sábado, 22 de agosto de 2026

"MEU" CORPO

 É assim que a ele me refiro: “meu”. Ele pertence à “minha” pessoa. Sou seu dono e respondo pelas ações que o mesmo realiza ou deixa de realizar. Se minha consciência, a partir da massa corporal encefálica em que se constitui meu cérebro, constrói pensamentos e juízos bem como processa sutis percepções sensoriais e emocionais, não consigo deixar de entender-me como um ser que transcende minha condição apenas corporal: identifico-me também como um ser animado, isto é, dotado de vida consciente. Vejo-me refletido no espelho de minha própria consciência: existo e sou consciente de que existo da forma como me percebo existindo.

Não há nada mais próximo de mim mesmo do que meu corpo. Com ele convivo ininterruptamente: todos os dias, todas as horas, minutos e segundos.    Dialogo com meu corpo e ele dialoga comigo. Ele fala e minha consciência responde às suas mensagens. Os códigos que utiliza são muitos: percepções tácteis; audíveis; visuais; odoríficas; gustativas. É papel de minha mente decodificar todos esses códigos atribuindo-lhes sentidos específicos.  

Diferentemente dos computadores modernos, da união entre meu corpo e minha consciência, meu ser inteiro é dotado da capacidade de atualizar mudanças estruturais de novos e novos funcionamentos, tanto no corpo como na mente com poderes inclusive regenerativos e de redirecionamentos. Sensações corporais de confortos e de desconfortos (de prazeres e de desprazeres) podem despertar a atenção de minha consciência. Convidam-me ao diálogo e à interação mediante ações motoras e comandos de atitudes efetivas e afetivas.

Compartilhamos nossa identidade com a identidade de todos os que nos cercam e das coisas que existem e giram à nossa volta. Estimulações é que não nos faltam nessa dialética toda. A riqueza da vida é tamanha que é impossível dimensiona-la. Daí a capacidade infinita de caminhos a serem escolhidos por cada um de nós em nossa individualidade e na coletividade da qual fazemos parte. Importante mesmo é não perdermos a confiança e a esperança em nossas capacidades regenerativas e de escolhas de melhores caminhos, que atendam não só às nossas demandas pessoais como as que nos advêm do meio social do qual compartilhamos nossa conterraneidade e nossa contemporaneidade.

Postado por José Morelli

Medo do medo

 “Gato escaldado tem medo de água fria”, assim resumiu e sintetizou o ditado popular. Tendo passado pela experiência de ter sido queimado com água fervente, o gato se assusta diante da leve ameaça de ser atingido, mesmo que a água do balde esteja fria ou morna. Ao barulho de um trovão, os cachorros respondem com expressões diametralmente opostas de medo: latindo ou se escondendo, encolhido em algum canto que lhe parece seguro. A criança pequena, por sua vez, chora e procura o colo da mãe para nele se refugiar e se sentir mais protegida.

O dia a dia proporciona vivências potencialmente capazes de mostrar onde se encontram os perigos reais e verdadeiros. O medo é um mecanismo de defesa necessário à sobrevivência dos seres vivos e animados. Dos adultos, as crianças devem aprender a lidar com esse mecanismo, indispensável à proteção e à sobrevivência de qualquer indivíduo. No entanto, se o medo não deixa de ter o seu lado bom, não deixa também de ter o seu lado mal e perverso. O medo exagerado não é bom conselheiro. Ele pode mesmo passar a ser o maior de todos os inimigos do homem e da mulher, paralisando-os em suas iniciativas.

A casca de proteção se torna tão grossa e impermeável que, no lugar de ajudar na saúde do corpo, impede-o de se desenvolver e se realizar. O medo passa a ocupar uma primazia de importância que anula as outras potencialidades. Antes mesmo que dele se aproxime, o indivíduo cria mil proteções no sentido de impedir-se de avançar, não se permitindo de considera-lo em sua objetividade. É a isso que chamamos de: medo do medo.

O medo do medo pode atingir tanto um individuo como uma coletividade. Há aqueles que se aproveitam do medo alheio para dele tirar proveito. Apostar no medo do medo faz prosperar grandes negócios. As desigualdades polarizam as pessoas e os grupos sociais. Enquanto alguns são extremamente ousados e arrojados, outros se encolhem em seus cantos, totalmente dominados pelos mais variados tipos de medos. 

Posstado por José Morelli

 

 

Ícones que sinalizam

Os ícones se constituem como códigos de comunicação. Como tais, facilitam nossas leituras dos acontecimentos, permitindo que decodifiquemos mensagens, entendendo-as em seus significados e vivenciando-as na intensidade de nossas emoções, a favor ou contra. À semelhança da rosa dos ventos que é uma imagem em forma de estrela, desenhada nas bússolas para indicar os pontos cardeais e utilizada, também, em mapas náuticos para guiar os navios em alto mar, os ícones sinalizam as múltiplas direções e metas, possíveis de serem seguidas e atingidas.

Os nossos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato são estimulados pela imensidade de  ícones existentes. Neste período especial do ano, em que nos aproximamos de seu término, somos bombardeados por uma inumerável quantidade de ícones que nos reportam para significativas celebrações: a festividade do Natal e a passagem para um Novo Ano. Eventos que são fortemente utilizados para fazer girar a roda da economia, interna e externa. São esses ícones: árvores decoradas - de vários materiais e tamanhos - iluminadas com piscas multicores; figuras de papais-noéis; imagens do menino Jesus, de Maria e de José; dos reis magos;  estrelas  e presépios; guirlandas de mesas e de portas; letras e músicas típicas; panetones, castanhas, tâmaras, frutas secas e outras iguarias, advindas da tradição de outras nações e de outros povos; ícones evocativos de presentes como caixas e laços caprichados e mil outros que assinalam o objetivo comercial dos eventos.

As sinalizações, transmitidas pelos ícones das festas natalinas, nem sempre encontram ressonâncias nas mentes e corações de todos. Há aqueles que se encontram envolvidos por sentimentos contrários aos das festas. A intensidade com que são feitos os apelos festivos podem até causar mal estar e desconforto a esses que estão vivendo momentos pessoais de internalização e de contenção.  Por mais fortes que sejam o apelos que os ícones exercem, ainda assim, os momentos existenciais e emocionas de algumas pessoas não permitem que possam se sentir na mesma sintonia que sinalizam suas mensagens.

Postado por José Morelli

Orgasmo

 À semelhança de outras espécies animais e até mesmo vegetais, nossa espécie humana traz, em sua constituição física, a capacidade de se reproduzir, perpetuando-se no tempo e no espaço. A ocorrência do orgasmo marca o momento em que a energia vital se solta, percorrendo o corpo de ponta a ponta, provocando um ápice de excitação e de prazer.

O orgasmo pode ser conseguido na individualidade e no compartilhamento, seja em relações heterossexuais, seja em relações homossexuais. A excitação aumenta gradativamente na medida em que há estimulação. A descarga energética provocadora da sensação de orgasmo pode representar o desfecho de uma etapa do processo global de reprodução humana.

Nem toda relação sexual chega a essa sensação prazerosa de satisfação física. Por alguma razão ocorrem bloqueios proibitivos que a impedem de acontecer. Os seres humanos não funcionam apenas fisicamente. A mente, com todos os seus segredos, interfere no processo sexual, agregando mais elementos que determinam as formas de como este se desdobra.

A consciência de quem é e de como é de cada indivíduo pode se constituir como uma faca de dois gumes: se, por um lado, essa consciência pode reforçar a consecução de um envolvimento pleno e prazeroso; pode também representar bloqueios ao ato, dificultando sua plena realização.

A rápida queda da sensação de prazer, que acontece logo após à descarga orgástica, faz a mente voltar ao sentido da realidade, expondo-se a mil sensações díspares. Mesmo com a possibilidade de se utilizar dos meios de contracepção hoje disponíveis, ainda não se é possível separar a sexualidade de sua ligação com a explosão da vida, que é o surgimento de um novo ser na terra. Daí que, por mais que o sexo possa preencher tantas necessidades humanas, ainda assim, ele não pode ser tratado sem um sentido profundo de responsabilidade, devendo ser administrado com o devido carinho e cuidado.

Postado por José Morelli

Saúde

 Bons momentos podem e devem ser rememorados. Portanto; aqui vai uma boa lembrança de um evento ocorrido aqui em nosso bairro da Penha, no ano de 2017 (?), antes do período de reclusão da pandemia. Sem ignorar a complexidade do tema objeto das discussões, algumas das reflexões apresentadas pelos debatedores também não deixam de merecer a devida atenção dos que desejam entende-lo em sua ampla abrangência.

A título de discutir para onde confluem as expectativas e demandas culturais da sociedade, em relação ao campus da futura Universidade Federal de São Paulo na Zona Leste, a partir de relatos de experiências acadêmicas praticadas por outras universidades; neste último sábado, dia 07 de maio, foi realizado aqui no Centro Cultural da Penha o II Seminário Universidade, Cultura e Periferia, evento promovido pelas seguintes entidades: Observatório de Políticas Públicas; Centro Memória da Zona Leste; Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NERB-UNIFESP); Fórum para as Culturas Tradicionais e Populares de SP; Rede de Cultura da Zona Leste Paulistana.

As temáticas tratadas foram abrangentes, abordando o acadêmico e o popular e tradicional (indígena, Afro-brasileiro e Periférico). Atuou como mediadora a Profa. Fernanda Miranda Cruz, do Departamento de Letras da UNIFESP – campus Guarulhos – Coordenadora do Núcleo de Cultura, Corpo e Arte (NUCCA). Como expositores, atuaram: o Prof. José Jorge de Carvalho, titular do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UNB) – Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia e Inclusão no Ensino e na Pesquisa (INCT) do Ministério de Ciência e Tecnologia e do CNPq. e a Mestra Lucely Morais Pio – Quilombola da Articulação Bacuri de Plantas Medicinais do Cerrado, no Estado de Goiás. 

O tema da saúde acabou ganhando um brilho especial a partir das colocações abertas pelos expositores, na parte da manhã. A união entre o acadêmico e o cultural abriu as mentes dos participantes, dando-lhes ensejo de perguntarem e de trazerem contribuições, que muito ajudaram na compreensão da importância do diálogo permanente que deve existir entre a Universidade, a Cultura e a Periferia (sociedade em seu todo). - Quem melhor conhece a natureza do que aqueles que nela beberam ou bebem seus inesgotáveis saberes!...

 Postado por José Morelli

 

Festa do Rosário 2019

 Desde o primeiro domingo do mês em curso, dia 02 de junho, vem sendo realizada a 18ª. Festa do Rosário da Penha. Já se passaram 17 anos da primeira edição, comemorativa dos 200 anos de reconhecimento oficial da igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, pelo bispo da diocese de São Paulo. A igreja fora construída pela Antiga Irmandade dos Homens Pretos da Penha de França, coletivo formado por homens e mulheres escravizados ou alforriados, residentes nas imediações do então povoado. Hoje a edificação se constitui como patrimônio histórico tombado nas esferas do Município e do Estado.

Como manda a tradição, no domingo acima referido, o mastro foi erguido solenemente no Largo, após o término da missa celebrada, no interior da igreja, pelo Padre José Ênes. A Congada de Santa Efigênia de Mogi das Cruzes deu brilho e alegria a essa cerimônia. Mesmo com o tempo chuvoso, o público compareceu em grande número.

A programação vem sendo cumprida de acordo com o que foi divulgado. No último sábado, se apresentaram no Largo: as Pastoras do Rosário, grupo composto por oito mulheres que, entre outras composições, resgatam músicas da escritora Carolina Maria de Jesus; o grupo Ilú Obá de Min; no final do dia, houve Roda de Jongo dos Guaianás. Entre essas apresentações, no horário das 19 horas, aconteceu a missa afro, no interior da igreja, celebrada pelo Padre Jalmir Matias de Oliveira e com as presenças das pastorais afro da diocese de São Miguel Paulista.

O dia mais solene da festa será neste próximo domingo, dia 23, a partir das 9:30 da manhã, com a celebração da Missa campal adornada com elementos da cultura Afro-brasileira e presidida por Dom Eduardo, bispo de São Paulo e pelo Padre Assis, da Comunidade de Vila Prudente. Estarão presentes irmandades e pastorais afro, além de dezenove grupos musicais de canto e dança, oriundos das tradições de cultura popular religiosa ligadas a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Na ocasião, os reis de festa de 2019 repassarão suas coroas aos novos reis de festa de 2020.

No sábado, dia 29, às 19 horas, será celebrada a missa Sertaneja, presidida pelo Padre Henúbio, da paróquia de Nossa Senhora de Fátima e São João Batista. A festa ainda se prolongará até o dia 07 de julho, domingo em que haverá a última missa festiva, às 10 horas da manhã, celebrada pelo Padre Diego, vigário paroquial da basílica da Penha, os reis que se despedem coroarão Nossa Senhora e, por fim, o mastro será retirado.

Como eu havia previsto em meu livro “Penha de França – Expressões do Rosário”, a pedra jogada no lago, criou círculos que vêm repercutindo e se alargando até os dias de hoje. Ao final do livro, ainda afirmei que a história nele contida não havia terminado, interpelando que novas pessoas viessem fazer parte da mesma, perpetuando-a. O livro que traz registro de importantes acontecimentos históricos, relacionados ao Bairro da Penha, estará sendo disponibilizado aos interessados de compra-lo nos locais de festa. Os exemplares adquiridos, com prazer, poderão receber dedicatória autografada do autor.  

Postado por José Morelli

Contas do Rosário

 Quando esta edição da Gazeta Penhense já estiver nas bancas à disposição de seus leitores e leitoras (sábado dia 2 de junho), o Largo do Rosário da Penha se encontrará devidamente decorado por centenas de bandeirinhas multicores e pronto para que as festividades relacionadas ao aniversário da bicentenária igreja, construída por negros escravizados bem como libertos (alforriados), possa ter sua solene abertura. No domingo (dia 3) a partir das 10 horas da manhã, será realizada uma missa com elementos de cultura afro brasileira, seguida do levantamento do mastro em louvor aos padroeiros: Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

O tema escolhido pela Comunidade para esta 17ª edição da festa é: SOMOS TODOS CONTAS DE UM MESMO ROSÁRIO, um convite à união e à cooperação mútua. Como é do conhecimento dos que são mais próximos ao assunto, o rosário é composto de muitas contas, cada uma servindo à contagem seja da oração de ave-marias (150), seja à contagem da oração de pais-nossos (15). De acordo com a tradição dos grupos de congados, o importante é que o rosário não se rompa; principalmente, quando da ocasião das festas, mantendo suas contas sempre unidas umas às outras. Para eles, as contas do rosário são também entendidas como metáfora do coletivo, isto é: da vida de comunhão de uns com os outros, inclusive com a natureza que está à volta.

A programação da festa em seu todo está chegando às mãos daqueles e daquelas que por ela se interessam. Como nos anos anteriores, desde que se iniciaram essas festas, a Gazeta Penhense divulgará passo a passo os eventos de cada semana. Não Só os que acontecerão no Largo e na Igreja, mas os de caráter mais cultural e artístico que ocorrerão no Centro Cultural da Penha, no Teatro Flávio Império, no CESC Belenzinho ou em ruas centrais do bairro, quando da procissão no dia principal da festa em 24 de junho (domingo).  

Um tempo forte de sensibilização é instaurado no sentido de contribuir para uma maior valorização do que vem a ser um patrimônio histórico. Em nosso caso, a história que se depreende do ícone que é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos da Penha, ligada à presença de afro descendentes na cidade de São Paulo e, especialmente, em nossa na Zona Leste. Precisamos de asas e de raízes, que nos permitam firmeza ao solo que pisamos com nossos pés e sobre o qual vivemos e convivemos. Somos mais fortes quando assumimos nossa própria história.

Postado por José Morelli