sábado, 22 de agosto de 2026

Rosário da Penha

 Rosário da Penha

                                                                 José Morelli

O lugar em que se encontra construída a Basílica de Nossa Senhora da Penha de França, foi escolhido à dedo pelo então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, a fim de que a mesma pudesse ver e ser vista pela cidade e por seus habitantes, da mesma forma como acontecia com a antiga matriz, atual Santuário Eucarístico, existente desde os primórdios do bairro, também edificado em honra de Maria, sob o título de Nossa Senhora da Penha.

A pequena Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França, juntamente com a Basílica e o Santuário Eucarístico, ocupam o chamado “Centro Histórico da Penha”, espaço tombado pelo Compresp, órgão de preservação de patrimônio histórico do município de São Paulo.

Do conhecimento vem o amor. O intuito desta exposição é trazer à tona uma história de amor, vivenciada por todos e todas que organizaram e participaram de cada uma das festas do Rosário, promovidas nestes últimos vinte e quatro anos: primeiro, pelas comissões de festa; depois, pela Comunidade do Rosário. Embora seja a menor dentre as três igrejas, seu valor histórico é de importância capital no resgate da presença dos afrodescendentes no bairro da Penha e na cidade de São Paulo. Em duas das músicas cantadas, com frequência, em nossas celebrações e missas, a modesta igreja, construída na taipa pela antiga Irmandade dos Homens Pretos da Penha, é chamada de: “santuário e de “palácio”:

             “Olha que coisa linda! Esta é a festa do Rosário (bis)

               São mais de duzentos anos deste lindo santuário...” (bis) *

               e

             “Nesse palácio tem coroa, nesse palácio tem bandeira.

              Nesse palácio tem amor e a Senhora do Rosário é a nossa

             padroeira!”

 

 

 

Os locais altos são considerados na Bíblia como lugares onde Deus se manifesta e dialoga com seu povo. Assim aconteceu com Abraão que, levando consigo o filho Isaac, subiu ao monte Moriá para ali sacrifica-lo, em obediência ao que Deus lhe havia ordenado. Tal ato prefigurava o que efetivamente aconteceria com Jesus, Cordeiro de Deus imolado pela salvação da humanidade. Também Moisés, subiu ao monte Sinai para receber de Deus as tábuas da lei, onde Deus gravou os dez mandamentos da nova aliança. Os Evangelhos contam que Jesus subiu a uma montanha e ali proferiu o Sermão das Bem-aventuranças, instituindo assim uma nova forma de entendimento dos mandamentos. Foi no alto do monte Calvário que Jesus foi elevado na cruz e crucificado.

Para ter acesso à exposição será necessário subir dois degraus apenas. Em seguida, no sentido horário, a começar pelo cartaz da festa de 2002, na qual foi realizada a comemoração dos 200 anos de reconhecimento oficial da igreja, pelo bispo de São Paulo, o caminho pelos demais vinte e poucos anos de festa é iniciado.

As imagens que compõem os cartazes das primeiras festas se fixam em representações da igreja, ora associadas às figuras de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, ora a figuras de mulheres ou de grupos de congados, bem como do levantamento do mastro.

A partir de 2007, os cartazes passaram a expressar os diversos temas escolhidos para reforçar os significados de cada festa. Como exemplo, aqui são citados apenas três dentre outros, escolhidos para as demais festas nos outros anos:

                        “Tá caindo fulô!” – (2007)

                        “Ei mamãe, abraça eu!” (2009)

                        “Cheira cravo e rosa e flor de laranjeira”. (2011)      

 

Desde outubro de 2013, com o início das celebrações e missas adornadas com elementos de cultura afro-brasileira, nos primeiros domingos de cada mês, os cartazes passaram, também, a retratar pessoas da comunidade. Assim, em 2014, foi retratada a menina Kisy associada ao tema “Recado aos nossos ancestrais”. Em 2015, Dona Durcelina com seu sorriso ameno e seu abraço terno, ilustrou o tema “Um abraço negro traz felicidade”. Em 2016, quando no Rosário, dez crianças receberam o sacramento do batismo durante a missa, o cartaz trouxe a foto da Marjorie. O tema escolhido para a festa desse ano foi: “Há uma criança em meu coração, quando balanço, ela me dá a mão”.

Em 2020 veio a pandemia de COVID 19. Difícil esquecer tantas mortes e tantos problemas! O olhar da Comunidade do Rosário se voltou para os que se foram. Nesse ano, a festa não aconteceu. Para representar esse momento e expressar o sentimento da Comunidade, o tema escolhido foi: “Rosário conectando estrelas: Ancestralidade, Vida e Solidariedade”. Em 2021, a festa foi substituída por um vídeo com a participação de toda a Comunidade do Rosário. O canto entoado por todos, cada um de sua própria casa, foi: “Uma conta não faz colar...”.  Em 2022, na comemoração dos vinte anos de retomada das festas, a Comunidade voltou a realiza-la, escolhendo como tema: “O futuro é ancestral”.

Os materiais que seriam utilizados para comporem a exposição foram criteriosamente selecionados por seus organizadores. O resultado poderá ser constado logo mais por todos e todas que a ela tiverem a felicidade de visita-la e conhece-la.

Nos últimos anos, as artes dos cartazes foram elaboradas por profissionais especialmente contratados, que contaram com assessoria da equipe de comunicação da Comunidade do Rosário. Assim aconteceu no ano de 2017 quando da celebração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, nas águas do Rio Paraíba do Sul. Da mesma forma, aconteceu ao destacar a figura de São Benedito, na festa de 2022, ilustrando o expressivo cartaz com o seguinte tema: “Nossas fomes saciadas nas virtudes de um Preto”. Nos dois últimos anos, na esteira dos temas escolhidos para as Campanhas da Fraternidade da CNBB, o de 2025 foi: “Sou Natureza e o cuidar é Sagrado”. O de 2026: “Rosário é nossa morada”.

Finalizando, só me resta desejar-lhe que, com seu olhar, consiga ver além do visível da exposição, descobrindo assim as razões de tantos fascínios e encantamentos de uma importante história de fé e resistência.

 

                                                                                       04 de agosto de 2026

Postado por José Morelli

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