Nas primeiras décadas do século XVII (lá pelos anos de 1.620), a Penha serviu como lugar onde, devido aos surtos de varíola, “os cativos procedentes do Rio de Janeiro e de Santos, através de Mogi das Cruzes, foram obrigados à quarentena no Caminho da Penha”, da mesma forma como acontecia no Lava-pés, com os chegados à Vila de São Paulo de Piratininga pelo Caminho do Mar.
Nesse mesmo
período de, pouco menos de um século antes do encontro da imagem de Nossa
Senhora Aparecida, nas águas do Rio Paraíba do Sul, pelos três pescadores:
Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, sem que tenhamos uma data
precisa do acontecido, um piedoso artesão cuja identidade também não é
conhecida confeccionou uma pequena imagem da Imaculada Conceição com terracota,
a fim de tê-la em sua casa servindo à sua devoção pessoal e à de sua família.
Ninguém poderia imaginar que aquela imagem, da mesma cor da pele dos aqui
escravizados, era predestinada a uma grande missão junto ao povo.
Depois de
ter, durante aquele período de tempo, servido à devoção de algumas gerações
daquela família, acidentalmente ou providencialmente, por força de uma queda da
imagem, esta, tendo batido a cabeça em alguma superfície dura, se desprendeu do
corpo, separando-se dele. Por isso; suas partes quebradas foram jogadas nas
águas do Rio Paraíba do Sul numa área ainda pertencente à Vila de
Guaratinguetá.
As
atrocidades, praticadas por senhores desumanos contra escravizados,
lançaram-nos a fugas impetuosas reunindo-os em quilombos, “arraiais temidos
difíceis de expugnar”. Entre os lugares que mais procuravam para
embrenharem-se, longe da cidade, contavam com os matagais da Penha.
O Brasil
vivia sob o domínio de Portugal. A nação brasileira começava a se formar com a
miscigenação de várias raças - (do índio, do português/europeu e do negro).
Quem governava as províncias eram os membros da nobreza portuguesa aqui:
condes, viscondes, marqueses, barões e outros. Um destes era o poderoso Conde
de Assumar, governador de Minas Gerais e de São Paulo.
Por ocasião
de sua passagem pela Vila de Guaratinguetá, no ano de 1.717, os melhores
pescadores da região foram convocados pela autoridade local, para que fossem
pescar, a fim de trazerem os melhores peixes a serem servidos ao ilustre
visitante e comitiva, num lauto banquete que lhes seria oferecido.
Os citados
pescadores: Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso começaram a
lançar suas redes no Porto de José Correia Leite, continuando até o Porto
Itaguaçu, distante do anterior, sem que retirassem peixe algum. Mesmo assim, não desistiram. João Alves, lançando
a rede de rasto, trouxe nela o corpo de uma imagem, sem a cabeça. Lançando a
rede mais abaixo, a mesma trouxe do fundo do rio a cabeça da imagem, o que
deixou os pescadores muito surpresos.
A partir daí,
a pesca passou a ser abundante, a ponto de os ocupantes do barco temerem que o
mesmo afundasse dado à grande quantidade de peixes. Voltando para suas
choupanas, os pescadores levaram consigo a imagem de Nossa Senhora. Todos
passaram a chama-la de Nossa Senhora Aparecida, colocando-a numa mesa que lhe
servia como altar. Os acontecimentos extraordinários que se seguiram, mostraram
que a missão da imagem era a de devolver a dignidade ao povo negro, tão
desrespeitado em seus direitos.
Passados
trinta e um anos, em 10 de fevereiro de 1748, Inácio Pedroso Aveiros foi
nomeado pelo Senado de São Paulo capitão do mato no âmbito da Penha. Ele
deveria convocar moradores hábeis para, sob seu comando, destruírem os redutos
dos foragidos e matarem os negros resistentes cortando-lhes a cabeça e as
entregando à Justiça: Justiça de um sistema desumano e cruel, totalmente na
contramão da Justiça Divina tão bem expressa na mensagem da pequena imagem de
Maria, Mãe de Jesus e Nossa, a Senhora da Conceição Aparecida.
Postado por José Morelli
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