sábado, 17 de março de 2018

Hostilidade

A palavra hostil vem do latim e significa agressivo, briguento. Hostilidade é o sentimento de estar contra, de ser inimigo; de estar sendo provocado. É lógico e compreensível que a hostilidade apareça nas atitudes agressivas, irônicas ou provocadoras. Nestes casos, ela se apresenta de forma explícita, clara e sem disfarces.

Acontece, às vezes, de a hostilidade se esconder atrás de atitudes que, aparentemente, não combinam com o espírito belicoso e guerreiro. O esmero da “dona de casa”, que exagera no cuidado pela limpeza e organização da casa, pode esconder uma hostilidade, uma raiva oculta atrás de tanta dedicação e esforço. O desenho de figuras humanas, com boca de palhaço, pode ser a expressão da presença de uma hostilidade reprimida. A dificuldade de demonstrar desagrado, quando o certo seria fazê-lo, leva a pessoa a desenvolver maneiras inadequadas de manifestar suas emoções.

Já é proverbial a história do indivíduo que, ao receber uma violenta pisada bem no lugar em que se encontra seu calo de estimação, no dedinho do pé, ainda pede desculpas a quem o pisou. A hostilidade, disfarçada ou sem disfarces, pode estar presente em casa, no trabalho ou em qualquer outro tipo de relacionamento.

O medo de demonstrar o que sente, verdadeiramente, faz aumentar o cuidado, levando a atitudes mais camufladas e falsas. Toda essa hostilidade não pode ficar represada. Precisa encontrar uma válvula, através da qual possa extravasar. Proibida de se manifestar naturalmente, a raiva vai encontrando outros meios de ter vazão, podendo se transformar numa somatização (gastrite nervosa ou qualquer outra doença), numa fobia, num descontrole nervoso, numa depressão, numa mágoa profunda, num desgosto de viver, num desleixo em se cuidar.

Quando uma criança é tratada com muito rigor, sendo exageradamente reprimida ao manifestar sua agressividade, corre o risco de desenvolver uma hostilidade contida/reprimida. Desde o ambiente familiar, a criança é obrigada a conviver com a hostilidade. Mais ainda quando tiver que enfrentar a vida na sociedade. A boa educação deve preparar a criança para que saiba fazer uso equilibrado dos meios necessários à sua defesa e proteção, para que possa se manter em paz consigo mesma, na infância e no decorrer de toda sua vida.

Postado por José Morelli

sábado, 3 de março de 2018

Amar, amar-se e ser amado (a)

Eis um tripé sobre o qual deve se apoiar a vida afetiva das pessoas. A falta de qualquer um desses apoios desiquilibra a vida, impedindo-a de manter-se em segurança. Para que o ser humano possa crescer com harmonia junto a seus pares, precisa desenvolver, em si mesmo, as capacidades de dar amor aos outros (amar), de devotar amor para consigo (amar-se) e de ter o amor de outros para si (ser amado/a).   A interdependência entre esses amores exige que, para poderem crescer e se desenvolver, eles se ajudem mutuamente, contribuindo uns com os outros.

Uma banqueta de três pés, só pode manter-se firme se tiver seus pés com tamanhos iguais. De maneira semelhante: dar, dar-se e receber amor são necessidades que devem ser satisfeitas a partir de um mínimo de equilíbrio. O empenho, para concretizar esse objetivo de vida, cabe principalmente à pessoa adulta. Na medida em que esta se dá conta da capacidade que tem, para assumir e governar a própria vida tornar-se mais responsável perante si mesma e perante aos outros.

Saber administrar o amor, em suas várias direções é de importância capital para as pessoas em suas individualidades e em suas dimensões sociais. A sociedade também se beneficia do equilíbrio afetivo/emocional de cada um de seus membros. Através de princípios éticos, o amor é proposto a todos. Negligenciar os princípios que norteiam o amor causa prejuízos à saúde física e psicológica das pessoas e dos grupos sociais.

O amor se desdobra de múltiplas formas e em várias direções, seja através de atos que exijam renúncia e abnegação seja através de atos que proporcionem puras satisfações. O saber receber a atenção de outro, por si só, já é uma forma de amar. Para exercitar-se no amor é preciso empenhar a própria inteligência e vontade, bem como os demais dotes do corpo e do espírito. Amar é colocar o melhor das próprias capacidades a serviço da pessoa amada. O exercício desse amor ajuda na superação de preconceitos e contribui para o aprimoramento da vida.

Em nome do “amor”, a humanidade já praticou atrocidades. A lição que ficou da história deveria servir de alerta para que tais injustiças não viessem a se repetir. Infelizmente, parece que o equilíbrio entre as formas de amar ainda está longe de ser alcançado entre as pessoas e os diversos segmentos sociais, mantendo o mundo em constante risco de se autodestruir. Frente a tamanho risco, não há a cada indivíduo outro caminho senão o de que, com afinco, buscar o equilíbrio em amar, amar-se e ser amado (a). 

Postado por José Morelli

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Medo de curar-se

Por absurdo que possa parecer, a hipótese de que uma pessoa permaneça tomada pelo medo de curar-se não é tão improvável que se confirme na prática. Na verdade, tal fato pode até servir como excelente álibi.  Um problema de saúde cairia, sob medida, adequado para representar um impedimento justificado ao uso normal das próprias capacidades, tanto perante aos outros como perante a si própria, uma vez que, caso se obrigasse a um trabalho ou ocupação mais exigente, se sentiria imensamente sobrecarregada, bem além das próprias forças sejam estas físicas e/ou mentais/emocionais/espirituais.

Colocando em dois pratos da balança: num, a doença e, noutro, o fantasma que representaria o enfrentamento de um trabalho formal, não é tão difícil entender o porquê de a pessoa preferir escolher o que estaria depositado no primeiro prato e não no segundo. Este seria mais condizente com a imagem que possui de si mesma e que traz em seu pensamento e em seu sentimento.

É evidente que ninguém, em sã consciência, declararia explicitamente de que é o medo que a está impedindo de curar-se. Socialmente, é inaceitável que alguém possa utilizar-se desse tipo de “malandragem”, apenas para ser poupado de um sofrimento que se lhe apresenta mais incômodo do que a própria doença.

O que foi dito até aqui, pensando a questão do medo da cura num indivíduo qualquer, pode também ser ampliado para o que acontece ou pode acontecer com os cidadãos, entendidos como coletivos: famílias; escolas; grupos sociais; pessoas de determinadas regiões de um país; um país em seu conjunto. Se a imagem que esses coletivos constroem em seus imaginários forem depreciativas: de não competência para o exercício profissional ou de uma maior autonomia, dificilmente não serão vítimas do próprio medo de enfrentarem os desafios de encararem situações que exijam maiores esforços e competências. 

A dificuldade que se apresenta neste nosso momento histórico de escassez de ofertas de trabalho, a demora de se poder conseguir algum emprego, a não possibilidade de encontrar outra colocação no mesmo nível salarial da que tinha antes, isso tudo pode gerar tanto constrangimento que não é tão difícil de a mente não criar um mecanismo de defesa no sentido de blindar o sujeito. O preço de uma situação como esta pode ser bem caro. As defesas caem e a possibilidade de se contrair alguma doença se torna ainda mais fácil. 

Postado por José Morelli

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Capturar orquídeas

No colégio em que estudei, havia uma floraria onde eram cultivadas, além de outras plantas, algumas espécies de orquídeas. Durante as férias, uma das atividades preferidas era a de capturar orquídeas nas matas. A experiência várias vezes repetida mostrava que: enquanto os olhos não se adaptavam ao ambiente, as orquídeas não se permitiam serem vistas. Era surpreendente como, depois dessa adaptação, elas iam aparecendo com mais facilidade, cada uma com seu colorido e formas próprias. Devidamente localizadas, subíamos nas árvores e destacávamos suas raízes dos troncos, retirando parte delas para que servissem como novas mudas.

Embora comparações nunca sejam totalmente aplicáveis, com relação ao reconhecimento de qualidades humanas, acontece fenômeno parecido com o que acabei de descrever a respeito do que acontece com as orquídeas. Notícias ruins costumam impactar mais o pensamento e a sensibilidade do que notícias boas. A audiência de programas que noticiam desgraças e catástrofes vem aumentando seus espaços nos meios de comunicação e sobrecarregando o imaginário da sociedade.

Não podemos deixar de “Capturar orquídeas” dentro de nós mesmos e nas pessoas com as quais interagimos. A mesma atenção que é necessária para a descoberta de lindas plantas, confundidas com os sombreados das copas das árvores, devemos ter ao voltar-nos nossa atenção em nós mesmos e nos outros, a fim de desvendarmos nossos lados bons e bonitos, valorizando-os. Equilibrando-nos entre as percepções do positivo e do negativo, apostamos na grandeza dos seres humanos e em suas capacidades, assegurando-nos de que somos potencialmente fortes para lançarmo-nos na vida sem medo, com otimismo e determinação.

Capturar orquídeas nos lugares mais inimagináveis nos inspira à arte do bem viver. O imediatismo nos impossibilita de descobri-las. Corremos o risco de desistir antes de encontra-las. Precisamos pairar nossos olhos sobre o mundo e sobre as pessoas, sejam elas quais forem: crianças, adultos ou velhos, brancas, negras, amarelas ou vermelhas, cultas ou incultas, elas todas trazem em si mesmas algum tipo de beleza digno de ser reconhecido e admirado. O reconhecimento das coisas boas, necessariamente, não nos impede de que também saibamos reconhecer o que se opõe ao bem e à beleza. Pelo contrário, esse discernimento nos dá mais capacidade interior de encará-los e enfrenta-los com mais objetividade e segurança.   

Postado por José Morelli

sábado, 27 de janeiro de 2018

Aceitação

De si mesmo e da realidade que se encontra à volta. Aceitação não se confunde com acomodação. Muito pelo contrário, entendendo a realidade como efetivamente ela é e não da forma como gostaria que fosse, não se proibir de conquistar novas maneiras de responder aos desafios. Para poder transpor um terreno pantanoso é preciso reconhecê-lo em suas condições reais. Se for necessária a utilização de algum meio que ajude na passagem, é indispensável que a este se recorra: uma tábua, talvez, que possa servir de apoio e sobre a qual se consiga dividir o peso do próprio corpo. Utilizada como apoio para um salto, esta pode permitir chegar ao outro lado do terreno movediço. Retomado o solo firme, é possível continuar o caminho na direção desejada, aumentando a autoconfiança e segurança.

Os acontecimentos são oportunidades que a vida oferece às pessoas, para que estas se descubram a si mesmas: tanto em suas capacidades como em suas limitações, tanto em suas facilidades de encará-los e enfrenta-los como em suas dificuldades. As experiências adquiridas nesse enfrentando permitem-lhes que se construam em suas capacidades, somando novas constatações a respeito de si próprias.

As formas diferenciadas com que se apresentam os terrenos sobre os quais se é necessário pisar, para que se chegue aos lugares almejados, permitem o desvendamento tanto da própria realidade como da realidade do meio externo e das pessoas com as quais são estabelecidos os relacionamentos.

Quem deseja modificar-se em seus modos de responder às demandas da vida, precisa aceitar-se nas condições que possui para enfrentar a tarefa de empreender a própria mudança. Precisa ter a coragem de se ver e de se reconhecer da forma como efetivamente é, coerente com a própria realidade e verdade. Precisa, também, ter objetividade quanto ao que se propõe construir.

A psicologia tem se dedicado a ajudar muita gente a transpor terrenos que apresentam os mais diversos tipos de dificuldades para serem transpostos. Não dá para dizer que a superação dessas dificuldades se dê num passe de mágica. Exige, na verdade, muito esforço e determinação, da mesma forma como acontece àqueles e àquelas que não esmorecem frente à necessidade de transporem perigosos pântanos. 

Postado por José Morelli

sábado, 20 de janeiro de 2018

Conotar

Na medida em que nos apropriamos da linguagem, a fim de podermos expressar melhor a realidade em sua maior abrangência, as palavras (faladas ou escritas) vão ganhando novas conotações e enriquecimento de sentidos, permitindo-nos entendimentos que julgamos deverem ser inseparáveis em suas compreensões e consequentes mobilizações de nossas tomadas de atitudes.

Conotações se estabelecem instantaneamente: é assim que nossa mente funciona. Dentre as alternativas de possibilidades que tenhamos condição de escolher, é preferível que adotemos um pensamento aberto, no sentido de não nos deixar-nos aprisionar por neuroses. O medo é um de nossos piores inimigos, venha ele a partir de nós mesmos ou a partir de agentes externos, que nos influenciam a partir de fora.

Ao ouvirmos certas palavras, imediatamente associamos ideias positivas ou negativas a respeito do que elas representam. Assim como alguns nomes ou palavras exercem sobre nós atração, há outros que nos provocam repulsas. Em tempos de eleições, somos disputados por aqueles que precisam de nosso apoio. Até a adrenalina do nosso corpo é acionada, dependendo das fantasias a que tais pessoas se associam.

De antemão, é importante que não nos iludamos com promessas de soluções definitivas dos problemas. Não é a ausência de problemas que nos garantiria realização pessoal e social. Ao resolvermos uns, outros e outros se sobrevêm não nos dando trégua em tempo algum. Com isso, apesar do incômodo que isso naturalmente nos causa, ampliamos nossas capacidades de compreensão/absorção da realidade em seu todo.


Postado por José Morelli 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Aprofundar

De “fundo” se constrói a palavra “profundo” bem como o verbo “aprofundar”, que significa descer às camadas inferiores do solo. Ao observar grande parte das plantas conhecidas, percebemos que elas provêm de debaixo da terra. Ao emergirem, o movimento que fazem é no sentido para cima, aflorando e vindo a desenvolver-se ao ponto de darem frutos. As sementes desses frutos cumprem um movimento circular: das que voltam ao solo e se aprofundam neste, brotam novas raízes que dão origem a novas plantas, perfazendo assim sucessivos ciclos de vida.

Linearmente, o novo ano que está começando, nos disponibiliza 365 dias para que neles aproveitemos, da melhor forma, o fato de estarmos existindo. Grande oportunidade que nos é dada de ampliarmos e aprofundarmos nossos conhecimentos e experiências. De igual maneira como somos capazes de saborear os gostos dos alimentos, assim também somos capazes de saborear aquilo tudo que chega à nossa mente, dando-nos consciência de quem somos e de como somos e da realidade, à nossa volta, da qual fazemos parte.

Dois pré-requisitos são necessários para podermos enveredar por esse caminho de autoconstrução horizontal e vertical: amor e humildade, que nos permitam aprender através das oportunidades que a vida oferece, sejam elas entendidas como de pequenas ou de grandes significâncias, advindas de nós mesmos ou de outros com os quais compartilhamos nossos dias, horas, minutos e segundos.

Na medida em que avançamos na profundidade de nossas descobertas, deixamos de ser tão facilmente enganados por proposições egoístas e contrárias aos valores mais condizentes com a dignidade humana; além disso, nos tornarmos capazes de ampliar nossos horizontes de visão do mundo, capacitando-nos assim de contribuir à construção, com os outros, de uma sociedade mais harmônica e respeitadora da liberdade de cada um, sustentável ambiental e economicamente.

Postado por José Morelli