sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Gentileza

 O dicionário etimológico diz que a palavra gentileza vem do vocábulo gentil. Do latim, gentilis tem o sentido de pertencente à mesma família ou ao mesmo clã. A gentileza nasce do sentimento de igualdade (familiaridade) entre as pessoas. Igualdade fundamental no que diz respeito à dignidade e aos direitos de cada um. Gentileza é a qualidade de quem é gentil, de quem é amável e respeitoso ao se dirigir ao próximo por palavras ou por ações concretas.

Atitudes de gentileza possuem uma força intrínseca. O tratamento amoroso e equânime da mãe para com sua prole serve-lhe como exemplo a ser aprendido e seguido, dentro e fora de casa. É dessa forma que se inicia o processo de educação a partir da relação íntima de cada família. Os filhos disputam o amor dos pais. O desejo de serem preferidos, mais a um que a outro, faz com que se criem disputas entre eles (meninos e/ou meninas). Essa disputa acaba distanciando os irmãos, salientando lhes mais as diferenças do que as semelhanças. A troca de gentileza, no acirramento dessa competitividade, é substituída por maus tratos e agressividade mútua entre pessoas que trazem nas veias um mesmo sangue.

Os modelos de relacionamentos perpassam a humanidade inteira desde os menores grupos até os maiores. Os exemplos positivos ou negativos acontecem em todos os níveis: nas relações entre povos e nações e nas que envolvem não mais do que apenas dois indivíduos. A competitividade estrutural do mercado mundial não esgota o sentido de sustentabilidade, necessária ao bom desenvolvimento da humanidade em sua total abrangência.

Multiplicar gestos de gentileza ajuda a sociedade a criar uma sinergia positiva contagiante. A ação gentil descreve um caminho de ida e de volta. Quem a pratica se constrói em sua dignidade enquanto reconhece a dignidade do outro. Quem recebe a gentileza é instado a reconhecer-se em sua própria importância e a de quem foi capaz de, efetivamente, demonstrá-la. 

Posstado por José Morelli

 

Generalizar

 Generalizar é uma tendência mais ou menos frequente, que pode ser fruto de uma preguiça mental, de um comodismo ou “lei do menor esforço”, às vezes, até mesmo de uma maldade menos consciente. É comum ouvir-se afirmações baseadas em generalizações. Cada pessoa tem sua identidade própria, não merecendo atribuições, só pelo fato de ser desta ou daquela região do país ou por ser desta ou daquela cor ou raça.

Acontece, também, de pessoas que apresentam algum defeito físico serem vistas e tratadas de forma a terem generalizadas essa sua condição de deficiência. Tratam-nas como se sua incapacidade fosse generalizada, vendo-as com mais deficiências do que efetivamente possuem. A cegueira do cego o impede apenas de ver e não de manter-se de pé. É por isso que, algumas vezes, o cego, educadamente, agradece a pessoa que lhe cede o lugar para assentar-se no ônibus. Na verdade, o cego é só cego e não aleijado.

Generalizar é uma maneira simplista de ler e interpretar a realidade. Baseando-se em apenas um ou em alguns motivos, tira-se a conclusão sobre o todo, reduzindo-o e empobrecendo-o em sua compreensão e entendimento.

O filme “Um Estranho no Ninho”, do diretor Milos Forman, mostra bem as consequências desse entendimento limitado, no tratamento dos doentes mentais, confinados em manicômios.

Tratando o doente mental, reduzido no seu entendimento a um único aspecto de sua realidade e desconhecendo sua condição humana plena, como pessoa que é, dotada de capacidades e múltiplas necessidades, o filme mostra os equivocos de certos tratamentos em ambientes fechados e restritos.

Generalizando as condições dos doentes, “Um Estranho no Ninho” mostra a prática de uma rotina que nivela a todos, não reconhecendo as necessidades individuais. Em nome do bem comum, são praticadas pequenas e grandes violências, talvez um retrato ampliado de situações com as quais convivemos muito frequentemente em nossos dia-a-dia “normais”.

Postado por José Morelli

Família

 A família é o lugar onde acontecem relacionamentos muito especiais, distintos de outros, onde não existem vínculos tão profundos e intensos. Os laços de sangue e afetivos, que ligam as pessoas umas às outras, os papéis esperados de cada uma, a proximidade física, a inevitável interação com outros grupos, ora facilitam a organização e funcionamento do grupo familiar e são gratificantes, ora se constituem como obstáculos à consecução dos objetivos pessoais de cada membro ou do grupo, considerado em sua maioria ou em seu todo, e acabam gerando conflitos, causando pesados incômodos. Quando os interesses coincidem, fica mais fácil o relacionamento harmonioso e produtivo.

É comum ouvir-se falar mal da família, São queixas e mais queixas. No entanto, apesar das dificuldades, uma força maior tende a manter os membros de um mesmo grupo familiar ligados entre si, às vezes, até de uma forma neurótica. Toda família pode ser comparada a uma árvore, cujas raízes são comuns, tendo cada galho voltado para uma direção e se desenvolvendo de forma original e única, ligados a um mesmo tronco, do qual recebem uma mesma seiva, sugada com as propriedades de um mesmo terreno.

A intensidade do afeto é uma riqueza para a família e, ao mesmo tempo, também um desafio. Saber administrar os sentimentos, entender e aceitar as diferenças individuais de cada componente do grupo, saber reconhecer e compreender as dificuldades e limitações próprias e dos outros, estes são alguns dos esforços que podem contribuir para o crescimento e boa administração do afeto e do carinho, na convivência familiar.

O momento de cada um. O choque entre as gerações. A índole pessoal. A fusão com outros grupos com formação, valores e culturas diferentes... tudo isto faz parte da dinâmica familiar, exigindo de cada membro e de todos adaptação constante e a construção de um repertório maior de respostas que atendam às necessidades previsíveis e imprevisíveis, que podem surgir a cada novo momento.

Postado por José Morelli

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Elemento água

 Com o calor, nestes primeiros dias do ano, não há como não atentarmos para a importância da água: bebemos mais desse precioso líquido neste tempo, suamos com mais intensidade, aumentamos o número de banhos, sejam eles em chuveiros, cachoeiras, praias ou piscinas.

Se, no ano passado, a diminuição de água, nos reservatórios, forçou-nos a conscientizar-nos da importância do uso racional da água, neste começo de ano de 2016, forçosamente, passamos a olhar e sentir a esse elemento com outros olhos e com outros sentimentos. Nosso modo de conceitua-la e de senti-la foi e vem se modificando, levando-nos a não desperdiça-la e otimizando seu uso. 

Alguns acontecimentos recentes vieram nos alertar ainda mais. Um deles foi o ocorrido com o rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais. De um momento para outro, o Rio Doce transformou-se num mar de lama, ocasionando mortes e destruição. Em sua extensão, a água do rio foi contaminada com grande quantidade de resíduos tóxicos.  

Outro fato que tem ocupado espaço nas notícias é o referente à proliferação da dengue. O problema que já era grave tornou-se ainda maior em função do zika vírus que também é transmitido pelo mesmo mosquito, o Aedis Aegyptus, cuja reprodução se dá em águas paradas.

Enquanto o Sul do país vem convivendo com cheias provocadas pelo excesso de chuvas, algumas regiões do Nordeste sofrem com secas que perduram a mais de dois anos. Esperamos que o Sudeste volte a ter um padrão mais normal de incidência de chuvas, a fim de que não nos falte água para geração de energia e para o nosso consumo e dos demais seres vivos.

A junção do que pensamos com o que sentimos forma uma síntese. Nossas atitudes são determinadas pelas concepções que geramos em nossas sensibilidades. Conscientizando-nos, procurando cada vez mais informações a respeito da realidade que nos envolve, passamos a nos posicionar de forma mais adequada às nossas necessidades vitais.

Postado por José Morelli

 

 

Duas vertentes para tratamentos psicológicos

 Num dos programas “Fantástico”, da Rede Globo, o Dr. Dráuzio Varella, tratando do tema sobre crianças autistas, referiu-se às maneiras de como deve ser o tratamento mais adequado desses distúrbios. Destacou de que o ideal é de que haja o concurso de profissionais de diversas áreas da saúde. Ao mencionar a psicologia, salientou que a forma mais eficaz é obtida através da abordagem comportamental.  Em seguida, foram mostradas imagens de uma clínica especializada nesse tipo de abordagem, acompanhadas de exemplificações de como são efetuados esses tratamentos tanto nas clínicas como nas famílias.

A abordagem comportamental tem como vertente as manifestações corporais/comportamentais. A partir da observação concreta dos comportamentos a serem modificados, são construídas estratégias de mudanças. Trata-se de uma metodologia que parte do externo, buscando modificar estruturas internas de funcionamentos mentais, neurológicos e emocionais. Desse primeiro ponto de vista, novas técnicas se desdobraram, nas quais o trabalho corporal se torna âncora para introspecções que ajudam na estruturação de mecanismos mentais.

A segunda vertente, ao contrário da primeira, parte do interno para o externo: do funcionamento da mente para as manifestações corporais e de atitudes.  Da mesma forma como, para alguns tipos de distúrbios, a abordagem mais eficaz é a comportamental, assim também, para outros, a abordagem mais indicada é aquela que parte da análise das manifestações internas. A psicanálise, cujo precursor foi o psiquiatra e pesquisador Dr. Sigmund Freud, desenvolve técnicas para desvendar e modificar comportamentos a partir de intervenções diretamente voltadas às manifestações do pensamento em suas várias instâncias.

O aprofundamento científico dos problemas relacionados à saúde permitem visões mais amplas das possibilidades de tratamento. Em alguns, há a necessidade de utilização de medicamentos e de tecnologias; enquanto que, em outros, o tratamento tem como base o contato pessoal com um mínimo de outras intermediações.  

Postado por José Morelli

 

Coragem

 Coragem de ser e de se apresentar como é e com as qualidades e os defeitos que lhes são próprios. Essa palavra, originária do latim, é formada da junção do vocábulo “cor”: o mesmo que coração (em português) ao sufixo “aticum”, utilizado para indicar a ação da palavra que o precede. Embora os conceitos se formem no cérebro, eles têm repercussão direta nos sentimentos.  E como estes parece terem ressonância no peito, torna-se compreensível que a construção da palavra coragem tenha muito a ver com o peito e com o coração.

Assim, a ideia expressa no livro “O Corpo Fala: a linguagem silenciosa da comunicação não verbal” - de Pierre Weil e Roland Tompakon - de que a coragem dos super-heróis é mostrada no peito inflado desses personagens da ficção, fica muito bem demonstrada a importância da relação existente entre coração e coragem. Que o diga a postura corporal dos que se encontram tomados e dominados pelo medo: encolhidos e cabisbaixos.

Na verdade, coragem não significa ausência de medo. Coragem faz contraponto ao medo da mesma forma como medo faz contraponto à coragem. Enquanto uma se instala no latente (no escondido da alma), o outro se instala no manifesto, deixando-se mostrar publicamente. Coragem e medo são como a “cara” e “coroa”: duas faces de uma mesma moeda.

Todos nos construímos no decorrer de nossas vidas. É pra isso que ela nos é dada. O olhar que temos para nós mesmos e o olhar que temos para o mundo que nos cerca não pode, simplesmente, nos derrubar ou, antes, deve nos fortalecer e dar-nos segurança quanto àquilo que nos propomos realizar.  Porém, como todo exagero deve ser evitado, coragem não pode ser confundida com temeridade, que é o mesmo que excesso de ousadia, imprudência ou irresponsabilidade.

Voltando ao foco do assunto e para fechar o texto, vale registrar que a coragem serve como reforço à autoestima e que, com a nossa autoestima reforçada, aumentam nossas condições pessoais de crença nas próprias capacidades de lucidez e de Inteligência, de amor e de afetividade bem orientadas.

Posstado por José Morelli

 

 

 

30 anos

 Foi na edição da Gazeta Penhense, datada entre 07 a 14 de dezembro de 1985, que saiu a primeira publicação desta coluna de Psicologia. De lá para cá, passaram-se 30 anos cravados. Não posso dizer que parece que foi ontem, seria exagero. Talvez, então, possa dizer que parece ter sido anteontem ou há uma semana.  A matéria não trazia nenhum título. Posteriormente, dei-lhe o título de “Ao alcance de todos”. Meu esforço foi sempre de tornar acessível, ao maior número de leitores, o conteúdo desenvolvido em cada matéria.

Minha proposta era a de utilizar-me desse espaço do jornal para explanar ideias a respeito de conceitos utilizados pela psicologia e que passaram a ser incorporados no linguajar do dia a dia da população. Como exemplo dessas palavras, citei: “trauma”, “complexo”, “síndrome”, dizendo que elas refletem maneiras diferentes de se ler e interpretar a realidade.

Num parágrafo mais à frente, escrevi: “Se você vai a fundo” na compreensão da complementariedade de seus papéis sociais, analisando as situações concretas do seu dia a dia, pesando os fatores de equilíbrio e de desequilíbrio na dinâmica natural de seus relacionamentos interpessoais, vai perceber a importância dessa compreensão para o seu desempenho como cidadão, como profissional, esposo ou esposa, pai ou mãe, filho ou filha, aluno ou aluna, amigo ou amiga”.

No parágrafo final do artigo, conclui dizendo assim: “As reflexões visam sensibilizar para os fatores relevantes que estão presentes na educação, mais num sentido de reorientar para prevenir do que para remediar”. A intenção foi, realmente, a de dividir algum conhecimento que pudesse ser útil preventivamente. O número de edições publicadas em todo esse tempo, multiplicado pelo da tiragem dos três semanários: “São Paulo Leste”; “Gazeta Penhense” e “Gazeta de São Migue” permitiram que uma quantidade quase que incalculável de leitores tivesse acesso aos conteúdos das matérias publicadas.  De alguma maneira, nesses 30 anos passados, um proveitoso diálogo se estabeleceu entre mim e o jornal e entre o jornal e seus leitores, assim como você o está realizando agora.

Postado por José Morelli