terça-feira, 18 de junho de 2013

Assumir

Assumir significa trazer para si como próprio, responsabilizar-se pelo que é ou tem ao alcance: das mãos; dos pés; da inteligência, do coração. Trata-se de uma palavra-chave para entendimento do comportamento humano e, principalmente, representativa de uma atitude que permite a superação das mesmices do cotidiano e abertura para novos caminhos e conquistas. Nem sempre é fácil assumir ou assumir-se. A medida dessas dificuldades pode ter tamanhos diversos. Há situações que exigem grandes esforços e determinação para serem assumidas na inteireza e totalidade.

Esforço e determinação. O esforço supõe energia, tanto física como mental/emocional e da força de vontade. Às vezes, estas energias fluem com mais facilidade. Outras vezes, tem-se a impressão de que elas se encontram bloqueadas ou proibidas de se mostrarem. Os motivos que determinam essas diferenças podem ser muitos. Enquanto alguns desses motivos podem até serem identificados e reconhecidos, outros permanecem ocultos no subconsciente, como que guardados a sete-chaves.   

Quanto à consciência, esta é, em si mesma, uma potente energia. A direção que a consciência entende como determinante do caminho a ser seguido pode não coincidir com a de outras demandas, acionadas por outros dinamismos (potencialidades) que também fazem parte da personalidade do ser humano. Surgem assim os conflitos, espécies de colisões de interesses que dificultam a colocação em prática da tomada de decisão de assumir.

Assumir e assumir-se no o dia a dia com tudo o que dele faz parte; assumir o trabalho, os estudos, os relacionamentos de amizade, o namoro, o casamento, a separação, a perda de um bem material, de um ente querido, a condição adulta e responsável, a manutenção e o cuidado da casa, os direitos ou obrigações da cidadania, a afetividade, a sexualidade, o amor, uma doença, uma deficiência física ou de personalidade própria ou de algum amigo ou familiar. Estes são apenas alguns exemplos de necessidades imperiosas, que reclamam de cada indivíduo que assuma um posicionamento frente às mesmas, empenhando-se em encará-las e enfrentá-las.

O assumir é radical, exige determinação e coragem. O assumir não pode deixar de ser inteligente e maduro. Escolher assumir e assumir-se no que é condizente com a própria consciência é, também, fonte de paz consigo mesmo e de profunda felicidade, fruto da percepção e constatação do dever cumprido.

Por José Morelli

quarta-feira, 13 de março de 2013

“Bitolado”

Adjetivo originado de bitola, termo que define dimensões, comumente utilizado para qualificar linhas de trem, que podem ser de bitola larga ou estreita. Na linguagem popular, costuma-se chamar de “bitolado” aquele indivíduo que segue sempre na mesma linha, tendo um comportamento semelhante ao do trem, andando somente como sobre os mesmos trilhos. Age de maneira pré-determinada, não conseguindo adotar um repertório mais criativo nos comportamentos, de acordo com a necessidade do momento e das circunstâncias que o cercam.

As tapas colocadas dos dois lados dos olhos do burro, que puxa uma carroça, o obrigam a seguir somente na direção que se apresenta à sua frente. O dono puxa-o pelo freio, fazendo-o virar a cabeça para a direção que deseja conduzi-lo. Quando se afirma que alguém é bitolado, às vezes, costuma-se acompanhar essa afirmação com o gesto de colocar as mãos ao lado dos próprios olhos, à semelhança das tapas que são colocadas nos burros de carga.

Várias são as razões que podem fazer um indivíduo se comportar de maneira bitolada. Uma delas é a necessidade que este tem de se garantir segurança. Prefere repetir os comportamentos que deram certo no passado a adotar novos, ainda não experimentados. Teme se expor ao risco de errar. A necessidade de ser perfeito ou irrepreensível, diante dos próprios olhos ou dos olhos dos outros, pode dar origem a esse medo. Outra razão dessa mesma tendência é a falta de confiança nas próprias capacidades. Por força dessa falta de confiança, prefere seguir as trilhas mostradas pelos outros não se esforçando para criar as próprias.

Existem aqueles que são mais bitolados e aqueles que o são menos. Aqueles que se fecham mais em si mesmos e aqueles que não se fecham tanto. Os primeiros se assemelham aos trens de bitola estreita, enquanto que os segundos com os trens que trafegam sobre bitola larga. Por de trás dessas aparências, sempre existem causas mais profundas que as sustentam. Trabalhá-las, ajuda na superação desse tipo de necessidade neurótica. Vale à pena ampliar as próprias capacidades de agir. Vale à pena libertar-se das correntes que limitam a expansão dos próprios comportamentos.    

Por José Morelli

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Na plenitude do aqui/agora


Se é que você tem alguma possibilidade de agir, expressando-se na totalidade de seu ser é: do lugar em que você se encontra e no momento exato em que você está vivendo. Nem ao passado e nem ao futuro você tem acesso imediato. Só o presente lhe é acessível diretamente. O agora é fugaz, passando como o vento que não para nem um instante. Ao terminar de pronunciar a palavra agora, o tempo já não é mais o mesmo, tendo sido sucedido pelo imediatamente seguinte. A vida é vivida na sucessão de “agoras”. Quem não vive o presente pelo que ele pode oferecer de oportunidades reais e concretas é como aquele que não tem os pés no chão, anda sobre nuvens, sonha apenas que está vivendo, perdendo a chance de usufruir da sensação de plenitude que a vida real pode lhe oferecer.

Embora efêmero, o agora é imensamente profundo. Mesmo sendo ínfimo em sua extensão, é imenso em sua profundidade. Nele você pode encontrar-se na percepção de sua própria pessoa, inteira. Nele, ainda, você pode entrar em sintonia com o mundo que o rodeia, dimensionando-o em toda sua grandeza. Nele, por fim, você pode transcender, projetando-se para além de sua própria pessoa e do mundo, penetrando e deixando-se penetrar pelo Absoluto, pelo Infinito do Existir, que permeia a natureza toda, da qual você também faz parte. Através da utilização da memória, a mente acessa o passado, lembrando-se dos “agoras” já vividos. Através da imaginação, a mente antevê o futuro, idealizando-o e preparando-lhe o caminho para que venha a se concretizar.

O agora é o pé no chão... é a energia que vem da terra. O agora é o combustível que impulsiona a vida para frente. Nele o ser descansa assegurando-se que é, de que forma é e em que contexto de mundo se encontra vivendo. Nele o ser se percebe no caminho, à semelhança do barco que também se deixa levar pela correnteza do rio. O presente é a base, o apoio. Nele é que o pé se firma para dar mais um passo adiante. Ele é você em suas capacidades e limitações. Ele é o seu tudo e o seu nada. Nele você pode ganhar o céu ou perdê-lo. O aqui é este lugar que você escolheu para viver ou que ele escolheu você para que nele você vivesse seus sucessivos “agoras”. A sensação de plenitude é como a sensação de um abraço. A vida é o que é, sem disfarces ou máscaras. Abraçando-a, aceitando-a assim tal como ela é, você a experimenta nos múltiplos sabores que ela tem para lhe proporcionar, sentindo-a em toda a sua plenitude.

Por José Morelli

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Armadilhas

Dar para receber de volta. Controlar sem que não seja controlado. Acreditar de que a vida pode ser sem problemas. Pensar que a paz é, apenas, ausência de guerras. Imaginar que o ter pode suprir a falta do ser ou, pelo contrário, de que o ser pode suprir a falta do ter. Julgar que a felicidade só existe quando não há sofrimento.

Quando alguém, acreditando que ama, faz uma série de coisas para agradar à pessoa a quem diz estar amando e espera que esta lhe retribua, dando-lhe na mesma proporção ou mais, ela não passa de uma egoísta, pois usa do amor como uma forma de negociar vantagens.

Engana-se quem se julga mais poderoso do que aquele a quem mantém sob controle. São muitos os fatores que envolvem qualquer acontecimento, sendo que alguns desses fatores dependem exclusivamente do que se passa no íntimo e são absolutamente incontroláveis a partir de fora. Cadeia não se confunde totalmente com liberdade e liberdade não se confunde com estar ou não recluso entre quatro paredes.

Toda saída de problemas é abertura para situações novas. Como tal, essas situações encerram desafios a serem superados, problemas a serem equacionados, driblados, com os quais se é preciso aprender a conviver ou lidar, de alguma forma. Acontece, às vezes, de que a superação de um problema, implica na criação de dez novos problemas.

A paz é buscada através de vários caminhos. A paz dos que jazem mortos nos cemitérios é incapaz de modificar qualquer situação injusta. A justiça começa com o reconhecimento da dignidade pessoal por parte de cada indivíduo. Independentemente de qualquer diferença, seja ela de cor, raça, religião, condição social, todo ser humano é digno e merecedor de consideração, respeito e do indispensável à sua sobrevivência e realização pessoal, no meio em que vive. Esse é mais um dos caminhos que deve levar à paz.

Ser, ter, felicidade, sofrimento... são como os pés que sustentam um banco. Se faltar um deles, o banco não se mantém firme e cai. A cada um deles cabe suportar um quarto do peso, distribuído sobre a superfície do banco. Da mesma forma, acontece com a vida humana na contingência de sua existência terrena, material. Todo sofrimento é confronto. Do confronto podem se abrir novas saídas. Importa é que sempre sejam vislumbradas esperanças no horizonte, sejam quais forem os sofrimentos que se abatam sobre quem quer que seja.

Por José Morelli

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Canalizar a energia

Friccionar as mãos, esfregando-as uma à outra permite perceber como a energia está presente em cada um de nós, nas formas de movimento e de calor. Em conseqüência de friccionar as mãos, estas se aquecem... depois, pouco a pouco o seu calor vai se dissipando, transferindo-se para o ambiente. Nossa vida se manifesta através da energia presente em nosso corpo e em nossa mente. Corpo e mente trocam energia entre si. Para que se mantenha vivo e se desenvolvendo, o ser humano precisa da energia que o meio externo lhe proporciona, através do ar que respira, do alimento com que se nutre. Os órgãos dos cinco sentidos: visão audição, paladar, olfato e tato transmutam energias ao exercerem cada um suas respectivas funções. Pensamentos, sentimentos, emoções e sensações possuem força indutiva. A mente, por sua capacidade, influencia nos rumos dos acontecimentos e na vida das pessoas e da sociedade.

A sensação de dor ou de sofrimento físico ou psíquico é provocada pela forma como a energia é canalizada. A presença da dor ou do sofrimento podem servir como alerta, denunciando que algo não ocorreu da maneira como deveria ter ocorrido.

Os sintomas que se manifestam através do corpo são indicativos dos problemas que o afligem. Através desses sintomas o corpo fala, utilizando-se desse tipo de linguagem que precisa ser bem entendido. Dores, febres, pressão alta, tensão muscular são fluxos de energia mal canalizados. Uma constante observação do próprio corpo permite uma familiaridade entre este e a mente, pela compreensão do que se passa no todo em que nos constituímos.

Acontece, às vezes, de a energia sofrer um bloqueio em alguma parte do corpo. Uma massagem, a aplicação de algum medicamento ajudam a desbloqueá-la, redirecionando-a em seu fluxo normal. Dialogamos com nosso corpo, respondendo com atitudes às mensagens que transmite. A psicoterapia, pelo maior conhecimento que desenvolve nas pessoas, de si mesmas e das influências que recebe de suas interações com o meio, contribui para que esse diálogo se torne mais produtivo, resultando na descoberta de maneiras mais eficazes de canalizar a energia. Trata-se de um caminho muito pessoal. O histórico de cada pessoa é único. O modo como cada uma processa a própria história também é único, o que exige uma dedicação artesanal e com o maior interesse.

Por José Morelli

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Artérias, veias e vasos capilares

Do ponto de vista da fisiologia e da medicina, as artérias, veias e vasos capilares são estudados em grande profundidade. Na medida em que os avanços tecnológicos tornam os instrumentos mais poderosos, os pesquisadores conseguem informações que ajudam em suas descobertas e entendimentos. É através desses condutores que o sangue percorre todo o corpo humano e chega aos pontos mais extremos de cada um de seus membros.

Os conhecimentos dos avanços conquistados pelos cientistas, pouco a pouco, vão sendo passados para o público em geral, através das notícias e de matérias publicadas em revistas. Informações se somam umas às outras. Com isso, os indivíduos ampliam e constroem novas imagens mentais de si mesmos e das diversas partes em que se constituem.

Sobre algumas dessas partes é possível que as pessoas tenham acesso direto, sobre outras não. Indiretamente, porém, é fundamental que todos tenham um conhecimento mínimo que lhes permitam cuidarem-se de si mesmos e da própria saúde.

À semelhança dos rios (de grande e de médio porte), dos ribeirões e riachos, as artérias, veias e vasos capilares irrigam e fertilizam a terra, que no corpo humano é formada por células. Estas pequenas porções vivas se alimentam do oxigênio vindo através da respiração e dos nutrientes trazidos pelos alimentos ingeridos. Respirar bem e comer produtos que não prejudiquem as boas condições das artérias, veias e vasos capilares são procedimentos importantes para manutenção e desenvolvimento da saúde. A compreensão das vantagens que esses procedimentos promovem fundamenta aquelas atitudes que seguem nessa direção. Quem o faz contrariado, não o faz por inteiro, deixando de colher os melhores frutos.

Exercícios físicos ajudam na queima de gorduras que podem se acumular nas vias sangüíneas. Aliados a medicamentos, quando necessários, os exercícios físicos são meios indiretos de as pessoas se ajudarem para que mantenham os rios do corpo despoluídos e aptos a levarem vida desde aos cabelos da cabeça até às unhas das mãos e dos pés.

Por José Morelli

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Contente consigo mesmo

Quem é contente consigo mesmo: o acomodado ou o voluntarioso?... O acomodado é aquele que, sentindo-se satisfeito, não aspira mais do que aquilo que já possui. À semelhança de quem se encontra saciado, é natural que sinta sono e preguiça, necessitando de dar a si e ao próprio estômago o tempo de que precisa para digerir o alimento consumido. O voluntarioso é impulsionado por seus intensos desejos. No que lhe diz respeito, a sabedoria oriental adverte que os desejos, muitas vezes, podem ser a fonte de onde brotam as tristezas e a infelicidade humana. Para se estar contente consigo mesmo é preciso saber lidar com a própria vida em suas múltiplas contingências, administrando-a equilibradamente, a partir da própria perspectiva e da dos outros também.

Faz ainda parte do instintivo de sobrevivência que se pondere na hora de escolher os caminhos a seguir, as metas a serem atingidas, os meios a serem utilizados. No fundo, não deve escapar a todo esse processo a consciência de que tudo tem seu custo e de que cada um paga um preço pelo fato de ser quem é, do jeito que é, de pensar, de sentir, de realizar o que escolhe e se propõe fazer... Animação e desânimo, altos e baixos, fazem parte do curso de qualquer vida, seja qual for o lugar e o tempo em que ela ocorra. 

O contentamento consigo mesmo é o que impulsiona cada um a lançar a bola prá frente, com mais entusiasmo. Dessa base de lançamento, o indivíduo se projeta para fora de si, para além de sua própria individualidade. Na pessoa do outro encontra-se consigo mesmo, tornando-se capaz de reconhecê-lo e estimá-lo.

O existir humano e do mundo é sempre um enigma a ser decifrado. Os acontecimentos se desdobram entrelaçando-se uns nos outros. Nem sempre é possível perceber como se unem esses elos. Há a necessidade de se aprender a conviver com a imprevisibilidade dos fatos.
Sentir-se contente não significa cruzar os braços e nada fazer, permacendo-se como que “deitado em berço esplêndido”. Todo esportista aprende que quanto mais se dedica aos treinamentos, aumentam suas chances de vitória e consequente satisfação. Cada indivíduo pratica sua vida à semelhança de um esportista. No que diz respeito ao contentamento, é preciso aprender a descobri-lo, mesmo que escondido, nAquele que é a razão de ser de tudo o que acontece.

Por José Morelli