felicidade de vivermos em nosso bairro

Nossa primeira casa é o corpo que nos serve como abrigo de nossa energia vital. Vivemos nele e dele dependemos para interagirmos com o meio em que existimos e nos movimentamos. De nosso corpo devemos saber exaurir toda alegria e felicidade possíveis, em cada fase de nossa vida.

Nossa segunda morada é aquela em que habitamos, passando grande parte de nossos dias. Por ela somos abrigados e protegidos das intempéries. Da forma como seja nossa casa, simples ou sofisticada, dela também devemos saber extrair a máxima satisfação que ela pode nos proporcionar, juntamente com aqueles que nos são queridos e próximos, em cada instante.

Nossa terceira casa é o bairro que dividimos com tantos e tantos outros, com os quais compartilhamos nossa vizinhança e contemporaneidade. Ele se constitui como chão em que pisamos com nossos pés, direcionando-nos para onde quisermos. Dentro dos limites geográficos em que se insere, é identificado com o nome com que é reconhecido. Em nosso caso específico, chamamo-lo de PENHA DE FRANÇA.

Com nosso bairro estabelecemos uma relação de amor e de ódio. Amamos o que nele e dele gostamos e odiamos o que nele e dele não nos agrada. Envidamos esforços para que o primeiro (positivo) seja otimizado e o segundo (negativo) minimizado.

Celebramos, com alegria e felicidade, nosso corpo e nosso ser inteiro no dia em que comemoramos mais um ano de vida. Devemos, igualmente, celebrar com alegria e felicidade toda vez que dotamos nossa casa com alguma melhora em suas condições de convívio e de acolhimento. Por fim, faz bem ao nosso corpo e à nossa alma compartilharmos, com alegria e felicidade, da celebração de nosso bairro, quando este é enaltecido em sua história, expressas nos sinais deixados por seus caminhos percorridos no tempo.

Sinais materiais e imateriais, referências do passado vivido por nossos antecessores, podem ser identificados e, devidamente, valorizados e preservados. Tal valorização não significa que a preservação dos mesmos sirva ao congelamento de sua utilização e desenvolvimento de seu entorno; muito pelo contrário, acoplados ao novo e ao tecnológico, ambos podem ganhar ainda maior expressividade, inclusive do ponto de vista de valorização mercadológica, como acontece em vários países da Europa, principalmente.  

Postado por José Morelli

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Angústia existencial

Trata-se de uma sensação de sufoco provocada por contingências da própria existência. Em latim, a palavra angústia, utilizada no plural, significa desfiladeiro: conjunto de montanhas muito altas que se afunilam em suas bases, formando uma garganta ou passagem estreita e íngreme. A angústia é sentida no peito e na garganta. A respiração não consegue fazer com que o ar entre ou saia dos pulmões, provocando uma espécie de sufoco. A falta de oxigênio nas células, principalmente nas do cérebro, podem acarretar sensação de atordoamento.

A vida com seus impasses pode causar essa sensação tão desagradável e sofrível a um indivíduo, tanto pela forma concreta de como ela acontece, no contexto das condições materiais nas quais se insere, como pelo sentido que lhe é atribuído, em termos de valorização ou de importância.

As contingências de tempo e de espaço são os trilhos sobre os quais a vida desliza. À semelhança de um trem, a existência humana também percorre um a um cada trecho da via férrea, não voltando atrás nem queimando etapas. O presente é sempre a oportunidade única que se apresenta. A vida corporal se mantém por força das repetições: o coração não pode deixar de bater; o sangue não pode deixar de percorrer o corpo inteiro; os pulmões não podem deixar de levar o oxigênio a todas as células. As repetições desses movimentos garantem que a vida no corpo se mantenha viva e presente no corpo.

As interações humanas com o mundo material também se dão através de repetições constantes e ininterruptas: segundos e minutos que se sucedem, horas formando dias e noites, semanas, meses compondo estações, anos... Para que não terminem, é preciso que outro se inicie sem que se admitam finalizações. Se não houver recomeço, a vida simplesmente se acaba.

A perspectiva do fim da vida corporal paira constantemente sobre a cabeça de todos.  A limitação do viver tem capacidade e força de gerar uma angústia existencial, à semelhança da espada de Dâmocles. Sobre a cabeça deste personagem, de acordo com o que narrou Cícero (106 a.C), foi pendurada uma espada, presa apenas por um fio de rabo de cavalo e isso fez com que ele perdesse o interesse por tudo o que a vida lhe podia estar oferecendo de bom e prazeroso.

Postado por José Morelli