segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Fazendo jus ao nome de PENHA

 Penha é pedra, penhasco, lugar alto (de onde se pode ver longe e ser visto também). “Não se acende uma candeia para coloca-la debaixo da mesa. Ao contrário, coloca-se em lugar visível e, assim, ilumina-se a todos os que estão na casa!” (Mt. 5,15).

Poucos anos depois da chegada dos Padres Redentoristas aqui em nosso bairro paulistano da Penha de França, no ano de 1905, o arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva pediu a eles que procurassem um lugar adequado, no qual, em futuro próximo, seria erguido um novo templo dedicado Àquela que, por escolha popular, era e é considerada Padroeira da cidade de São Paulo.

Quando, em 1934, já não havia mais condições de a Antiga Matriz da Penha, por suas diminutas dimensões e precariedade de suas taipas, acolher aos inumeráveis peregrinos que a ela vinham todos os fins de semana e pelo fato de os padres ainda não terem encontrado um terreno próximo ao centro do bairro, que atendesse ao desejo de Dom Duarte, preferiu-se fazer uma profunda reforma que remodelasse e ampliasse o Velho Santuário, ali mesmo onde se encontrava, no topo da ladeira Coronel Rodovalho.

Assim aconteceu. Durante a execução da reforma, a Igreja do Rosário substituiu a Matriz por, aproximadamente, seis meses - (de 1º. de julho de 1934 a 2 de fevereiro de 1935).  Nesse período, a Igreja construída pelos escravizados negros, membros da antiga Irmandade que aqui existia, cumpriu o papel de sede paroquial em todas as suas funções.

Muitas negociações foram necessárias para a aquisição da área que, hoje, é ocupada pela Basílica de Nossa Senhora da Penha. Esta, mesmo não estando edificada em lugares tão proeminentes como os das Igrejas da Penha, na cidade de Vitória no Espírito Santo, e a do Rio de Janeiro com seus 365 degraus, ainda assim pode ver e ser vista desde lugares variados e distantes: Vila Matilde, Tatuapé, Belém, Guarulhos.

Depois de tantos anos de construção, a Basílica finalmente se apresenta concluída tanto em sua parte interna como externa. O Bairro e a Cidade, na necessidade de dinamizar seus espaços, cresceu horizontal e verticalmente. Hoje, as torres de prédios fazem sombra umas às outras, diminuindo-lhes a capacidade de visão das paisagens em seus entornos.

Seguindo essa mesma lógica, Monsenhor Calazans decidiu dar visibilidade à imagem de Nossa Senhora da Penha em seu altar da Basílica. Ordenando que lhe fosse retirado o manto, permitiu que a imagem passasse a ser vista e apreciada em sua originalidade. O artista que a entalhou na madeira, deu-lhe feições delicadas e expressivas. A simplicidade de suas vestes e de todo o conjunto, permite que a sintamos mais despojada e próxima de cada um de nós.

Em nossa Basílica, a decoração de vários de seus vitrais nos transmite uma lição catequética de grande importância. Em trinta e seis deles estão representados ícones de Nossa Senhora, cada um com seu respectivo título. “Todas as gerações (em todo o mundo) me chamarão bem-aventurada”. Os vinte e um séculos de cristianismo tem mostrado que a Mãe de Jesus tem  presença constante na vida da Igreja e do Povo de Deus. Cada lugar, cada povo tem sua experiência histórica dessa presença. Nossa Basílica da Penha compartilha todas essas histórias, para que nossas mentes sejam sempre abertas e amplas a todo conhecimento. 

Postado por José Morelli

"ACOLHEDORAS TAIPAS"

 O patrimônio histórico, em que se constitui a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída pela Antiga Irmandade dos Homens Pretos da Freguesia da Penha de França, encerra a vida de um povo que vem lutando para se fazer reconhecido e respeitado no seio da sociedade em que se insere.

Antes mesmo da vinda dos negros da África ao Brasil, para servirem como mão de obra escrava, os conquistadores portugueses, acompanhados pelos missionários dominicanos, introduziram a devoção a Nossa Senhora do Rosário e a oração do rosário como meio de catequizar e de reunir o povo africano em torno da fé cristã e católica.

No dia 15 de setembro de 1796, a Penha e o Ó foram elevados à condição de Freguesia, as primeiras depois da Sé, a serem assim constituídas na cidade de São Paulo. O primeiro vigário nomeado da Penha foi o Padre José Rodrigues Coelho. Com a vinda deste, a paróquia passou a ser organizada de acordo com os moldes da época. A respeito desse primeiro vigário, o historiador Sylvio Bomtempi, em seu livro “Penha Histórica”, assim escreve: foi ele que “acompanhou o avultar da Irmandade dos Homens Pretos, aliança pacífica de escravos ansiosos do consolo cristão, que o assimilavam como podiam. Os confrades para, de algum modo, compensarem-se da angústia do cativeiro e reagirem à dor da segregação até mesmo religiosa, refugiavam-se na capela confiada ao patrocínio de Nossa Senhora do Rosário, cuja ereção promoveram em 16 de junho de 1802, erguidas as suas acolhedoras taipas a alguns passos da matriz. A igreja humilde e veneranda subsiste, rica de lições, testemunha histórica da solidariedade no sofrimento e da esperança na redenção” (p. 118  119).

O longo período em que os negros eram trazidos do continente africano para aqui permanecerem, contribuiu e vem contribuindo para a formação do povo brasileiro, com sinais muito profundos de suas influências.  As condições adversas em que ocorreu essa presença representou um caminho de esforço de toda uma coletividade para se integrar à sociedade, podendo gozar dos mesmos direitos e obrigações como os demais. A história desta igreja está vinculada à de muitas pessoas que foram se sucedendo no tempo. Pessoas estas que herdaram os mesmos sentimentos de solidariedade e de esperança, que nortearam a vida dos primeiros membros da antiga irmandade. Pela dedicação que tiveram garantiram a continuidade da vida atuante desta igreja e de sua comunidade, durante anos e anos. A sua missão foi sempre a de incluir a todos, sem distinção de raça ou de cor, missão esta de fundamental importância, ainda nos dias de hoje.

Postado por José Morelli

 

ABAYOMI

 As A b a y o m i são pequenas bonecas de pano, sem costuras, mas apenas confeccionadas com nós ou tranças. Quando negros foram trazidos do Continente Africano para o Brasil, a fim de serem aqui vendidos como escravos, estes eram confinados nos porões dos chamados navios negreiros. Nas cansativas viagens que duravam meses, as mães negras para distraírem suas crianças faziam pequenas bonecas com pedaços de panos, rasgados de suas próprias roupas.

Inspirado nas Abayomi, nosso Rei de Festa do Rosário     Robinson Estevam confeccionou as imagens e peças deste presépio, fazendo uso da mesma técnica artesanal daquelas mães africanas num passado remoto tão significativo.  Desta forma, o Menino Jesus é associado às Abayomi e estas são associadas ao Menino Jesus que, ao nascer, foi colocado por Maria e José sobre as palhas de uma manjedoura. Lição de vida que nos foi ensinada pelo Filho de Deus: Segunda Pessoa da Trindade Santa, nascida como gente simplesmente para nos salvar da escravidão e do ódio.

 

“E Maria deu à luz o seu filho Jesus, envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.” (Lc 2,7).

Postado por José Morelli

Só chemaremos além porque somos aquém desse mesmo além

Sem a base, que é a de nossa existência, tal qual nos percebemos existindo neste mundo, não teríamos como inferir a possibilidade de entendermos de que somos e nos encontramos na materialidade de nosso aqui/agora. Carregamos em nós mesmos o hoje, o ontem e o amanhã. A garantia de que teremos amanhã, é a constatação de que viemos do ontem, projetando-nos para frente a cada novo movimento. O nosso ontem pessoal compartilhado com o ontem daqueles e daquelas que nos antecederam e dos quais proviemos: pais; avós; bisavós; trisavós.

O mesmo que podemos entender a partir de nossas individualidades, podemos entender a partir de nossas coletividades : famílias; etnia; nacionalidade. As histórias individuais são passadas de uns para outros. Instituições são formadas por conta dessas memórias compartilhadas, tenham sido elas registradas ou não.

Não precisamos ir muito longe para entendermos isso. Tecnologias modernas nos permitem entender que fatos ou acontecimentos reverberam e se mantêm por tempos indefiníveis.

Amor e ódio se tangenciam. A instituição “santidade humana” é reconhecida em vidas individuais de homens e mulheres, cujas histórias mereceram registros de suas existências. Conectamo-nos nos efeitos gerados por essas vidas em suas trajetórias terrenas. Tais junções nos transcendem, nos ultrapassam. Somos mais, muito mais do que nosso existir temporal nos evidencia, permitindo-nos antever.

Já nos encontramos no tempo sem começo e sem fim, no tempo a perder de vista tanto no sentido do passado como do futuro. Em nosso consciente e em nosso subconsciente constatações  nos condicionam em nossos pensamentos. Queiramos ou não, é difícil que não nos reconheçamos em tais realidades.

Postado por José Morelli

 

  

Agregar valor

 Alvejar um pano de saco rústico tornando-o mais delicado, a fim de que possa servir como pano de prato é agregar-lhe mais valor. O cacau é valorizado quando transformado em chocolate. Este passa a custar, ainda mais, ao receber recheios que o transformam em apetitosas e tentadoras trufas. O aço, extraído da natureza, multiplica muitas vezes seu valor de venda quando é forjado e transformado em motor de uma moderna aeronave.

No contexto mercadológico em que vivemos, onde tudo ou quase tudo se transforma em mercadoria e pode ser comprado ou vendido, construímo-nos mentalmente, na maneira como manejamos nossos raciocínios, influenciados por essa dinâmica de compra e de venda que “de camarote” assistimos desde a nossa mais tenra infância. Compramos e vendemos coisas, além de nossos conhecimentos e habilidades pessoais. O voluntariado e a gratuidade quase que entram como exceção de uma imperiosa regra.

Nossas ações possuem um valor humano. Elas servem à construção de nós mesmos, do mundo e das pessoas dos outros também. Ultrapassando seu valor humano, nossas ações podem ter também outra importância que é aquela que só a fé é capaz de reconhecer. Pela fé, nosso entendimento não se limita àquilo que é finito; mas avança no sentido do infinito: de Deus mesmo em toda a sua incomensurável grandeza. Quando vivemos nossa vida agregando-lhe a fé, o valor dela se amplia infinitamente.

Com a fé, abrimo-nos interiormente ao convívio com Deus. Nossa mente e nosso coração o acolhem, cientes de que também estão sendo acolhidos por Ele. Como uma esponja que se encontra embebida pela água, assim também nossa vida inteira é perpassada/permeada pelo existir de Deus. A fé nos leva a acreditarmos que somos inseparáveis de Deus e que Ele é inseparável de nós. Mesmo quando nos julgamos falhos em nossos pensamentos e ações, ainda assim Ele não se ausenta nem se distancia de nós.  Convida-nos ao reconhecimento de nossas verdades e ao arrependimento. Como ao filho pródigo que esbanjou toda a fortuna que o pai lhe havia dado, Ele nos acolhe sempre de braços abertos.

Nossa fé é um dom de Deus-Pai, gratuitamente concedido aos seres humanos. O valor que ela agrega à nossa vida não tem preço. No alto de sua cruz, Jesus – o Filho de Deus feito homem - o conquistou para nós, através de seu sangue derramado. O Espírito Santo distribui seus dons livremente a quem Ele quiser e quando Ele quiser.  Nossa visão sob a ótica da fé não exclui leituras que dimensionam os alcances humanos de toda e qualquer atitude tomada; muito pelo contrário, permite ainda que ampliemos nossa capacidade de dimensionar alcances que vão além dos valores humanos, tanto na altura como na profundidade de seus entendimentos.

Postado por José Morelli

Festa do Rosário 2019

 Desde o primeiro domingo do mês em curso, dia 02 de junho, vem sendo realizada a 18ª. Festa do Rosário da Penha. Já se passaram 17 anos da primeira edição, comemorativa dos 200 anos de reconhecimento oficial da igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, pelo bispo da diocese de São Paulo. A igreja fora construída pela Antiga Irmandade dos Homens Pretos da Penha de França, coletivo formado por homens e mulheres escravizados ou alforriados, residentes nas imediações do então povoado. Hoje a edificação se constitui como patrimônio histórico tombado nas esferas do Município e do Estado.

Como manda a tradição, no domingo acima referido, o mastro foi erguido solenemente no Largo, após o término da missa celebrada, no interior da igreja, pelo Padre José Ênes. A Congada de Santa Efigênia de Mogi das Cruzes deu brilho e alegria a essa cerimônia. Mesmo com o tempo chuvoso, o público compareceu em grande número.

A programação vem sendo cumprida de acordo com o que foi divulgado. No último sábado, se apresentaram no Largo: as Pastoras do Rosário, grupo composto por oito mulheres que, entre outras composições, resgatam músicas da escritora Carolina Maria de Jesus; o grupo Ilú Obá de Min; no final do dia, houve Roda de Jongo dos Guaianás. Entre essas apresentações, no horário das 19 horas, aconteceu a missa afro, no interior da igreja, celebrada pelo Padre Jalmir Matias de Oliveira e com as presenças das pastorais afro da diocese de São Miguel Paulista.

O dia mais solene da festa será neste próximo domingo, dia 23, a partir das 9:30 da manhã, com a celebração da Missa campal adornada com elementos da cultura Afro-brasileira e presidida por Dom Eduardo, bispo de São Paulo e pelo Padre Assis, da Comunidade de Vila Prudente. Estarão presentes irmandades e pastorais afro, além de dezenove grupos musicais de canto e dança, oriundos das tradições de cultura popular religiosa ligadas a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Na ocasião, os reis de festa de 2019 repassarão suas coroas aos novos reis de festa de 2020.

No sábado, dia 29, às 19 horas, será celebrada a missa Sertaneja, presidida pelo Padre Henúbio, da paróquia de Nossa Senhora de Fátima e São João Batista. A festa ainda se prolongará até o dia 07 de julho, domingo em que haverá a última missa festiva, às 10 horas da manhã, celebrada pelo Padre Diego, vigário paroquial da basílica da Penha, os reis que se despedem coroarão Nossa Senhora e, por fim, o mastro será retirado.

Como eu havia previsto em meu livro “Penha de França – Expressões do Rosário”, a pedra jogada no lago, criou círculos que vêm repercutindo e se alargando até os dias de hoje. Ao final do livro, ainda afirmei que a história nele contida não havia terminado, interpelando que novas pessoas viessem fazer parte da mesma, perpetuando-a. O livro que traz registro de importantes acontecimentos históricos, relacionados ao Bairro da Penha, estará sendo disponibilizado aos interessados de compra-lo nos locais de festa. Os exemplares adquiridos, com prazer, poderão receber dedicatória autografada do autor. 

Postado por José Morelli  

CENTRO HISTÓRICO DO BAIRRO DA PENHA

 RESOLUÇÃO Nº 13/CONPRESP/2018

Por esta resolução, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP, no uso de suas atribuições legais e nos termos da Lei nº 10.032, de 27 de dezembro de 1985 com as alterações introduzidas pela Lei nº 10.236, de 16 de dezembro de 1986, pela Lei nº 14.516, de 11 de outubro de 2007 e de acordo com a decisão dos Conselheiros presentes à 664ª Reunião Extraordinária, realizada em 26 de fevereiro de 2018...

RESOLVE:

 Artigo 1º - TOMBAR o CONJUNTO DE BENS constitutivos do espaço urbano na ÁREA DO CENTRO HISTÓRICO DO BAIRRO DA PENHA,

 A saber:

 I – Edificações -

 II – Espaços Públicos, Traçado Urbano e Obras de Engenharia em logradouros públicos –

Pré-História: “Fragmentos descobertos no bairro da Penha podem datar de antes da descoberta” (Folha de São Paulo – edição na Folha Ciência de 25 de Janeiro de 2005):      (Anexo 1)

HISTÓRIA:

A presença da primeira capela deu origem ao povoado. Pela distância do centro, este se tornou lugar de pouso tanto para os que saiam da cidade como para os que a ela chegavam.

Já nos documentos que se referem à capela desde os tempos do Padre Jacinto Nunes de Siqueira, considerado pelo historiador penhense Dr. Sylvio Bomtempi como fundador do bairro da Penha, havia junto à capela um curral, onde provavelmente eram colocados os animais dos viajantes e tropeiros. A partir daí, surgiu uma estrutura de acolhimento como estalagem, armazém e outros locais onde eram prestados serviços que atendiam às necessidades não só das pessoas como também dos animais (ferreiros, seleiros, etc). Alguns donos de terras (sesmeiros) e seus familiares e serviçais (escravos indígenas ou negros) deveriam vir com frequência ao povoado onde se davam as principais transações comerciais daquilo que produziam.

 

ORIGEM MÍTICA (relacionada ao imaginário):

- A Lenda do Viajante Francês.

Para melhor falar dessa lenda, nada mais inspirador do que traze-la na forma de poesia. Assim a ela se refere a saudosa poetisa penhense Elisa Barreto (Anexo 2)

Outro acontecimento que reforça a crença de que Nossa Senhora da Penha escolhera o bairro para morar é o referente ao bispo do Rio de Janeiro Dom José de Barros Alarcon que, tendo vindo a São Paulo em 1867, trazia a intenção de levar a imagem de Nossa Senhora da Penha para um convento recém-construído em sua diocese. (Anexo 3)

 

ROSARIO

Templo histórico e patrimônio tombado pelos dois órgãos de preservação de Patrimônio: O Condephaat (Estadual) e o Conpresp (Municipal) incluíram a Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Penha entre os edifícios antigos merecedores de cuidados especiais na cidade de São Paulo. O resumo de seu significado histórico está consignado em uma lápide, que se encontra no interior da igreja. O texto foi redigido pelo historiador penhense Dr. Sylvio Bomtempi e contém os seguintes dizeres: (Anexo 4)

Nossa Senhora da Penha PADROEIRA da Cidade de São Paulo

O papel da fé, que se construiu no imaginário da população da cidade de São Paulo a respeito de Maria, a Mãe de Jesus dos evangelhos, foi o de que ela era a padroeira, a intercessora junto de Deus em todas as necessidades do povo, considerado de forma pessoal e/ou coletivamente, o que propiciou grande protagonismo (primeiro) ao povoado da Penha, e (depois), a partir de 1796, à Freguesia de Nossa Senhora da Penha, tanto pelas idas da imagem à sede da diocese quando a cidade era atingida por grandes secas ou epidemias, como nas ocasiões das festas em setembro, quando vinham para o bairro peregrinos de toda a cidade e de cidades vizinhas também. Na Basílica de Nossa Senhora da Penha, existe um vitral que se estende de um lado a outro acima de sua porta de entrada. Este vitral retrata uma das idas, em procissão, da imagem à sé catedral de São Paulo. Ele deve ter mais de 10 metros de comprimento por 2,5m ou 3,0 de altura.

Quanto às vindas dos moradores da cidade às festas anuais são muitos os relatos a respeito. Para exemplificar, destaco um trecho extraído do romance “Menino Felipe – Primeira Viagem” de Afonso Schimidt com o seguinte comentário sobre festas da Penha de 1918: (Anexo 5)

DOM PEDRO I

Não só teve uma passagem, mas também um pernoite na Freguesia da Penha de França poucos dias antes de proclamar a independência do Brasil. Na entrada da Basílica de Nossa Senhora da Penha se encontra uma placa alusiva a este acontecimento com os seguintes dizeres: (Anexo 6)

CINTURÃO VERDE

Intercâmbios comerciais com o núcleo central da cidade:

No texto publicado pelo prof. Carlos José Ferreira dos Santos, intitulado “Várzea do Carmo – Lavadeiras, Caipiras e “Pretos Veios”, o autor cita de onde vinham os moradores das áreas mais distantes para venderem ali seus produtos, onde se dava o encontro entre os moradores dos arrabaldes de São Paulo com os da área central da cidade. (Anexo 7)

PAULO EIRÓ

Outro registro que descreve a Penha do passado é o do poeta e teatrólogo Paulo Eiró (nascido em 1836). De passagem por aqui, ele escreveu os seguintes versos: (Anexo 8)

DOM PEDRO II

Presença de Dom Pedro II na Penha: Dona Catarina Albuquerque ou de Albuquerque, moradora no bairro da Penha desde criança, tendo vivido por mais de cem anos,     em uma entrevista dada ao Jornal Gazeta Penhense, contou que, quando menina, participou de uma recepção ao Imperador Dom Pedro II que, acompanhado pela Imperatriz Teresa Cristina, foi recepcionado solenemente na igreja de Nossa Senhora da Penha. Disse que, em sua passagem pelo corredor central da igreja, ela e outras meninas, vestidas com roupas especiais, jogaram flores sobre o casal real. A casa onde morou ainda existe e fica na esquina entre as ruas Dr. João Ribeiro e Major Ângelo Zanchi. É voz comum de que essa casa foi a primeira a ser construída em alvenaria no bairro. Em seu quintal há uma nascente que, durante anos e anos, muitos iam a ela saciar a sede.

REVOLUÇÃO DE 1924

O presidente do Estado, Dr. Carlos de Campos, tendo fugido do centro da capital, veio estabelecer seu governo em dois lugares na Penha: na Estação de Trens que, depois, passou a ser chamada com o seu nome e no quartel (delegacia de polícia) estabelecido no Largo do Rosário. Dalí é que eram feitos os despachos. Deste modo, assim como a Penha já havia sido Capital do Império do Brasil, quando o Príncipe Dom Pedro, instalou aqui o Paço de Nossa Senhora da Penha, de onde efetuou despachos no sentido de preparar sua chegada a São Paulo, assim também a Penha e o Largo do Rosário se tornaram Capital do Estado de São Paulo, uma vez que esses lugares foram sede do governo paulista durante a revolução de 24.

REVOLUÇÃO DE 1932

A Penha também teve importante protagonismo durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Nessa ocasião, no livro das Crônicas do Convento dos Padres Redentoristas, se encontra um registro em que é contado que os padres, devido ao grande perigo de que a Penha sofresse ataques aéreos, decidiram colocar a imagem de Nossa Senhora em um barril enterrando-o no quintal que havia nos fundos do convento.

PRESERVAÇÃO DE  PATRIMÔNIOS HISTÓRICOS

Dos bens existentes num passado não tão remoto, poucos restaram...

Sem exagerar, nem de um lado nem de outro, não há dúvida de que a Penha teria um aspecto mais bonito e atraente se tivesse mantido de pé alguns de seus ícones mais expressivos construídos no final do século XIX e início do sédulo XX, tais como

- o Palacete do Coronel Rodovalho                                                                                                     - A Mansão de Dona Maria Carlota de Melo Franco                                                                        - O Antigo convento dos Padres Redentoristas                                                                                - O Solar dos Prates ...

POETA PAULO BONFIM

Em seu poema intitulado “Penha de França” o poeta Paulo Bonfim termina com o seguinte verso: (Anexo 9)

LOURENÇO DIAFÉRIA

E, para encerrar esta nossa conversa, quero lembrar o trecho final da crônica sobre a Penha, que o jornalista, falecido em 2008, nos deixou como precioso legado: (Anexo 10)

 

 

CONCLUSÃO

       O MILAGRE ACONTECEU... ESTÁ AQUI: SOU EU! NÃO SEI SE ESTA CRÔNICA É TODA FICCIONAL OU SE CONTÉM UM DEPOIMENTO PESSOAL. ISSO, PORÉM, NÃO FAZ DIFERENÇA: O IMAGINÁRIO TAMBÉM É PATRIMÔNIO, PATRIMÔNIO IMATERIAL, QUE SEJA!

                                               

ANEXO 1

 

No texto, é feita menção a duas descobertas arqueológicas: de 1920, referente a uma URNA funerária (com esqueleto dentro) encontrada a poucos metros da segunda descoberta, feita pelo arqueólogo da prefeitura Astolfo de Mello Araújo, de cacos de cerâmicas com decorações típicas da tribo tupi-guarani. Os dois achados indicam que no local teria existido uma aldeia indígena. O local seria estratégico; pois, do alto da colina daria uma boa visão do vale do rio Tietê a seus ocupantes.

Muitos são os nomes que têm origem indígena na região: Anhembi (hoje Tietê); Aricanduva; Tiquatira; Guaiaúna; (ruas) Umbó; Aracati; Irapucará; Tuapé e outros.

 

ANEXO 2

 

Eis, aqui, Penha de França – Pela lei chamada assim. – uma Lenda que em criança – ensinaram para mim: - Eram Penhas e mais Penhas – a formar tuas divisas,- eram matas, eram brenhas, - eram ternas tuas brisas. – Tudo em paz. O sol fugia, - “bem-te-vis” faziam sesta- o Tietê, calmo, descia – sob os beijos da floresta. – Aqui veio um cavaleiro, pra trazer Nossa Senhora; - em chegando ao fim do outeiro – descansou por uma hora. – E dormiu, e até sonhou, - tendo ao lado a Santa Imagem; - seu cavalo relinchou – absorto na paisagem. – A Senhora vigiava – a colina e o cavaleiro – e o seu rosto iluminava – os recôncavos do outeiro. – De repente o sono passa – e é preciso prosseguir. “Ah! Senhora, dá-me a graça – de um lugar pra construir”. –

Em seus braços, toma a Santa, - que parece relutar, - mas o homem não se espanta, - põe-se, logo, a assobiar. – O “Pintado”, que pastava, - vem de pronto, em disparada, - e o seu dono se aprontava – para nova caminhada. – Segue atalho, afasta espinho, - e troteando a passo esperto – leva a Santa com carinho – sob o sol do céu aberto. – “E o lugar para a capela?” – Nada, nada lhe servia. – A araponga ao sol martela, - e o seu eco alegra o dia. – Fica ouvindo, embevecido, - cantos de ave na ramagem; - não percebe, distraído, - que lhe foge a linda imagem. – “Onde está Nossa Senhora?” – Indagou, preocupado... – Se voltara... fora embora... – E ele ouviu o seu chamado – que dizia, ao longe: “venha!” – “Volte”, “volte”, a voz clamava, - e a Senhora sobre a Penha – já bem longe dele estava.

A voz vinha da colina, - onde o homem descansara. – Ele volta, e, ela, Divina, - sob o céu se entronizara. – Estremece, comovido. – Ante a imagem se ajoelha. – Esse fato acontecido – a um delírio se assemelha. – Mas a Santa o reconforta – e entre flores lhe sorri, - com voz meiga e firme, exorta: - “Cavaleiro, eu fico aqui” ... ... ...                                                      

 

ANEXO 3

 

 No dia da transladação, as mulheres do bairro se reuniram para se despedir da querida imagem. Porém, chegando à igreja encontraram as portas fechadas. Imaginando que a santa já havia sido levada às escondidas, começaram a chorar chamando a atenção dos que por ali passavam. A surpresa veio quando, sem serem tocadas, as portas da igreja se abriram o que permitiu a constatação de que a imagem ainda se encontrava em seu nicho no altar. Diante do fato, o bispo desistiu de levar a imagem, dedicando o convento a Santa Teresa.

 

ANEXO 4

 

“Capela – De Nossa Senhora do Rosário – Da antiga Irmandade dos Homens Pretos – Da Freguesia da Penha de França – Testemunha Histórica – Da solidariedade no Sofrimento – E da Esperança da Redenção. - O pedido para sua ereção é de 16 de Junho de 1802”

 

ANEXO 5

A festa da Penha era em 8 de setembro, mas começava muito antes. Para falar a verdade, em qualquer dia do ano a gente sempre encontrava com que divertir-se. Tanto mais naqueles domingos deliciosos de agosto, de céu azul, as paisagens nítidas, de poeira dourada. Os trens partiam da Estação Norte. Pela estrada de rodagem da Penha, formavam-se cortejos de carroças cobertas de ramos verdes, enfeitadas de bandeirolas de papel de seda. Quando chegavam à subida do santuário, os romeiros deixavam os veículos à porta das vendas, botavam um feixe de capim diante dos burros e galgavam à pé, conduzindo grossas velas de cera. Desde manhã que as carroças passavam diante de nossas janelas. Algumas delas levavam famílias. Dançava-se e cantava-se com muita alegria...

“À chegada de cada trem, era uma gritaria, uma algazarra. Roceiros vendiam canas, batata doce assada, cuias de garapa e tigelinhas de quentão. Depois os grupos se punham a caminho da igreja. Ouviam-se queixas de violão, risadas finas de bandolins. Os romeiros caminhavam devagar, colhendo flores dos arbustos que pendiam dos barrancos. Havia gente que parava para contar melhor caso. Ou para tirar o calçado, que lhe espremia os pés. Quando chegamos no Largo da igreja foi um deslumbramento.

Muita barraca, muita gente... As ruas e praças estavam ornamentadas com arcos de bambus. Nesses arcos um baile de flâmulas, de bandeiras coloridas. E de lanternas chinesas, em fieiras curvas, que desciam da torre e iam terminar nas frontarias de algumas casas do largo...”

O texto continua com um relato muito interessante sobre a jogatina que acontecia, paralelamente, à parte religiosa da festa.

 

 

ANEXO 6

 

O Príncipe Dom Pedro – Regente do Reino do Brasil – Chegou a esta Freguesia – Em 24 de Agosto de 1822 – E aqui instalou o Paço de Nossa Senhora da Penha – Partiu no dia seguinte para a cidade de São Paulo – Onde recebido triunfalmente - Proclamou a Independência do Brasil – Em 7 de Setembro de 1822 – Agosto de 1972

 

 

ANEXO 7

 

“Mercado Caipira” ou “Mercado dos Caipiras”, no qual os moradores das áreas mais distantes – Penha, Nossa Senhora do Ó, Santana, Santo Amaro, Guarulhos entre outras localidades - vinham vender seus produtos agrícolas, medicinais, artesanais, madeira e outros artefatos para moradores das regiões mais centrais da Paulicéia.”

 

ANEXO 8

 

“... A que devo então ó Penha                                           Deverei ao santo templo                                                                   Que meu olhar se detenha                                                Que com júbilo comtemplo                                                           Com tanta indulgência em Ti                                             A erguer-se na solidão                                                            Que deslumbre o paraíso                                                   Semelhando-se à asa branca                                                          Onde o primeiro sorriso                                                     De um anjo que o pranto estanca                                                              De minha mãe recolhi                                                        Sobre o cálix da oração ...”     

 

ANEXO 9

“Penha de França, Penha de saudade,                                                                                    Guardai os passos deste romeiro                                                                                                   Que caminhando por mil caminhos                                                                                           Levará sempre no seu passar,                                                                                                           Em manto-brisa de peregrino,                                                                                                            A suave senha de uma lembrança

                                                           “Subindo ruas, buscando luas:   

                                                            Nossa Senhora, luz da bonança   

                                                         Santa  esperança, Penha de França”     

                                                                                                                                                                                                                                                                                    

 

 

ANEXO 10

 

“... Mas se me permite a franqueza                                                                                               Para mim a Penha continua a ser uma lembrança indelével                                                   Ainda vejo meu pai fazendo uma promessa                                                                                De ver o filho livre de uma moléstia                                                                                      Ajoelhado na igreja onde se reuniam os sustos e devotos                                                     Meu pai que já não é vivo teve um milagre                                                                                    O milagre aconteceu”

 

 

                                                                                                        São Paulo, 05 de agosto de 2020

Postado por José Morelli

 

 

 

sábado, 22 de agosto de 2026

"MEU" CORPO

 É assim que a ele me refiro: “meu”. Ele pertence à “minha” pessoa. Sou seu dono e respondo pelas ações que o mesmo realiza ou deixa de realizar. Se minha consciência, a partir da massa corporal encefálica em que se constitui meu cérebro, constrói pensamentos e juízos bem como processa sutis percepções sensoriais e emocionais, não consigo deixar de entender-me como um ser que transcende minha condição apenas corporal: identifico-me também como um ser animado, isto é, dotado de vida consciente. Vejo-me refletido no espelho de minha própria consciência: existo e sou consciente de que existo da forma como me percebo existindo.

Não há nada mais próximo de mim mesmo do que meu corpo. Com ele convivo ininterruptamente: todos os dias, todas as horas, minutos e segundos.    Dialogo com meu corpo e ele dialoga comigo. Ele fala e minha consciência responde às suas mensagens. Os códigos que utiliza são muitos: percepções tácteis; audíveis; visuais; odoríficas; gustativas. É papel de minha mente decodificar todos esses códigos atribuindo-lhes sentidos específicos.  

Diferentemente dos computadores modernos, da união entre meu corpo e minha consciência, meu ser inteiro é dotado da capacidade de atualizar mudanças estruturais de novos e novos funcionamentos, tanto no corpo como na mente com poderes inclusive regenerativos e de redirecionamentos. Sensações corporais de confortos e de desconfortos (de prazeres e de desprazeres) podem despertar a atenção de minha consciência. Convidam-me ao diálogo e à interação mediante ações motoras e comandos de atitudes efetivas e afetivas.

Compartilhamos nossa identidade com a identidade de todos os que nos cercam e das coisas que existem e giram à nossa volta. Estimulações é que não nos faltam nessa dialética toda. A riqueza da vida é tamanha que é impossível dimensiona-la. Daí a capacidade infinita de caminhos a serem escolhidos por cada um de nós em nossa individualidade e na coletividade da qual fazemos parte. Importante mesmo é não perdermos a confiança e a esperança em nossas capacidades regenerativas e de escolhas de melhores caminhos, que atendam não só às nossas demandas pessoais como as que nos advêm do meio social do qual compartilhamos nossa conterraneidade e nossa contemporaneidade.

Postado por José Morelli

Medo do medo

 “Gato escaldado tem medo de água fria”, assim resumiu e sintetizou o ditado popular. Tendo passado pela experiência de ter sido queimado com água fervente, o gato se assusta diante da leve ameaça de ser atingido, mesmo que a água do balde esteja fria ou morna. Ao barulho de um trovão, os cachorros respondem com expressões diametralmente opostas de medo: latindo ou se escondendo, encolhido em algum canto que lhe parece seguro. A criança pequena, por sua vez, chora e procura o colo da mãe para nele se refugiar e se sentir mais protegida.

O dia a dia proporciona vivências potencialmente capazes de mostrar onde se encontram os perigos reais e verdadeiros. O medo é um mecanismo de defesa necessário à sobrevivência dos seres vivos e animados. Dos adultos, as crianças devem aprender a lidar com esse mecanismo, indispensável à proteção e à sobrevivência de qualquer indivíduo. No entanto, se o medo não deixa de ter o seu lado bom, não deixa também de ter o seu lado mal e perverso. O medo exagerado não é bom conselheiro. Ele pode mesmo passar a ser o maior de todos os inimigos do homem e da mulher, paralisando-os em suas iniciativas.

A casca de proteção se torna tão grossa e impermeável que, no lugar de ajudar na saúde do corpo, impede-o de se desenvolver e se realizar. O medo passa a ocupar uma primazia de importância que anula as outras potencialidades. Antes mesmo que dele se aproxime, o indivíduo cria mil proteções no sentido de impedir-se de avançar, não se permitindo de considera-lo em sua objetividade. É a isso que chamamos de: medo do medo.

O medo do medo pode atingir tanto um individuo como uma coletividade. Há aqueles que se aproveitam do medo alheio para dele tirar proveito. Apostar no medo do medo faz prosperar grandes negócios. As desigualdades polarizam as pessoas e os grupos sociais. Enquanto alguns são extremamente ousados e arrojados, outros se encolhem em seus cantos, totalmente dominados pelos mais variados tipos de medos. 

Posstado por José Morelli

 

 

Ícones que sinalizam

Os ícones se constituem como códigos de comunicação. Como tais, facilitam nossas leituras dos acontecimentos, permitindo que decodifiquemos mensagens, entendendo-as em seus significados e vivenciando-as na intensidade de nossas emoções, a favor ou contra. À semelhança da rosa dos ventos que é uma imagem em forma de estrela, desenhada nas bússolas para indicar os pontos cardeais e utilizada, também, em mapas náuticos para guiar os navios em alto mar, os ícones sinalizam as múltiplas direções e metas, possíveis de serem seguidas e atingidas.

Os nossos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato são estimulados pela imensidade de  ícones existentes. Neste período especial do ano, em que nos aproximamos de seu término, somos bombardeados por uma inumerável quantidade de ícones que nos reportam para significativas celebrações: a festividade do Natal e a passagem para um Novo Ano. Eventos que são fortemente utilizados para fazer girar a roda da economia, interna e externa. São esses ícones: árvores decoradas - de vários materiais e tamanhos - iluminadas com piscas multicores; figuras de papais-noéis; imagens do menino Jesus, de Maria e de José; dos reis magos;  estrelas  e presépios; guirlandas de mesas e de portas; letras e músicas típicas; panetones, castanhas, tâmaras, frutas secas e outras iguarias, advindas da tradição de outras nações e de outros povos; ícones evocativos de presentes como caixas e laços caprichados e mil outros que assinalam o objetivo comercial dos eventos.

As sinalizações, transmitidas pelos ícones das festas natalinas, nem sempre encontram ressonâncias nas mentes e corações de todos. Há aqueles que se encontram envolvidos por sentimentos contrários aos das festas. A intensidade com que são feitos os apelos festivos podem até causar mal estar e desconforto a esses que estão vivendo momentos pessoais de internalização e de contenção.  Por mais fortes que sejam o apelos que os ícones exercem, ainda assim, os momentos existenciais e emocionas de algumas pessoas não permitem que possam se sentir na mesma sintonia que sinalizam suas mensagens.

Postado por José Morelli

Orgasmo

 À semelhança de outras espécies animais e até mesmo vegetais, nossa espécie humana traz, em sua constituição física, a capacidade de se reproduzir, perpetuando-se no tempo e no espaço. A ocorrência do orgasmo marca o momento em que a energia vital se solta, percorrendo o corpo de ponta a ponta, provocando um ápice de excitação e de prazer.

O orgasmo pode ser conseguido na individualidade e no compartilhamento, seja em relações heterossexuais, seja em relações homossexuais. A excitação aumenta gradativamente na medida em que há estimulação. A descarga energética provocadora da sensação de orgasmo pode representar o desfecho de uma etapa do processo global de reprodução humana.

Nem toda relação sexual chega a essa sensação prazerosa de satisfação física. Por alguma razão ocorrem bloqueios proibitivos que a impedem de acontecer. Os seres humanos não funcionam apenas fisicamente. A mente, com todos os seus segredos, interfere no processo sexual, agregando mais elementos que determinam as formas de como este se desdobra.

A consciência de quem é e de como é de cada indivíduo pode se constituir como uma faca de dois gumes: se, por um lado, essa consciência pode reforçar a consecução de um envolvimento pleno e prazeroso; pode também representar bloqueios ao ato, dificultando sua plena realização.

A rápida queda da sensação de prazer, que acontece logo após à descarga orgástica, faz a mente voltar ao sentido da realidade, expondo-se a mil sensações díspares. Mesmo com a possibilidade de se utilizar dos meios de contracepção hoje disponíveis, ainda não se é possível separar a sexualidade de sua ligação com a explosão da vida, que é o surgimento de um novo ser na terra. Daí que, por mais que o sexo possa preencher tantas necessidades humanas, ainda assim, ele não pode ser tratado sem um sentido profundo de responsabilidade, devendo ser administrado com o devido carinho e cuidado.

Postado por José Morelli

Saúde

 Bons momentos podem e devem ser rememorados. Portanto; aqui vai uma boa lembrança de um evento ocorrido aqui em nosso bairro da Penha, no ano de 2017 (?), antes do período de reclusão da pandemia. Sem ignorar a complexidade do tema objeto das discussões, algumas das reflexões apresentadas pelos debatedores também não deixam de merecer a devida atenção dos que desejam entende-lo em sua ampla abrangência.

A título de discutir para onde confluem as expectativas e demandas culturais da sociedade, em relação ao campus da futura Universidade Federal de São Paulo na Zona Leste, a partir de relatos de experiências acadêmicas praticadas por outras universidades; neste último sábado, dia 07 de maio, foi realizado aqui no Centro Cultural da Penha o II Seminário Universidade, Cultura e Periferia, evento promovido pelas seguintes entidades: Observatório de Políticas Públicas; Centro Memória da Zona Leste; Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NERB-UNIFESP); Fórum para as Culturas Tradicionais e Populares de SP; Rede de Cultura da Zona Leste Paulistana.

As temáticas tratadas foram abrangentes, abordando o acadêmico e o popular e tradicional (indígena, Afro-brasileiro e Periférico). Atuou como mediadora a Profa. Fernanda Miranda Cruz, do Departamento de Letras da UNIFESP – campus Guarulhos – Coordenadora do Núcleo de Cultura, Corpo e Arte (NUCCA). Como expositores, atuaram: o Prof. José Jorge de Carvalho, titular do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UNB) – Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia e Inclusão no Ensino e na Pesquisa (INCT) do Ministério de Ciência e Tecnologia e do CNPq. e a Mestra Lucely Morais Pio – Quilombola da Articulação Bacuri de Plantas Medicinais do Cerrado, no Estado de Goiás. 

O tema da saúde acabou ganhando um brilho especial a partir das colocações abertas pelos expositores, na parte da manhã. A união entre o acadêmico e o cultural abriu as mentes dos participantes, dando-lhes ensejo de perguntarem e de trazerem contribuições, que muito ajudaram na compreensão da importância do diálogo permanente que deve existir entre a Universidade, a Cultura e a Periferia (sociedade em seu todo). - Quem melhor conhece a natureza do que aqueles que nela beberam ou bebem seus inesgotáveis saberes!...

 Postado por José Morelli

 

Festa do Rosário 2019

 Desde o primeiro domingo do mês em curso, dia 02 de junho, vem sendo realizada a 18ª. Festa do Rosário da Penha. Já se passaram 17 anos da primeira edição, comemorativa dos 200 anos de reconhecimento oficial da igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, pelo bispo da diocese de São Paulo. A igreja fora construída pela Antiga Irmandade dos Homens Pretos da Penha de França, coletivo formado por homens e mulheres escravizados ou alforriados, residentes nas imediações do então povoado. Hoje a edificação se constitui como patrimônio histórico tombado nas esferas do Município e do Estado.

Como manda a tradição, no domingo acima referido, o mastro foi erguido solenemente no Largo, após o término da missa celebrada, no interior da igreja, pelo Padre José Ênes. A Congada de Santa Efigênia de Mogi das Cruzes deu brilho e alegria a essa cerimônia. Mesmo com o tempo chuvoso, o público compareceu em grande número.

A programação vem sendo cumprida de acordo com o que foi divulgado. No último sábado, se apresentaram no Largo: as Pastoras do Rosário, grupo composto por oito mulheres que, entre outras composições, resgatam músicas da escritora Carolina Maria de Jesus; o grupo Ilú Obá de Min; no final do dia, houve Roda de Jongo dos Guaianás. Entre essas apresentações, no horário das 19 horas, aconteceu a missa afro, no interior da igreja, celebrada pelo Padre Jalmir Matias de Oliveira e com as presenças das pastorais afro da diocese de São Miguel Paulista.

O dia mais solene da festa será neste próximo domingo, dia 23, a partir das 9:30 da manhã, com a celebração da Missa campal adornada com elementos da cultura Afro-brasileira e presidida por Dom Eduardo, bispo de São Paulo e pelo Padre Assis, da Comunidade de Vila Prudente. Estarão presentes irmandades e pastorais afro, além de dezenove grupos musicais de canto e dança, oriundos das tradições de cultura popular religiosa ligadas a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Na ocasião, os reis de festa de 2019 repassarão suas coroas aos novos reis de festa de 2020.

No sábado, dia 29, às 19 horas, será celebrada a missa Sertaneja, presidida pelo Padre Henúbio, da paróquia de Nossa Senhora de Fátima e São João Batista. A festa ainda se prolongará até o dia 07 de julho, domingo em que haverá a última missa festiva, às 10 horas da manhã, celebrada pelo Padre Diego, vigário paroquial da basílica da Penha, os reis que se despedem coroarão Nossa Senhora e, por fim, o mastro será retirado.

Como eu havia previsto em meu livro “Penha de França – Expressões do Rosário”, a pedra jogada no lago, criou círculos que vêm repercutindo e se alargando até os dias de hoje. Ao final do livro, ainda afirmei que a história nele contida não havia terminado, interpelando que novas pessoas viessem fazer parte da mesma, perpetuando-a. O livro que traz registro de importantes acontecimentos históricos, relacionados ao Bairro da Penha, estará sendo disponibilizado aos interessados de compra-lo nos locais de festa. Os exemplares adquiridos, com prazer, poderão receber dedicatória autografada do autor.  

Postado por José Morelli

Contas do Rosário

 Quando esta edição da Gazeta Penhense já estiver nas bancas à disposição de seus leitores e leitoras (sábado dia 2 de junho), o Largo do Rosário da Penha se encontrará devidamente decorado por centenas de bandeirinhas multicores e pronto para que as festividades relacionadas ao aniversário da bicentenária igreja, construída por negros escravizados bem como libertos (alforriados), possa ter sua solene abertura. No domingo (dia 3) a partir das 10 horas da manhã, será realizada uma missa com elementos de cultura afro brasileira, seguida do levantamento do mastro em louvor aos padroeiros: Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

O tema escolhido pela Comunidade para esta 17ª edição da festa é: SOMOS TODOS CONTAS DE UM MESMO ROSÁRIO, um convite à união e à cooperação mútua. Como é do conhecimento dos que são mais próximos ao assunto, o rosário é composto de muitas contas, cada uma servindo à contagem seja da oração de ave-marias (150), seja à contagem da oração de pais-nossos (15). De acordo com a tradição dos grupos de congados, o importante é que o rosário não se rompa; principalmente, quando da ocasião das festas, mantendo suas contas sempre unidas umas às outras. Para eles, as contas do rosário são também entendidas como metáfora do coletivo, isto é: da vida de comunhão de uns com os outros, inclusive com a natureza que está à volta.

A programação da festa em seu todo está chegando às mãos daqueles e daquelas que por ela se interessam. Como nos anos anteriores, desde que se iniciaram essas festas, a Gazeta Penhense divulgará passo a passo os eventos de cada semana. Não Só os que acontecerão no Largo e na Igreja, mas os de caráter mais cultural e artístico que ocorrerão no Centro Cultural da Penha, no Teatro Flávio Império, no CESC Belenzinho ou em ruas centrais do bairro, quando da procissão no dia principal da festa em 24 de junho (domingo).  

Um tempo forte de sensibilização é instaurado no sentido de contribuir para uma maior valorização do que vem a ser um patrimônio histórico. Em nosso caso, a história que se depreende do ícone que é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos da Penha, ligada à presença de afro descendentes na cidade de São Paulo e, especialmente, em nossa na Zona Leste. Precisamos de asas e de raízes, que nos permitam firmeza ao solo que pisamos com nossos pés e sobre o qual vivemos e convivemos. Somos mais fortes quando assumimos nossa própria história.

Postado por José Morelli

Projeto: Torre da Basílica da Penha

 Introdução

Quando, a pedido de Dom Duarte Leopoldo e Silva, os redentoristas que administravam a Paróquia da Penha procuravam terrenos onde deveria ser construído o futuro santuário. As sugestões por eles apresentadas não agradaram ao então arcebispo de São Paulo. Somente quando se tornou possível a compra da área que pertencia ao Conselheiro Lins de Vasconcelos, dada a sua proximidade com a igreja e vista para o centro da cidade e outras direções, foi decidida a compra da área que se constituía como uma boa chácara na qual havia muitas árvores frutíferas.

Nossa Senhora da Penha (da Pedra ou do Penhasco), necessariamente, deveria ter sua morada em lugar elevado e proeminente. A lenda do viajante francês, que levava consigo a imagem de Nossa Senhora, e que por três vezes teve que retornar ao lugar de sua última paragem para reencontrá-la, reforça a ideia de que aquele lugar era o que ela havia escolhido para ficar. Dali, ela poderia ver e ser vista pelos moradores da cidade.

A devoção a Nossa Senhora da Penha teve origem por volta do ano de 1434, a partir de um sonho em que o monge Simão Vela, viu uma imagem de Nossa Senhora que se encontrava enterrada no topo de uma escarpada montanha. Durante cinco anos procurou por esse lugar incansavelmente até encontra-lo nos Pirineus espanhóis, numa serra chamada de Penha de França em Salamanca.

De Portugal e de Espanha disseminou-se entre os povos por eles colonizados a crença de que Nossa Senhora da Penha, desde o lugar em que tem sua morada, protege as populações que habitam em seu entorno. No Brasil, a cidade de Vitória, no Espírito Santo, e Resende Costa, em Minas Gerais são exemplos de lugares em que Nossa Senhora da Penha foi escolhida como padroeira. Quanto à cidade de São Paulo, mesmo que os primeiros jesuítas que chegaram aos Campos de Piratininga, dando início à fundação do Colégio sob a proteção de Sant’Ana e a cidade que tem como data de seu início 25 de janeiro, dia da festa litúrgica da Conversão do Apóstolo São Paulo, ainda assim, a população paulistana por gerações escolheu Nossa Senhora da Penha como padroeira em suas necessidades pessoais e coletivas. Toda vez que a Cidade vivenciava graves problemas de epidemias e secas prolongadas, os cristãos católicos solicitavam das autoridades que permitissem o translado da imagem de Nossa Senhora da Penha à Sé Catedral, a fim de que lhe fossem dirigidas preces especiais. Por isso, popularmente Nossa Senhora da Penha mereceu e merece o título de padroeira da Cidade e de seus habitantes. Em oito de setembro, nas festas anuais, era em sua casa na Penha que Nossa Senhora recebia a visita dos paulistanos.

 

Proposta

No sentido de tornar os espaços de uma das torres da basílica da Penha (aquela em que se encontra o carrilhão com os sinos), tornando-os expressivos em seus significados e para que proporcionem, àqueles que o desejarem visita-los, oportunidade de agregarem novos significados ao ato de subirem, à pé, cada um de seus lances de escada e poderem vislumbrar a vista que, lá de cima, poderão ter da cidade e da vida que nela pulsa.

O tema proposto para ser desenvolvido através de todo o trajeto a ser percorrido é o “dos lugares altos” (no Antigo e no Novo Testamento): lugares de adoração/contemplação.

·         Monte Sinai ou Horebe: onde Moisés recebeu de Deus as Tábuas da Lei;

·         Monte Ararat: onde a Arca de Noé aportou depois de dilúvio;

·         Torre de Babel e a confusão das línguas. Um link para reflexão do “Querida Amazônia”

·         Contra posição ao tema do deserto: lugar de jejum e penitência;

·         “O Senhor é o meu Rochedo” (Sl 18.2);

·         Transfiguração de Jesus no monte Tabor;

·         Sermão da Montanha e as Bem-aventuranças;

·         Monte do Gólgota ou Calvário

 

Outras fontes de inspiração

Mantendo o aspecto de simplicidade dos ambientes e até a qualidade rústica, aliar formas artísticas que expressem o sentido da experiência do ato de subir e de encontrar-se com Deus, vislumbrando a cidade atribuindo-lhe novos significados.

Utilização dos degraus para pequenas mensagens.

“Subirei ao altar do Senhor...  Do Deus que alegra a minha juventude”.

“Salve Rainha, Mãe de Misericórdia...” (utilização de fones de ouvido).

Como devotos de Nossa Senhora da Penha, somos instados a participar com Ela no cuidado pela Cidade e pelos seus habitantes.

São Paulo está na altitude de 735 metros acima do níveo do mar. Padre Luiz Inocêncio foi cronista da Casa da Penha, no tempo dos redentoristas, registrou altitudes na Penha.

Laudato Si. Admirar a Obra de Deus. No caso de São Paulo, aquelas obras edificadas pela mão do homem. Tecnologia em harmonia com a Natureza (?)

 

São Paulo, 07 de março de 2020

Postado por José Morelli.