Respeitável Loja Maçônica Penha de França Digníssimo Sr.
Nelson Fuentes Júnior – Venerável Mestre da Augusta e
Digníssimo Sr. Adilson Charles dos Santos – Coordenador deste
evento
Senhores e Senhoras
Tema desta
minha fala: Presenças, na Penha de França, de pessoas negras oriundas do
continente africano e seus descendentes
(toque do
atabaque pelo Sérginho...: “Tava durumindo, Angoma me chamou”
·
O primeiro registro dessas presenças de que tenho notícia
consta no testamento deixado pelo Padre Jacinto Nunes de Siqueira em favor da
capela de Nossa Senhora da Penha, no qual lhe dá direito, entre outros bens, o
da posse de escravos negros e índios. Figuram neste documento o casal de negros
responsáveis pelo cuidado da capela: Felipe e Faustina, juntamente com seus
dois filhos.
·
Aqui aparecem representadas as três raças que deram base à
formação do povo brasileiro: o europeu, na pessoa do Padre Jacinto Nunes de
Siqueira, considerado pelo Dr. Sílvio Bomtempi fundador do bairro da Penha; o
indígena, nas pessoas dos escravos índios, também citados no testamento, e os
que foram trazidos do continente africado: Felipe, Faustina e dois filhos como
já foi dito.
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A região em que se encontra a Penha, a partir da subida da colina
desde a várzea do Aricanduva, fazia parte dos chamados Campos de Ururay, campos
esses que se prolongavam até São Miguel Paulista. Ururaí era, também, o nome da
tribo da Confederação dos Guianás, que teve como um de seus principais chefes o
cacique Piquerobí. Nos dias de hoje, Ururay é o nome dado a um grupo de pessoas
(estudantes, professores, arquitetos) interessadas na preservação do patrimônio
histórico da zona leste da cidade de São Paulo.
·
No acervo do Museu Paulista (ou do Ipiranga como é mais
conhecido) encontra-se um quadro de Adelaide Cavalcante, do século XVIII. Nele
é representada a Igreja de Nossa Senhora da Penha. Junto a ela aparece também
uma caravana de viajantes acompanhada de tropa de burros, carregados com sacos de
mantimentos. Uma liteira tendo um cavalo à frente e outro atrás e mais um homem
montado num cavalo são vistos na dianteira da comitiva. Desde seus primórdios,
a Penha serviu de passagem aos viajantes e tropeiros: negros escravizados
compunham, como ajudantes, essas caravanas.
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No sentido de dar aos viajantes condições de pouso e de
suprimentos, a Penha passou a oferecer serviços que atendiam a essas
necessidades: cesteiros, ferreiros, celeiros; serviçais domésticos e outros.
Foi isso que proporcionou o desenvolvimento do primitivo núcleo, além do
importante papel desempenhado pela igreja de Nossa Senhora.
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Com o passar do tempo, as Sesmarias (que eram as doações de
terras feitas a particulares pelos reis de Portugal) foram divididas e
repassadas a novos donos. Estes novos donos passaram a promover o cultivo das
terras e à criação de animais. Para esses trabalhos os senhores se utilizavam
dos escravizados trazidos da África.
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O que temos de certo é que, por volta dos anos de 1755, esses
homens e mulheres escravizados, que viviam na Penha e adjacências, resolveram
se reunir numa Irmandade: a de Nossa Senhora do Rosário – Irmandade do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França. Quanto à
construção da capela, não sabemos quando teve início. Sua construção,
provavelmente, se deu por partes: ... Temos documentado que, no dia 16 de junho
de 1802, os membros da irmandade solicitaram ao bispo de São Paulo que oficializasse
(erigisse canonicamente) a igreja como templo religioso católico. Sabemos também que a igreja foi dado o
direito de ter junto um cemitério onde os negros podiam ter um lugar digno onde enterrar seus mortos.
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Existe um outro documento que soubemos de sua existência há
pouco tempo. Ele contém os nomes de pessoas que foram enterradas no cemitério
da igreja do rosário da Penha – Chama-se “Livro de Óbitos”. A história do
Rosário ainda não se esgotou. Que venham outros e outras ajudar no descortina
mento, no desvendamento dessa história!
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Para explicar a importância que teve as irmandades negras
naquele tempo, o historiador Marcelo Manzatti explica assim: “Como escravos,
eles não tinham nenhum atributo que os permitisse participar dos estatutos de
cidadania da época, sua filiação vai se dar à parte, constituindo a Irmandade
do Rosário dos Homens Pretos, no que viria a ser modelo destas instituições
para toda colônia portuguesa na América”.
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As sociedades constituídas sempre têm se interessado de
repassar às novas gerações as próprias histórias: acontecimentos que julgam
relevantes e personalidades. Nomes dados a lugares são um meio de perpetuar tais
memórias.
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Dos nossos indígenas não temos nenhum nome deles em ruas de
nosso bairro. Temos apenas alguns nomes que remontam aos tempos em que eles
ocupavam nossa região. Assim, o rio Tietê era chamado por eles de Anhembi, que
significa: rio das perdizes. Aricanduva era chamado assim por causa da
variedade de uma palmeira que havia em suas margens. Irapucará significava:
abelha ruidosa. Guaiaúna era o nome de um tipo de caranguejo preto. Aracati é o
mesmo que vento da maresia ou ar impregnado de mau cheiro.
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A toponímia da Penha contemplou várias personalidades brancas
dando nomes a importantes ruas do centro do bairro: Rua Coronel Rodovalho
(Antonio Prost Rodovalho); Comendador Cantinho (Gabriel Marques Cantinho)...;
General Socrates; Major Ângelo Zanchi; Dr. João Ribeiro; Padre Antonio Benedito
de Camargo.
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Quanto aos negros, Dona Michaela Vieira foi quem deu nome uma
de nossa praças. Por sinal, a mesma praça na qual existe um monumento que
homenageia o maçon ou pedreiro, colaborador do grande arquiteto do universo na
construção da sociedade humana. Segundo dizem, Michaela Vieira era uma negra
que, durante anos, foi parteira aqui no bairro, ajudando a muitas mães a
gerarem seus filhos.
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Outro lugar que tem um nome que lembra a presença do negro na
Penha é a Travessa Princesa Isabel. Depois da promulgação da Lei Áurea, seu
nome foi dado ao caminho que levava a uma área na qual viviam algumas famílias
negras moradoras na Penha.
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Só para se ter uma ideia do número de negros que moravam no
bairro da Penha por volta dos anos 30, o controle estatístico que os
redentoristas faziam de suas atividades indicam que no ano de 1936 a irmandade
de São Benedito da Penha tinha como membros nada mais nada menos que 600
irmãos.
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Na lógica do capitalismo, quem pode mais chora menos. A
especulação imobiliária sempre foi cruel com os mais desfavorecidos.
Consequência disso foi a retirada destes para as periferias da cidade. Muitas
foram as famílias de negros que deixaram o bairro tendo que ir morar em outros
lugares mais distantes do centro.
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Voltando à toponímia do bairro da Penha, os lugares que têm
se tornado cada vez mais expressivos e que são marcas da presença do negro na
cidade de São Paulo, são eles: a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e o Largo
do Rosário. Desde 2002 eles vêm sendo lembrados com uma festa de aniversário.
Neste ano de 2017, no próximo mês de junho, será realizada a 16ª. Edição de
Festa do Rosário. O tema escolhido para esse evento é: “O Rosário celebra a
Diversidade para que ela não se transforme em desigualdade”.
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Termino convidando a todos que venham participar dessa festa
que o Livro “Penha de França – Expressões do Rosário” fez questão de enaltecer
e fazê-la mais conhecida.
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Samba todo último sábado do mês... – Celebrações afro todo
primeiro domingo... Assim como tive a participação do Serginho no início, peço que ele me ajude a terminar, entoando o “Hino do rosário”
São Paulo, 12 de maio
de 2017.
Postado por José Morelli
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