sábado, 9 de abril de 2022

“É muita areia pra meu caminhão!”

O que é que se esconde por detrás dessa expressão tão usual entre nós brasileiros?... – Escondem-se, pelo menos, dois conceitos: o que é simbolizado pela areia e o que é simbolizado pelo caminhão. O primeiro deles é acompanhado do qualificativo muita. E o segundo é antecedido do pronome possessivo meu. O sujeito da frase, portanto, é a pessoa que a pronuncia, considerando-se a partir de seu próprio juízo como insuficiente ou incapaz. A frase, raríssimas vezes, é utilizada em sentido literal.

Muita areia pode se referir a uma pessoa muito bonita, muito sedutora, muito rica, muito prendada, muito inteligente, de condição social mais elevada, etc. etc. Pode também se referir a um bom emprego, a uma situação entendida como inacessível tendo em vista a exigência de qualidades que demanda para ser almejada.  

Acontece também dessa frase ser afirmada, com ênfase, por outra pessoa: “Você não se enxerga, não está vendo que é muuuita areia pra seu caminhãozinho?”... Nesse caso, a responsabilidade é de quem faz a afirmação. Se este é movido por boa intenção, sua advertência pode servir como um alerta, no sentido de proteger a quem viaja acreditando em um sonho impossível e irrealizável.

É claro que ambas as frases podem ser expressas levando em conta razões objetivas. No entanto, estas também podem ser expressas levando em conta ideias puramente subjetivas, sem fundamentos na realidade das pessoas e dos fatos. Quem pode saber, exatamente, o pensamento que se encontra na cabeça de cada pessoa?... Enganos homéricos acontecem principalmente em questões de relacionamentos pessoais. Diferenças, muitas vezes, não são vistas e entendidas como motivo de inviabilizar relacionamentos. Ao contrário, estas podem servir como motivação positiva para envolvimentos com ricas possibilidades de complementação. Não é raro acontecer de que opostos se atraiam, construindo excelentes resultados. 

Postado por José Morelli

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Dialogar com a natureza

 Sem deixarmos de nos entender, a nós seres humanos, como fazendo parte da natureza em seu conjunto, nosso diálogo com o ambiente que nos cerca se dá constantemente, ininterruptamente, desde o momento em que cada um de nós começou a existir.

Dialogar é trocar mensagens, é estabelecer relacionamentos que acarretam modificações nos interlocutores. Dialogar é olhar para uma árvore florida e receber dela a imagem de suas formas e cores. Dialogar é pisar o chão com os pés e ter, a partir dele, o apoio para impulso de direcioná-los para a direção que quisermos. Dialogar é trocar com o calor, com o frio, com a chuva e com o ar úmido ou seco. Dialogar é fazer-nos entender e entender, chegando a denominadores comuns.

A natureza em sua imensidão é de todos e para todos. O diálogo é individual e coletivo. É uma tarefa que necessita de múltiplos e bem intencionados olhares. A água, os recursos hídricos que abastecem (ou deveriam abastecer) os reservatórios das cidades, em seu diálogo indispensável, fala e ouve com as populações e seus governantes. Dialogar com a água é entendê-la em suas abrangências e em suas particularidades.

Desde às 5:20 horas do dia de hoje (23 de setembro), a estação da primavera aportou em nosso hemisfério sul. A força da natureza ainda tem encontrado meios de se manifestar, mostrando-se mediante algumas de suas mais lindas expressões. É com flores de múltiplas cores e formas que a natureza nos convida a estabelecermos com ela um construtivo diálogo.

Um ensinamento oriental diz o seguinte: “Deus sempre perdoa, os homens às vezes e a natureza nunca”. O abuso no uso das tecnologias anda desviando os olhares daquilo que é mais fundamental e necessário. Quantos tropicões a fixação nos celulares já provocaram em tantos e tantas?... Que eles possam servir como alertas para que nosso diálogo com a natureza se construa sem que a partir dele precisemos amargar perdas irreversíveis.  

Postado por José Morelli

sexta-feira, 18 de março de 2022

Análise institucional

 Ou, se quiser, pode trocar a palavra análise por psicanálise institucional. De um jeito ou de outro, o instituído nunca deixa de trazer, em si, as marcas das pessoas responsáveis por sua feitura ou institucionalização, mediante uso de suas respectivas capacidades mentais e emocionais. Toda análise, para ser mais abrangente e profunda, não deve desprezar nenhum aspecto ou observação daquilo que é analisado, tudo tem seu por que: sua razão de ser ou justificativa. Nada é atoa: sem significado ou importância.  

Um exemplo bem nosso: desde que a Igreja do Rosário da Penha passou a ter maior visibilidade, com seu tombamento como patrimônio histórico pelo CONDEPHAAT em 1982 e, talvez mais ainda, com sua interdição pelo CONTRU em 1999, falas a respeito dela vêm sendo propaladas e, nem todas com o devido fundamento e consistência. Há quem diga que ela foi construída de costas para o antigo Santuário por que, naquele tempo, os negros escravizados ou libertos eram proibidos de nele entrar, sendo permitida entrada apenas aos brancos. Não existe nenhum documento que comprove que isso tenha acontecido por aqui. Em templos católicos de outros lugares não há dúvida que funcionava essa proibição, considerada correta e justa pelos mandatários da época.

Numa análise institucional, no entanto, não se pode descartar a hipótese de que os construtores do Rosário, os membros da Irmandade dos Homens Pretos da Penha de França, possuíam maior identificação com aqueles que se encontravam no sentido leste da cidade ou daqueles caminhos que conduziam às cidades ou povoados de São Miguel, Guaianazes, Conceição dos Guarulhos, Mogi das Cruzes e ao Vale do Paraíba, mais do que para o oeste, onde se instalavam os poderes constituídos, civis e religiosos, da então Vila da São Paulo de Piratininga.    

Hoje, não só por ironia do destino, a paróquia da Penha se encontra subordinada à diocese de São Miguel Paulista, mesmo que sua população, em grande parte, demonstre estar ideologicamente alinhada àqueles que, financeira e socialmente, são identificados como os mais bem sucedidos materialmente falando e que residem em zonas elitizadas da cidade; diferentemente da população da Vila Madalena se alinhar, comercial e politicamente, a segmentos mais populares da sociedade e menos providos de amparos legais.

Postado por José Morelli

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

"Os vou-lás e os vai-timboras"

 Diante de tantas notícias de guerras, nossas cabeças ficam se perguntando, buscando explicações e tentando entender, um pouco melhor, sobre o que está acontecendo no mundo. Nas rodas de conversa, sempre vem o assunto sobre ela. Pouco a pouco, trocando informações, vamos construindo ideias e, na medida do possível, montando nosso “quebra-cabeças” de entendimentos sobre este e outros assuntos.

As guerras não são de hoje, como todos sabemos. Diferenças, desigualdades, sempre estiveram presentes em todas elas. Davi e o gigante Golias são um exemplo dessas desigualdades. Conta a Bíblia que o pequeno Davi conseguiu vencer Golias, utilizando-se de uma funda (uma espécie de estilingue da época). O escritor Maurice Druon, em seu livro: “O Menino do Polegar Verde”, fala da guerra entre os “vou-lás” e os “vai-timboras” – nomes sugestivos, que representam os contendores de quase todas as guerras: invasores e invadidos (agressores e agredidos).

No livro, o autor fala das desigualdades. Enquanto uns tinham muito e podiam gozar de todo o bem-estar; outros viviam em lugares feios e insalubres. Com seu dedinho verde privilegiado, o menino conseguiu transformar esses lugares, fazendo com que, neles, nascessem flores, muitas e belas flores, transformando-os em aprazíveis e saudáveis jardins. O final da história revela aspectos importantes, que ajudam a entender o que “rola” por de trás desse tipo de acontecimento. Na verdade, as guerras têm seus produtos e subprodutos. Sempre existem aqueles que esperam tirar proveito delas. Para estes, importa menos que se percam vidas humanas, desde que possam atingir seus objetivos.

Pelo menos teoricamente, nas atuais guerras, as desigualdades entre os contendores são flagrantes. Por um lado, armamentos de última geração teriam como condição preservar vidas de civis, destruindo apenas aqueles alvos em que se encontram soldados inimigos e armas; por outro lado, armamentos obsoletos e nada convencionais, que transformam pessoas em bombas destruidoras. De nossa parte, somos espectadores desse imenso teatro de tragédias. Se é por nós, para mover-nos e convencer-nos de alguma forma, que eles estão dando todo esse espetáculo de poder e de força, que tal se desligássemos a televisão e conversássemos um pouco mais sobre como fazer para construir, sem que para isso precisemos, antes, destruir tanto!...

Postado por José Morelli

 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Exercício de introspecção

Introspecção é um olhar para dentro de nós mesmos, um voltar-nos para o nosso próprio interior. Nossa mente é capaz de se concentrar em algum ponto específico na parte interna de nosso corpo. Concentrando-nos nesse ponto, nos deixamos envolver por ele, conscientizando-nos, assim, de como ele é sentido e percebido por nosso pensamento.

Para exercitar-nos na introspecção, pode e deve ajudar-nos o uso de nossa imaginação. Imaginemos, então, que nossa mente é como uma pequena câmera de televisão, que vasculha parte por parte nosso corpo em alguns de seus órgãos e funções vitais. O ato de respirarmos pode ser o ponto inicial desse exercício. Concentramo-nos nele e percebemos o seu funcionamento. Acompanhamos todo o processo em que o ar é sugado do ambiente externo e se introduz, através das narinas, se conduzindo até nossos pulmões. Percebemos como isso tudo acontece automaticamente, de forma espontânea e natural. Na medida em que nossa mente se concentra, ela vai se apropriando do processo vital de respirar e de expirar, possibilitando de que este se realize de forma mais tranquila e profunda, com um aumento gradativo da quantidade de oxigênio em cada nova sucção do ar.

Da respiração, a camerazinha da mente se desloca para se concentrar nas pulsações do coração. Nosso pensamento se centra e se deixa envolver por suas batidas. Percebe e sente cada movimento. Funde a energia da mente com a energia de cada pulsação. A mente não cria o movimento vital do coração, apenas o acompanha e se conscientiza de sua ocorrência, apropriando-se dele. O controle da mente no sentido de manter-se concentrada num único ponto, já se constitui como um exercício altamente relaxante e desestressante.

Das pulsações do coração, a camerazinha pode se concentrar em outros órgãos e funções internas. De preferência, que sejam pontos em que algum sintoma esteja se manifestando, através de alguma sensação, confortável ou desconfortável. Todo sintoma é uma forma que o organismo se utiliza para chamar a atenção da mente. Sem se deixar contaminar com imaginações negativas, é importante que a mente não fantasie idéias preconceituosas a respeito do sintoma. O exercício de introspecção ajuda para que pensamento e sensações se acoplem, se reconheçam e se desvendem em seus segredos íntimos, apropriando-se ambas de suas respectivas energias vitais.

Postado por José Morelli

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Seres únicos

 Cada indivíduo é único, funcionando física, mental e emocionalmente com seu jeito próprio de ser. O preço de ser quem é e como é, exige sempre algum pagamento a ser feito. O DNA herdado, somado às contingências históricas, vivenciadas desde o útero materno, se constituem como condicionantes para o desenvolvimento das maneiras próprias de cada um de nós, na condição de pessoa única (e una), inconfundível na própria realidade em que nos constituímos.

A beleza da vida humana se encontra na possibilidade desta se recriar, na medida em que se confronta com novos desafios. A constatação, o reconhecimento das próprias limitações e dificuldades, associado ao inconformismo frente às perdas indesejáveis que estas acarretam, pode ser entendido como oportunidade que a vida dá (à semelhança de uma bola levantada na frente do gol), a fim de que marquemos não apenas um, mas muitos gols.

Mesmo que, como diz o provérbio popular: “quem segue aos seus não degenera”, ainda assim, a reprodução dos comportamentos apreendidos não é suficiente para o atendimento das constantes demandas do presente. Estas são sempre revestidas de alguma dificuldade nova e necessitam de novos e novos aprendizados, a fim de que se ampliem nossos repertórios de respostas a serem dadas em cada situação.

Quem, por medo de aventurar-se, busca os caminhos mais batidos, inevitavelmente acabará por capitalizar perdas irreparáveis em sua trajetória de vida. Quem, por dificuldade de se reconhecer em suas características próprias pessoais, familiares e antropológicas, recusando-se a identificar-se com os padrões herdados e adquiridos na própria história compartilhada de vida, acabará também por construir-se de maneira insatisfeita, negando-se a si mesmo felicidade e realização.

Postado por José Morelli

 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

"De medo de morrer, não viveu!"

 Medo se contrapõe a coragem. Esta é capaz de apostar mais na força da saúde, enquanto que o medo é mais vulnerável e sensível ao poder da dissociação da doença e da morte. Por efeito do medo, o corpo e o espírito se encolhem. Por efeito da coragem, ao contrário, o corpo e o espírito se expandem, podendo ultrapassar-se em seus limites, chegando a lugares e situações nunca antes alcançados.

A mãe que teme exageradamente pela sobrevivência do filho, impede-o de desafiar-se e de expandir-se em suas potencialidades. Com isso, causa-lhe um grande prejuízo que é o de não deixa-lo crescer e tornar-se um ser adulto autônomo. Para assegurar-se de mantê-lo preservado faz com que sua vida pessoal e social permaneça pequena, circunscrita tão somente aos limites da própria casa e do grupo familiar a que pertence.

Por detrás de cada atitude humana reside sempre um modo de pensar (conceituar) e de sentir a existência de si e dos outros. Visões objetivas são capazes de reconhecer o que existe de positivo e o que existe de negativo nas pessoas e na vida em geral. Num mundo onde se acentuam situações extremas, enquanto uns se arriscam expondo-se a riscos num número crescente de esportes radicais, outros se fecham em copas não se atrevendo nem a levantarem os olhos para verem e encararem o que se encontra diante deles.

O fato de possuir um convênio médico de qualidade pode ser um fator positivo no cuidado com a saúde pessoal e familiar. Um equilíbrio na utilização dos recursos por ele oferecidos ajuda, tanto na saúde física como na saúde psíquica daqueles que podem contar com tal assistência. No entanto, a facilidade de acesso às consultas médicas, exames de todos os tipos, tratamentos e cirurgias pode induzir a excessos.

Entrar na engrenagem de preocupações neuróticas, desacreditando totalmente de si e da própria capacidade de manter-se sadio constitui-se como um perigo real. Inconscientemente, essa condição de maior poder que os outros faz com que o indivíduo sinta o ego massageado quando fala, com propriedade e conhecimento de causa, sobre médicos, tratamentos, remédios. Os assuntos de pessoas assim preocupadas, invariavelmente, passam a girar em torno do tema da insegurança gerada pelas doenças. Assuntos mais leves e descontraídos deixam de fazer parte das conversas, substituídos por estórias infindáveis sobre doenças, tratamentos e remédios.

Postado por José Morelli