sábado, 22 de agosto de 2026

Presenças negras na Penha

 

Respeitável Loja Maçônica Penha de França Digníssimo Sr. Nelson Fuentes Júnior – Venerável Mestre da Augusta e

Digníssimo Sr. Adilson Charles dos Santos – Coordenador deste evento

Senhores e Senhoras

Tema desta minha fala: Presenças, na Penha de França, de pessoas negras oriundas do continente africano e seus descendentes

(toque do atabaque pelo Sérginho...: “Tava durumindo, Angoma me chamou”

·        O primeiro registro dessas presenças de que tenho notícia consta no testamento deixado pelo Padre Jacinto Nunes de Siqueira em favor da capela de Nossa Senhora da Penha, no qual lhe dá direito, entre outros bens, o da posse de escravos negros e índios. Figuram neste documento o casal de negros responsáveis pelo cuidado da capela: Felipe e Faustina, juntamente com seus dois filhos.

·        Aqui aparecem representadas as três raças que deram base à formação do povo brasileiro: o europeu, na pessoa do Padre Jacinto Nunes de Siqueira, considerado pelo Dr. Sílvio Bomtempi fundador do bairro da Penha; o indígena, nas pessoas dos escravos índios, também citados no testamento, e os que foram trazidos do continente africado: Felipe, Faustina e dois filhos como já foi dito.

·        A região em que se encontra a Penha, a partir da subida da colina desde a várzea do Aricanduva, fazia parte dos chamados Campos de Ururay, campos esses que se prolongavam até São Miguel Paulista. Ururaí era, também, o nome da tribo da Confederação dos Guianás, que teve como um de seus principais chefes o cacique Piquerobí. Nos dias de hoje, Ururay é o nome dado a um grupo de pessoas (estudantes, professores, arquitetos) interessadas na preservação do patrimônio histórico da zona leste da cidade de São Paulo.

·        No acervo do Museu Paulista (ou do Ipiranga como é mais conhecido) encontra-se um quadro de Adelaide Cavalcante, do século XVIII. Nele é representada a Igreja de Nossa Senhora da Penha. Junto a ela aparece também uma caravana de viajantes acompanhada de tropa de burros, carregados com sacos de mantimentos. Uma liteira tendo um cavalo à frente e outro atrás e mais um homem montado num cavalo são vistos na dianteira da comitiva. Desde seus primórdios, a Penha serviu de passagem aos viajantes e tropeiros: negros escravizados compunham, como ajudantes, essas caravanas.

·        No sentido de dar aos viajantes condições de pouso e de suprimentos, a Penha passou a oferecer serviços que atendiam a essas necessidades: cesteiros, ferreiros, celeiros; serviçais domésticos e outros. Foi isso que proporcionou o desenvolvimento do primitivo núcleo, além do importante papel desempenhado pela igreja de Nossa Senhora.

·        Com o passar do tempo, as Sesmarias (que eram as doações de terras feitas a particulares pelos reis de Portugal) foram divididas e repassadas a novos donos. Estes novos donos passaram a promover o cultivo das terras e à criação de animais. Para esses trabalhos os senhores se utilizavam dos escravizados trazidos da África.

·        O que temos de certo é que, por volta dos anos de 1755, esses homens e mulheres escravizados, que viviam na Penha e adjacências, resolveram se reunir numa Irmandade: a de Nossa Senhora do Rosário – Irmandade do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França. Quanto à construção da capela, não sabemos quando teve início. Sua construção, provavelmente, se deu por partes: ... Temos documentado que, no dia 16 de junho de 1802, os membros da irmandade solicitaram ao bispo de São Paulo que oficializasse (erigisse canonicamente) a igreja como templo religioso católico.  Sabemos também que a igreja foi dado o direito de ter junto um cemitério onde os negros podiam ter um lugar  digno onde enterrar seus mortos.

·        Existe um outro documento que soubemos de sua existência há pouco tempo. Ele contém os nomes de pessoas que foram enterradas no cemitério da igreja do rosário da Penha – Chama-se “Livro de Óbitos”. A história do Rosário ainda não se esgotou. Que venham outros e outras ajudar no descortina mento, no desvendamento dessa história!

·        Para explicar a importância que teve as irmandades negras naquele tempo, o historiador Marcelo Manzatti explica assim: “Como escravos, eles não tinham nenhum atributo que os permitisse participar dos estatutos de cidadania da época, sua filiação vai se dar à parte, constituindo a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, no que viria a ser modelo destas instituições para toda colônia portuguesa na América”.

·        As sociedades constituídas sempre têm se interessado de repassar às novas gerações as próprias histórias: acontecimentos que julgam relevantes e personalidades. Nomes dados a lugares são um meio de perpetuar tais memórias.

·        Dos nossos indígenas não temos nenhum nome deles em ruas de nosso bairro. Temos apenas alguns nomes que remontam aos tempos em que eles ocupavam nossa região. Assim, o rio Tietê era chamado por eles de Anhembi, que significa: rio das perdizes. Aricanduva era chamado assim por causa da variedade de uma palmeira que havia em suas margens. Irapucará significava: abelha ruidosa. Guaiaúna era o nome de um tipo de caranguejo preto. Aracati é o mesmo que vento da maresia ou ar impregnado de mau cheiro.

·        A toponímia da Penha contemplou várias personalidades brancas dando nomes a importantes ruas do centro do bairro: Rua Coronel Rodovalho (Antonio Prost Rodovalho); Comendador Cantinho (Gabriel Marques Cantinho)...; General Socrates; Major Ângelo Zanchi; Dr. João Ribeiro; Padre Antonio Benedito de Camargo.

·        Quanto aos negros, Dona Michaela Vieira foi quem deu nome uma de nossa praças. Por sinal, a mesma praça na qual existe um monumento que homenageia o maçon ou pedreiro, colaborador do grande arquiteto do universo na construção da sociedade humana. Segundo dizem, Michaela Vieira era uma negra que, durante anos, foi parteira aqui no bairro, ajudando a muitas mães a gerarem seus filhos.

·        Outro lugar que tem um nome que lembra a presença do negro na Penha é a Travessa Princesa Isabel. Depois da promulgação da Lei Áurea, seu nome foi dado ao caminho que levava a uma área na qual viviam algumas famílias negras moradoras na Penha.

·        Só para se ter uma ideia do número de negros que moravam no bairro da Penha por volta dos anos 30, o controle estatístico que os redentoristas faziam de suas atividades indicam que no ano de 1936 a irmandade de São Benedito da Penha tinha como membros nada mais nada menos que 600 irmãos.

·        Na lógica do capitalismo, quem pode mais chora menos. A especulação imobiliária sempre foi cruel com os mais desfavorecidos. Consequência disso foi a retirada destes para as periferias da cidade. Muitas foram as famílias de negros que deixaram o bairro tendo que ir morar em outros lugares mais distantes do centro.

·        Voltando à toponímia do bairro da Penha, os lugares que têm se tornado cada vez mais expressivos e que são marcas da presença do negro na cidade de São Paulo, são eles: a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e o Largo do Rosário. Desde 2002 eles vêm sendo lembrados com uma festa de aniversário. Neste ano de 2017, no próximo mês de junho, será realizada a 16ª. Edição de Festa do Rosário. O tema escolhido para esse evento é: “O Rosário celebra a Diversidade para que ela não se transforme em desigualdade”.

·        Termino convidando a todos que venham participar dessa festa que o Livro “Penha de França – Expressões do Rosário” fez questão de enaltecer e fazê-la mais conhecida.

·        Samba todo último sábado do mês... – Celebrações afro todo primeiro domingo... Assim como tive a participação do Serginho no início, peço que ele me ajude a terminar, entoando o “Hino do rosário

                                                                                 São Paulo, 12 de maio de 2017.

Postado por José Morelli

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