segunda-feira, 24 de agosto de 2026

CENTRO HISTÓRICO DO BAIRRO DA PENHA

 RESOLUÇÃO Nº 13/CONPRESP/2018

Por esta resolução, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP, no uso de suas atribuições legais e nos termos da Lei nº 10.032, de 27 de dezembro de 1985 com as alterações introduzidas pela Lei nº 10.236, de 16 de dezembro de 1986, pela Lei nº 14.516, de 11 de outubro de 2007 e de acordo com a decisão dos Conselheiros presentes à 664ª Reunião Extraordinária, realizada em 26 de fevereiro de 2018...

RESOLVE:

 Artigo 1º - TOMBAR o CONJUNTO DE BENS constitutivos do espaço urbano na ÁREA DO CENTRO HISTÓRICO DO BAIRRO DA PENHA,

 A saber:

 I – Edificações -

 II – Espaços Públicos, Traçado Urbano e Obras de Engenharia em logradouros públicos –

Pré-História: “Fragmentos descobertos no bairro da Penha podem datar de antes da descoberta” (Folha de São Paulo – edição na Folha Ciência de 25 de Janeiro de 2005):      (Anexo 1)

HISTÓRIA:

A presença da primeira capela deu origem ao povoado. Pela distância do centro, este se tornou lugar de pouso tanto para os que saiam da cidade como para os que a ela chegavam.

Já nos documentos que se referem à capela desde os tempos do Padre Jacinto Nunes de Siqueira, considerado pelo historiador penhense Dr. Sylvio Bomtempi como fundador do bairro da Penha, havia junto à capela um curral, onde provavelmente eram colocados os animais dos viajantes e tropeiros. A partir daí, surgiu uma estrutura de acolhimento como estalagem, armazém e outros locais onde eram prestados serviços que atendiam às necessidades não só das pessoas como também dos animais (ferreiros, seleiros, etc). Alguns donos de terras (sesmeiros) e seus familiares e serviçais (escravos indígenas ou negros) deveriam vir com frequência ao povoado onde se davam as principais transações comerciais daquilo que produziam.

 

ORIGEM MÍTICA (relacionada ao imaginário):

- A Lenda do Viajante Francês.

Para melhor falar dessa lenda, nada mais inspirador do que traze-la na forma de poesia. Assim a ela se refere a saudosa poetisa penhense Elisa Barreto (Anexo 2)

Outro acontecimento que reforça a crença de que Nossa Senhora da Penha escolhera o bairro para morar é o referente ao bispo do Rio de Janeiro Dom José de Barros Alarcon que, tendo vindo a São Paulo em 1867, trazia a intenção de levar a imagem de Nossa Senhora da Penha para um convento recém-construído em sua diocese. (Anexo 3)

 

ROSARIO

Templo histórico e patrimônio tombado pelos dois órgãos de preservação de Patrimônio: O Condephaat (Estadual) e o Conpresp (Municipal) incluíram a Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Penha entre os edifícios antigos merecedores de cuidados especiais na cidade de São Paulo. O resumo de seu significado histórico está consignado em uma lápide, que se encontra no interior da igreja. O texto foi redigido pelo historiador penhense Dr. Sylvio Bomtempi e contém os seguintes dizeres: (Anexo 4)

Nossa Senhora da Penha PADROEIRA da Cidade de São Paulo

O papel da fé, que se construiu no imaginário da população da cidade de São Paulo a respeito de Maria, a Mãe de Jesus dos evangelhos, foi o de que ela era a padroeira, a intercessora junto de Deus em todas as necessidades do povo, considerado de forma pessoal e/ou coletivamente, o que propiciou grande protagonismo (primeiro) ao povoado da Penha, e (depois), a partir de 1796, à Freguesia de Nossa Senhora da Penha, tanto pelas idas da imagem à sede da diocese quando a cidade era atingida por grandes secas ou epidemias, como nas ocasiões das festas em setembro, quando vinham para o bairro peregrinos de toda a cidade e de cidades vizinhas também. Na Basílica de Nossa Senhora da Penha, existe um vitral que se estende de um lado a outro acima de sua porta de entrada. Este vitral retrata uma das idas, em procissão, da imagem à sé catedral de São Paulo. Ele deve ter mais de 10 metros de comprimento por 2,5m ou 3,0 de altura.

Quanto às vindas dos moradores da cidade às festas anuais são muitos os relatos a respeito. Para exemplificar, destaco um trecho extraído do romance “Menino Felipe – Primeira Viagem” de Afonso Schimidt com o seguinte comentário sobre festas da Penha de 1918: (Anexo 5)

DOM PEDRO I

Não só teve uma passagem, mas também um pernoite na Freguesia da Penha de França poucos dias antes de proclamar a independência do Brasil. Na entrada da Basílica de Nossa Senhora da Penha se encontra uma placa alusiva a este acontecimento com os seguintes dizeres: (Anexo 6)

CINTURÃO VERDE

Intercâmbios comerciais com o núcleo central da cidade:

No texto publicado pelo prof. Carlos José Ferreira dos Santos, intitulado “Várzea do Carmo – Lavadeiras, Caipiras e “Pretos Veios”, o autor cita de onde vinham os moradores das áreas mais distantes para venderem ali seus produtos, onde se dava o encontro entre os moradores dos arrabaldes de São Paulo com os da área central da cidade. (Anexo 7)

PAULO EIRÓ

Outro registro que descreve a Penha do passado é o do poeta e teatrólogo Paulo Eiró (nascido em 1836). De passagem por aqui, ele escreveu os seguintes versos: (Anexo 8)

DOM PEDRO II

Presença de Dom Pedro II na Penha: Dona Catarina Albuquerque ou de Albuquerque, moradora no bairro da Penha desde criança, tendo vivido por mais de cem anos,     em uma entrevista dada ao Jornal Gazeta Penhense, contou que, quando menina, participou de uma recepção ao Imperador Dom Pedro II que, acompanhado pela Imperatriz Teresa Cristina, foi recepcionado solenemente na igreja de Nossa Senhora da Penha. Disse que, em sua passagem pelo corredor central da igreja, ela e outras meninas, vestidas com roupas especiais, jogaram flores sobre o casal real. A casa onde morou ainda existe e fica na esquina entre as ruas Dr. João Ribeiro e Major Ângelo Zanchi. É voz comum de que essa casa foi a primeira a ser construída em alvenaria no bairro. Em seu quintal há uma nascente que, durante anos e anos, muitos iam a ela saciar a sede.

REVOLUÇÃO DE 1924

O presidente do Estado, Dr. Carlos de Campos, tendo fugido do centro da capital, veio estabelecer seu governo em dois lugares na Penha: na Estação de Trens que, depois, passou a ser chamada com o seu nome e no quartel (delegacia de polícia) estabelecido no Largo do Rosário. Dalí é que eram feitos os despachos. Deste modo, assim como a Penha já havia sido Capital do Império do Brasil, quando o Príncipe Dom Pedro, instalou aqui o Paço de Nossa Senhora da Penha, de onde efetuou despachos no sentido de preparar sua chegada a São Paulo, assim também a Penha e o Largo do Rosário se tornaram Capital do Estado de São Paulo, uma vez que esses lugares foram sede do governo paulista durante a revolução de 24.

REVOLUÇÃO DE 1932

A Penha também teve importante protagonismo durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Nessa ocasião, no livro das Crônicas do Convento dos Padres Redentoristas, se encontra um registro em que é contado que os padres, devido ao grande perigo de que a Penha sofresse ataques aéreos, decidiram colocar a imagem de Nossa Senhora em um barril enterrando-o no quintal que havia nos fundos do convento.

PRESERVAÇÃO DE  PATRIMÔNIOS HISTÓRICOS

Dos bens existentes num passado não tão remoto, poucos restaram...

Sem exagerar, nem de um lado nem de outro, não há dúvida de que a Penha teria um aspecto mais bonito e atraente se tivesse mantido de pé alguns de seus ícones mais expressivos construídos no final do século XIX e início do sédulo XX, tais como

- o Palacete do Coronel Rodovalho                                                                                                     - A Mansão de Dona Maria Carlota de Melo Franco                                                                        - O Antigo convento dos Padres Redentoristas                                                                                - O Solar dos Prates ...

POETA PAULO BONFIM

Em seu poema intitulado “Penha de França” o poeta Paulo Bonfim termina com o seguinte verso: (Anexo 9)

LOURENÇO DIAFÉRIA

E, para encerrar esta nossa conversa, quero lembrar o trecho final da crônica sobre a Penha, que o jornalista, falecido em 2008, nos deixou como precioso legado: (Anexo 10)

 

 

CONCLUSÃO

       O MILAGRE ACONTECEU... ESTÁ AQUI: SOU EU! NÃO SEI SE ESTA CRÔNICA É TODA FICCIONAL OU SE CONTÉM UM DEPOIMENTO PESSOAL. ISSO, PORÉM, NÃO FAZ DIFERENÇA: O IMAGINÁRIO TAMBÉM É PATRIMÔNIO, PATRIMÔNIO IMATERIAL, QUE SEJA!

                                               

ANEXO 1

 

No texto, é feita menção a duas descobertas arqueológicas: de 1920, referente a uma URNA funerária (com esqueleto dentro) encontrada a poucos metros da segunda descoberta, feita pelo arqueólogo da prefeitura Astolfo de Mello Araújo, de cacos de cerâmicas com decorações típicas da tribo tupi-guarani. Os dois achados indicam que no local teria existido uma aldeia indígena. O local seria estratégico; pois, do alto da colina daria uma boa visão do vale do rio Tietê a seus ocupantes.

Muitos são os nomes que têm origem indígena na região: Anhembi (hoje Tietê); Aricanduva; Tiquatira; Guaiaúna; (ruas) Umbó; Aracati; Irapucará; Tuapé e outros.

 

ANEXO 2

 

Eis, aqui, Penha de França – Pela lei chamada assim. – uma Lenda que em criança – ensinaram para mim: - Eram Penhas e mais Penhas – a formar tuas divisas,- eram matas, eram brenhas, - eram ternas tuas brisas. – Tudo em paz. O sol fugia, - “bem-te-vis” faziam sesta- o Tietê, calmo, descia – sob os beijos da floresta. – Aqui veio um cavaleiro, pra trazer Nossa Senhora; - em chegando ao fim do outeiro – descansou por uma hora. – E dormiu, e até sonhou, - tendo ao lado a Santa Imagem; - seu cavalo relinchou – absorto na paisagem. – A Senhora vigiava – a colina e o cavaleiroe o seu rosto iluminava – os recôncavos do outeiro. – De repente o sono passa – e é preciso prosseguir. “Ah! Senhora, dá-me a graça – de um lugar pra construir”. –

Em seus braços, toma a Santa, - que parece relutar, - mas o homem não se espanta, - põe-se, logo, a assobiar. – O “Pintado”, que pastava, - vem de pronto, em disparada, - e o seu dono se aprontava – para nova caminhada. – Segue atalho, afasta espinho, - e troteando a passo esperto – leva a Santa com carinho – sob o sol do céu aberto. – “E o lugar para a capela?” – Nada, nada lhe servia. – A araponga ao sol martela, - e o seu eco alegra o dia. – Fica ouvindo, embevecido, - cantos de ave na ramagem; - não percebe, distraído, - que lhe foge a linda imagem. “Onde está Nossa Senhora?” – Indagou, preocupado... – Se voltara... fora embora... – E ele ouviu o seu chamado – que dizia, ao longe: “venha!” – “Volte”, “volte”, a voz clamava, - e a Senhora sobre a Penha – já bem longe dele estava.

A voz vinha da colina, - onde o homem descansara. – Ele volta, e, ela, Divina, - sob o céu se entronizara. – Estremece, comovido. – Ante a imagem se ajoelha. – Esse fato acontecido – a um delírio se assemelha. – Mas a Santa o reconforta – e entre flores lhe sorri, - com voz meiga e firme, exorta: - “Cavaleiro, eu fico aqui” ... ... ...                                                      

 

ANEXO 3

 

 No dia da transladação, as mulheres do bairro se reuniram para se despedir da querida imagem. Porém, chegando à igreja encontraram as portas fechadas. Imaginando que a santa já havia sido levada às escondidas, começaram a chorar chamando a atenção dos que por ali passavam. A surpresa veio quando, sem serem tocadas, as portas da igreja se abriram o que permitiu a constatação de que a imagem ainda se encontrava em seu nicho no altar. Diante do fato, o bispo desistiu de levar a imagem, dedicando o convento a Santa Teresa.

 

ANEXO 4

 

“Capela – De Nossa Senhora do Rosário – Da antiga Irmandade dos Homens Pretos – Da Freguesia da Penha de França – Testemunha Histórica – Da solidariedade no Sofrimento – E da Esperança da Redenção. - O pedido para sua ereção é de 16 de Junho de 1802”

 

ANEXO 5

A festa da Penha era em 8 de setembro, mas começava muito antes. Para falar a verdade, em qualquer dia do ano a gente sempre encontrava com que divertir-se. Tanto mais naqueles domingos deliciosos de agosto, de céu azul, as paisagens nítidas, de poeira dourada. Os trens partiam da Estação Norte. Pela estrada de rodagem da Penha, formavam-se cortejos de carroças cobertas de ramos verdes, enfeitadas de bandeirolas de papel de seda. Quando chegavam à subida do santuário, os romeiros deixavam os veículos à porta das vendas, botavam um feixe de capim diante dos burros e galgavam à pé, conduzindo grossas velas de cera. Desde manhã que as carroças passavam diante de nossas janelas. Algumas delas levavam famílias. Dançava-se e cantava-se com muita alegria...

“À chegada de cada trem, era uma gritaria, uma algazarra. Roceiros vendiam canas, batata doce assada, cuias de garapa e tigelinhas de quentão. Depois os grupos se punham a caminho da igreja. Ouviam-se queixas de violão, risadas finas de bandolins. Os romeiros caminhavam devagar, colhendo flores dos arbustos que pendiam dos barrancos. Havia gente que parava para contar melhor caso. Ou para tirar o calçado, que lhe espremia os pés. Quando chegamos no Largo da igreja foi um deslumbramento.

Muita barraca, muita gente... As ruas e praças estavam ornamentadas com arcos de bambus. Nesses arcos um baile de flâmulas, de bandeiras coloridas. E de lanternas chinesas, em fieiras curvas, que desciam da torre e iam terminar nas frontarias de algumas casas do largo...”

O texto continua com um relato muito interessante sobre a jogatina que acontecia, paralelamente, à parte religiosa da festa.

 

 

ANEXO 6

 

O Príncipe Dom Pedro – Regente do Reino do Brasil – Chegou a esta Freguesia – Em 24 de Agosto de 1822 – E aqui instalou o Paço de Nossa Senhora da Penha – Partiu no dia seguinte para a cidade de São Paulo – Onde recebido triunfalmente - Proclamou a Independência do Brasil – Em 7 de Setembro de 1822 – Agosto de 1972

 

 

ANEXO 7

 

“Mercado Caipira” ou “Mercado dos Caipiras”, no qual os moradores das áreas mais distantes – Penha, Nossa Senhora do Ó, Santana, Santo Amaro, Guarulhos entre outras localidades - vinham vender seus produtos agrícolas, medicinais, artesanais, madeira e outros artefatos para moradores das regiões mais centrais da Paulicéia.”

 

ANEXO 8

 

“... A que devo então ó Penha                                           Deverei ao santo templo                                                                   Que meu olhar se detenha                                                Que com júbilo comtemplo                                                           Com tanta indulgência em Ti                                             A erguer-se na solidão                                                            Que deslumbre o paraíso                                                   Semelhando-se à asa branca                                                          Onde o primeiro sorriso                                                     De um anjo que o pranto estanca                                                              De minha mãe recolhi                                                        Sobre o cálix da oração ...”     

 

ANEXO 9

“Penha de França, Penha de saudade,                                                                                    Guardai os passos deste romeiro                                                                                                   Que caminhando por mil caminhos                                                                                           Levará sempre no seu passar,                                                                                                           Em manto-brisa de peregrino,                                                                                                            A suave senha de uma lembrança

                                                           “Subindo ruas, buscando luas:   

                                                            Nossa Senhora, luz da bonança   

                                                         Santa  esperança, Penha de França”     

                                                                                                                                                                                                                                                                                    

 

 

ANEXO 10

 

“... Mas se me permite a franqueza                                                                                               Para mim a Penha continua a ser uma lembrança indelével                                                   Ainda vejo meu pai fazendo uma promessa                                                                                De ver o filho livre de uma moléstia                                                                                      Ajoelhado na igreja onde se reuniam os sustos e devotos                                                     Meu pai que já não é vivo teve um milagre                                                                                    O milagre aconteceu”

 

 

                                                                                                        São Paulo, 05 de agosto de 2020

Postado por José Morelli

 

 

 

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