Rosário da Penha
José Morelli
O lugar em
que se encontra construída a Basílica de Nossa Senhora da Penha de França, foi
escolhido à dedo pelo então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e
Silva, a fim de que a mesma pudesse ver e ser vista pela cidade e
por seus habitantes, da mesma forma como acontecia com a antiga matriz, atual Santuário
Eucarístico, existente desde os primórdios do bairro, também edificado em honra
de Maria, sob o título de Nossa Senhora da Penha.
A pequena
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França, juntamente
com a Basílica e o Santuário Eucarístico, ocupam o chamado “Centro Histórico da Penha”,
espaço tombado pelo Compresp, órgão de preservação de patrimônio histórico do
município de São Paulo.
Do
conhecimento vem o amor. O intuito desta exposição é trazer à tona uma história
de amor, vivenciada por todos e todas que organizaram e participaram de cada
uma das festas do Rosário, promovidas nestes últimos vinte e quatro anos:
primeiro, pelas comissões de festa; depois, pela Comunidade do Rosário. Embora
seja a menor dentre as três igrejas, seu valor histórico é de importância
capital no resgate da presença dos afrodescendentes no bairro da Penha e na
cidade de São Paulo. Em duas das músicas cantadas, com frequência, em nossas
celebrações e missas, a modesta igreja, construída na taipa pela antiga Irmandade
dos Homens Pretos da Penha, é chamada de: “santuário” e de “palácio”:
“Olha que coisa linda! Esta é a festa do Rosário (bis)
São mais de duzentos anos deste
lindo santuário...” (bis) *
e
“Nesse palácio tem coroa,
nesse palácio tem bandeira.
Nesse palácio tem amor e a
Senhora do Rosário é a nossa
padroeira!”
Os locais
altos são considerados na Bíblia como lugares onde Deus se manifesta e dialoga
com seu povo. Assim aconteceu com Abraão que, levando consigo o filho Isaac,
subiu ao monte Moriá para ali sacrifica-lo, em obediência ao que Deus lhe havia
ordenado. Tal ato prefigurava o que efetivamente aconteceria com Jesus,
Cordeiro de Deus imolado pela salvação da humanidade. Também Moisés, subiu ao
monte Sinai para receber de Deus as tábuas da lei, onde Deus gravou os dez
mandamentos da nova aliança. Os Evangelhos contam que Jesus subiu a uma
montanha e ali proferiu o Sermão das Bem-aventuranças, instituindo assim uma
nova forma de entendimento dos mandamentos. Foi no alto do monte Calvário que
Jesus foi elevado na cruz e crucificado.
Para ter
acesso à exposição será necessário subir dois degraus apenas. Em seguida, no
sentido horário, a começar pelo cartaz da festa de 2002, na qual foi realizada
a comemoração dos 200 anos de reconhecimento oficial da igreja, pelo bispo de
São Paulo, o caminho pelos demais vinte e poucos anos de festa é iniciado.
As imagens
que compõem os cartazes das primeiras festas se fixam em representações da
igreja, ora associadas às figuras de Nossa Senhora do Rosário e de São
Benedito, ora a figuras de mulheres ou de grupos de congados, bem como do
levantamento do mastro.
A partir de
2007, os cartazes passaram a expressar os diversos temas escolhidos para
reforçar os significados de cada festa. Como exemplo, aqui são citados apenas três
dentre outros, escolhidos para as demais festas nos outros anos:
“Tá caindo fulô!” –
(2007)
“Ei mamãe, abraça eu!” (2009)
“Cheira cravo e rosa e
flor de laranjeira”. (2011)
Desde outubro
de 2013, com o início das celebrações e missas adornadas com elementos de
cultura afro-brasileira, nos primeiros domingos de cada mês, os cartazes
passaram, também, a retratar pessoas da comunidade. Assim, em 2014, foi
retratada a menina Kisy associada ao tema “Recado aos nossos ancestrais”. Em
2015, Dona Durcelina com seu sorriso ameno e seu abraço terno, ilustrou
o tema “Um abraço negro traz felicidade”. Em 2016, quando no Rosário,
dez crianças receberam o sacramento do batismo durante a missa, o cartaz trouxe
a foto da Marjorie. O tema escolhido para a festa desse ano foi: “Há
uma criança em meu coração, quando balanço, ela me dá a mão”.
Em 2020 veio
a pandemia de COVID 19. Difícil esquecer tantas mortes e tantos problemas! O
olhar da Comunidade do Rosário se voltou para os que se foram. Nesse ano, a
festa não aconteceu. Para representar esse momento e expressar o sentimento da
Comunidade, o tema escolhido foi: “Rosário conectando estrelas:
Ancestralidade, Vida e Solidariedade”. Em 2021, a festa foi substituída
por um vídeo com a participação de toda a Comunidade do Rosário. O canto
entoado por todos, cada um de sua própria casa, foi: “Uma conta não faz colar...”. Em 2022, na comemoração dos vinte anos
de retomada das festas, a Comunidade voltou a realiza-la, escolhendo como tema: “O
futuro é ancestral”.
Os materiais
que seriam utilizados para comporem a exposição foram criteriosamente
selecionados por seus organizadores. O resultado poderá ser constado logo mais
por todos e todas que a ela tiverem a felicidade de visita-la e conhece-la.
Nos últimos anos,
as artes dos cartazes foram elaboradas por profissionais especialmente contratados,
que contaram com assessoria da equipe de comunicação da Comunidade do Rosário. Assim
aconteceu no ano de 2017 quando da celebração dos 300 anos do encontro da
imagem de Nossa Senhora Aparecida, nas águas do Rio Paraíba do Sul. Da mesma
forma, aconteceu ao destacar a figura de São Benedito, na festa de 2022, ilustrando
o expressivo cartaz com o seguinte tema: “Nossas fomes saciadas nas virtudes de um
Preto”. Nos dois últimos anos, na esteira dos temas escolhidos para as
Campanhas da Fraternidade da CNBB, o de 2025 foi: “Sou Natureza e o cuidar é
Sagrado”. O de 2026: “Rosário é
nossa morada”.
Finalizando,
só me resta desejar-lhe que, com seu olhar, consiga ver além do visível da
exposição, descobrindo assim as razões de tantos fascínios e encantamentos de
uma importante história de fé e resistência.
04 de agosto de 2026
Postado por José Morelli
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