segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Os ipês amarelo estão florindo

Apesar do tempo se apresentar assim, tão tumultuado. Com as estações do ano pouco definidas, mais uma vez, antes ainda da chegada oficial da primavera, os ipês, com suas flores de cor amarelo, já podem ser encontradas aqui e ali, embelezando ruas, jardins e quintais. O tom suave que tinge a delicada película dessas flores se destaca em meio ao verde das outras plantas ou aos variados coloridos de muros, paredes e telhados. A floração ainda vai se manter mais algumas semanas. Aqueles que forem atentos e se derem o direito de apreciá-la, deixando-se sensibilizar em suas retinas, suscitar ideias em suas mentes e despertar sensações de prazer ao vê-la, poderão experimentar em si mesmos a natureza em seu processo de contínua transformação.

É sabido que toda cidade grande convive com muita poluição. Com algumas exceções, na maior parte dos bairros de São Paulo, a quantidade de verde está aquém do que é recomendável, para que o ar possa ser melhor purificado, antes de ser inspirado pelos pulmões de humanos e de irracionais. Ainda assim, muitas espécies de pássaros passam pela cidade, nesta fase do ano. Tem havido mesmo um crescimento do número dessas espécies que permanece aqui, acostumando-se com o que a cidade lhes oferece como possibilidade de sobrevivência. Nem tudo está perdido, portanto! A vida é mais forte do que a ante vida!

A respeito dos ipês, diz-se que, quanto mais frio e seco o inverno, maior a intensidade de sua florada. A presença dos ipês floridos e dos pássaros são um sinal de esperança. A natureza é sensível e forte ao mesmo tempo. Os seres humanos também fazem parte dessa mesma natureza. Estes têm se destacado, principalmente nos últimos anos, no sentido de penetrar nos segredos da matéria, descobrindo lhe todo potencial nela oculto. Da exploração de suas descobertas, passaram a ganhar muito dinheiro e a se distanciarem entre si. Perceberam ainda que a concorrência os estimula para mais inventos e novas fontes de renda e de riqueza. Hoje, uns mais outros menos, se encontram como que embriagados com todo esse fascínio. Construíram-se uma roda-viva que, além de fomentar lhes vida, acaba também por triturá-la.

Publicado por José Morelli

 

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

“Diga-me com quem andas, e eu te direi quem tu és!”

 

                                                                                           A sabedoria popular consagrou esse ditado e, embora sejam identificadas honrosas exceções, ele tem como ser comprovado inúmeras vezes. Dentre todos e todas as pessoas a quem essa afirmação se aplica e no sentido positivo é a São José, esposo de Maria e pai adotivo do Menino Jesus.

Os evangelhos falam relativamente pouco a respeito desse personagem, que recebeu de Deus a missão de estar à frente e de responsabilizar-se pela manutenção e segurança de sua pequena-grande família, acompanhando-a em momentos fundamentais de sua trajetória terrena. O adjetivo com o qual o escritor bíblico o qualifica é o de que se tratava de “um homem justo”.

No capítulo primeiro de seu evangelho, Mateus insere a genealogia de José, uma forma de liga-lo à história do povo judeu a começar de Abraão, Isaac e Jacó, passando por Davi e Salomão e chegando ao seu bisavô Eleazar, ao seu avô Matan e a seu pai Jacó, através do qual José veio ao mundo. O evangelista conclui dizendo que, de José, esposo de Maria, nasceu Jesus, chamado o Cristo. Mateus não omitiu que foi da mulher de Urias, Betsabé, que nasceu seu filho Salomão. A apresentação da genealogia de José por Mateus mostra a descendência de José da casa de Davi e, ao mesmo tempo, mostra a inserção de Jesus no povo judeu que, embora predileto no chamado à salvação, não deixava de ser um povo pecador e carente da misericórdia divina.

Na sequência dos fatos, o evangelista Lucas, em seu capítulo primeiro, versículos 26 e 27, narra a passagem em que “o anjo Gabriel foi mandado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José, da casa de Davi. A Virgem se chamava Maria”.

Voltando a Mateus, capítulo primeiro, versículos 19 e 20, o evangelista diz que o esposo de Maria, “sendo um homem justo e não querendo acusa-la, resolveu separar-se ocultamente dela. Ele já havia tomado essa resolução, quando um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de tomar contigo Maria, tua esposa, porque o que foi gerado nela vem do Espírito Santo”.

É interessante notar que, para Maria, o anjo não aparece como em sonho e, no entanto, nas diversas vezes em que ele aparece a José é sempre na forma de sonho.    Talvez, com isso, os escritores bíblicos quisessem assinalar a proximidade de José a todos nós, seres humanos e comuns mortais. José sabia interpretar as vontades de Deus nos acontecimentos corriqueiros de sua vida.

Ainda no capítulo primeiro, versículos 24 e 25, Mateus relata que “José fez como lhe tinha ordenado o anjo do Senhor: tomou consigo sua esposa. Mas ele não teve relações com ela até quando deu à luz um filho a quem deu o nome de Jesus”.

No capítulo segundo, do versículo 4º. ao 7º., falando do recenseamento ordenado pelo imperador Cesar Augusto, o evangelista Mateus diz que: ”Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, para a cidade de Davi, que é chamada Belém, na Judeia – porque era da linhagem de Davi – para se registrar com Maria, sua esposa, que estava grávida. Ora, quando estavam lá, chegou o tempo em que ela devia dar à luz. Ela teve seu filho primogênito, enrolou-o em faixas, e o colocou numa manjedoura, porque não tinham lugar na estalagem”.

No versículo 13 do mesmo capítulo, Mateus explica que “Depois que os magos partiram um anjo apareceu em sonho a José dizendo: “Levanta, toma contigo o menino e sua mãe e foge para o Egito. Permanece lá até eu te avisar, porque Herodes vai procurar o menino para o matar”. José se levantou, tomou consigo o menino e sua mãe, de noite, e retirou-se em direção ao Egito”. Nos versículos 19 a 22, Mateus continua a contar que “Depois da morte de Herodes, eis que um anjo aparece em sonho a José, no Egito. E lhe diz: “Levanta, toma contigo o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque morreram os que haviam tramado contra a vida do menino. Ele se levantou, tomou consigo o menino e sua mãe, e reentrou na terra de Israel. Mas ouviu falar que Arquelau reinava na Judeia, tendo sucedido a seu pai Herodes, e ficou com medo de ir para lá. Avisado por Deus em sonho, retirou-se para a região da Galileia”.

No relato em que Lucas descreve, no versículo 21 do capítulo segundo, a ida de Jesus ao templo para ser circuncidado, os nomes nem de José nem de Maria são mencionados.

A última menção a José, sem citar o seu nome, é feita por Lucas no capítulo segundo, versículo 41 e seguintes: “Todos os anos seus pais iam a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando o menino completou doze anos, subiram, como de costume, para a festa. Depois que passaram os dias da festa, ao voltarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém sem que seus pais o soubessem... Depois de três dias eles o encontraram no templo, sentado no meio dos doutores, escutando-os e fazendo-lhes perguntas. Todos os que o ouviam estavam assombrados com sua sabedoria e suas respostas. Quando o viram, ficaram comovidos e sua mãe lhe disse: “Meu filho, porque agiste assim conosco? Teu pai e eu estávamos aflitos à tua procura!”

Marcos e João nada falam a respeito de José. A narrativa desses dois evangelistas partem do momento em que Jesus, já adulto, inicia sua vida pública levando aos seus conterrâneos e contemporâneos sua mensagem por palavras e ações.

Transparece nos textos de Mateus e de Lucas, acima citados, a personalidade inspiradora de José. Neles não consta frase alguma que tenha saído de sua boca. No entanto, pelas atitudes descritas, ressalta a figura cativante de um homem justo em suas intenções e posicionamentos, seja como esposo ou pai dedicado, seja como cidadão, sintonizado nos acontecimentos que exigiam prontidão nas decisões frente a inúmeros desafios que teve de enfrentar.

Na Carta Apostólica “Patris corde (Com coração de Pai)” - escrita pelo Papa Francisco, já dentro deste período de pandemia em que vive a humanidade, e a partir do entendimento que a comunidade cristã formatou em seu imaginário a respeito deste santo, nos mais de dois mil anos de história da Igreja, o período de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021 foi instituído como ano dedicado a São José. Por meio desta carta, o Papa nos convida a voltarmos nossos pensamentos para este santo, invocado como pai e intercessor dos necessitados, dos exilados e dos moribundos que, em vida, e na convivência diária com sua esposa Maria e seu filho Jesus, soube responder com fidelidade a todos os chamados que Deus lhe fez em vida.

“Diga-me com quem andas, e eu te direi quem tu és!”

Postado por José Morelli

 

Construídos pela Fé

Mais um oito de setembro, mais uma festa de Nossa Senhora da Penha de França e comemoração dos 347 anos de existência do bairro Penhense, excelente oportunidade para relembrarmos antigas histórias, cujos desdobramentos resultaram no que estamos vivendo hoje, na condição de moradores deste lugar, outrora conhecido e reconhecido como aprazível recanto paulistano.

Inspirando-se na iconografia de uma imagem de Nossa Senhora, encontrada no alto de um monte chamado de Penha de França, na região dos Pirineus, província de Salamanca - Espanha, a fé de um desconhecido artesão talhou, na madeira, a imagem de Nossa Senhora que presentemente se encontra no altar principal da Basílica da Penha. A história oral, transmitida de geração para geração, construiu uma espécie de lenda que conta a respeito de um viajante francês. Este trazia em sua bagagem essa imagem, acima referida. Depois de ter subido a encosta da elevação que levava aos Campos de Ururaí (nome antigo do planalto que vai da Penha até São Miguel Paulista), o tal francês resolveu descansar um pouco.  Ali havia água boa para beber e abundante. Restabelecido em suas forças, retomou a viagem. Horas depois, voltou a apear de seu cavalo para tomar um novo fôlego.  Reparou, então, que a imagem não se encontrava junto a seus pertences. Retornando ao lugar de seu último descanso, encontrou-a ali. Mais duas vezes continuou viagem levando a imagem consigo e, mais duas vezes teve que retornar para busca-la no mesmo lugar de antes. Entendeu que uma mensagem Nossa Senhora estava querendo lhe transmitir. Seu desejo era permanecer naquele lugar. Construiu ali uma pequena capela e, só depois de ter satisfeito o desejo manifestado por Nossa Senhora, é que se permitiu continuar viagem.  O documento mais antigo em que consta a existência da capela da Penha, de acordo com o pesquisador e historiador, Dr. Sylvio Bomtempi, é datada de 10 de fevereiro de 1667.

Essa primeira capela ou ermida, passados alguns anos, foi transformada em uma igreja maior. O tempo exigiu que reformas a ampliassem até o ponto em que ela se encontra nos dias de hoje. Localizada no topo da ladeira Coronel Rodovalho, o Santuário Eucarístico de Nossa Senhora da Penha brilha aos olhos de todos os que chegam ao bairro, vindos pela Celso Garcia, principalmente à noite, quando sua bela fachada se encontra especialmente iluminada. A presença desse santuário na Colina da Penha, desde os seus primórdios, atraiu gerações de paulistanos, cuja fé elegeu a Mãe de Jesus, sob o título de Penha de França, como Padroeira da Cidade e de seus habitantes, principalmente em momentos em que sofriam pela ocorrência de graves epidemias ou secas prolongadas.  

A fé de um grupo de escravizados negros, que trabalhavam em propriedades próximas da capela da Penha, fez com que eles instituíssem uma Irmandade: a dos Homens Pretos da Penha de França. Já em 1755 consta a existência desse grupo. Por ele foi projetada e construída a Capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário a poucos passos do Santuário.  No ano de 2002, com a comemoração dos 200 anos de sua aprovação oficial como templo católico, pelo bispo de São Paulo, festas anuais vêm sendo promovidas no mês de junho.

A terceira construção edificada pela força da fé popular, como as duas anteriores, também está localizada no núcleo central e histórico do bairro. Trata-se da Basílica de Nossa Senhora da Penha de França. De vários pontos, o visual desta Basílica chama a atenção daqueles que chegam ou passam por aqui. Como foi dito acima, é nesta igreja que se encontra a imagem, cuja chegada deu origem e nome à Penha.

Antes de se materializarem em construções, esses ícones do presente foram engendrados pela fé de nossos antepassados. A partir deles, histórias ainda podem ser lembradas e repassadas, diferenciais que fazem do Bairro da Penha o lugar que é e que o faz merecedor do apreço de todos os que, com ele, compartilham suas vidas.

Postado por José Morelli

 

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Tráfico humano

Minha avó materna, vira e mexe, costumava lembrar o provérbio, que ela já trazia em sua memória, desde o convívio com seus pais na santa terrinha de além-mar: “onde falta o pão (não só o do alimento material suponho) ninguém tem razão”. Em situações adversas, o instinto de sobrevivência fala tão alto, que o sentido de humanidade pode simplesmente escoar pelo ralo da pia. Os fatos (acontecimentos) se desdobram seja no sentido do positivo como do negativo. Sempre ouvi falar que a corda arrebenta em sua parte mais fraca. Essa é a lógica e não é de se estranhar que, no campo da antropologia e da economia, não aconteça algo parecido.

A chamada globalização compartilha benefícios e malefícios. Há os que têm mais chances de se defender dos revezes e há os que não as têm. O mercado cresce ou diminui de tamanho ao sabor das contingências (incluindo erros e acertos deste ou daquele). Se a crise toma conta das nações mais ricas, imagina o que não pode acontecer com as mais pobres?!... Na história antiga, durante o cerco da cidade de Jerusalém, entre os anos de 66 e 70 da era cristã, a cidade passou por uma fome tão grande, que foram encontrados relatos de mães que comeram seus próprios filhos recém-nascidos. No ano de 1975, um filme da cineasta Lina Wertmüller, conta a estória de um mafioso que, depois de ter matado e esquartejado um homem que havia desonrado uma de suas sete irmãs; passado algum tempo, em consequência das carências provocadas pela guerra, o mesmo passou a agenciar a venda de suas irmãs na prostituição.

Há algumas semanas atrás, Giusi Nicolini, prefeita de Lampedusa (ilha localizada no Sul da Itália e que vem sendo utilizada para o desembarque de refugiados, que fogem de países africanos que se encontram em profunda crise política ou econômica) descreveu o clima na ilha: “Cada novo naufrágio é uma tragédia para nós. Sofremos junto”. Nicolini destaca que a função da guarda costeira não é conduzir uma guerra; mas os traficantes de pessoas estão se tornando cada vez mais agressivos. No entanto, ela aponta como verdadeiro problema a instabilidade nos países dos imigrantes, a qual sempre desencadeia novas ondas de refugiados.

Um olhar mais amplo exige que nossa leitura da realidade alcance o mundo em sua totalidade. Centrar-nos apenas em nosso próprio umbigo seria uma postura extremamente limitada e que abriria espaços para desmandos de toda natureza. Sensibilizar-nos com o nosso próximo (esteja  o mesmo onde estiver) é incluí-lo como igual e merecedor de nossa mesma dignidade e valor: ou todos nós temos valor ou ninguém de nós tem valor.

Postado por José Morelli

 

 

Quando domingo era domingo

O nome continua o mesmo desde a muito e muito tempo. O domingo fecha a sequência dos sete dias que compõem a semana. Ele teria sido instituído pelo próprio Criador, dando-se a Si o direito a um justo descanso, após o árduo trabalho de criação de todo o universo.  Em sua essência, o domingo se constitui como um dia diferente dos outros. Nele se encerra uma sabedoria de vida.

O descanso, no domingo, não seria apenas para os seres humanos. O boi que ajudava na aragem da terra também mereceria seu justo descanso. Da mesma forma, a vaca deixaria de ser ordenhada, ficando seu leite exclusivamente para suas crias: os bezerrinhos e bezerrinhas.  Com esses e outros exemplos, a ideia transmitida era de que o descanso é mesmo fundamental e necessário para tudo (terra, água, ar, natureza) e para todos.

A sustentação física exige dedicação intensa, começando na segunda feira e indo até que chegue o fim da semana. O dinheiro ganho nos dias de semana deve ser suficiente para custear o dia de descanso, da mesma forma como acontece com o dos onze meses do ano que custeia a remuneração do mês destinado às férias. Domingos e férias existem para servirem como derivativos: para arejamento e cultivo do corpo e da alma.

Não têm sido poucas as mudanças sociais ocorridas nestes últimos anos. A sociedade, em seu todo, tem seguido lógicas diferentes daquelas que a norteavam num passado não tão distante. A lei da sobrevivência tem imposto novos sistemas e costumes. A tecnologia, no lugar de servir às pessoas, tem imposto sobre as mesmas sua sedutora e inexorável tirania. E o domingo foi perdendo seu sentido original.

Seja em que dia da semana for, o destinado ao descanso semanal precisa ser diferente dos outros dias, com outros sabores e cheiros e com outros coloridos: uma oportunidade aberta ao cultivo de outras dimensões da realidade em que, de forma abrangente e plena, nos constituímos.  

Postado por José Morelli

 

Quem precisa?... (de tratamento psicológico)

Depois de muitas esperas e de muitas insistências, a moça conseguiu convencer seu companheiro de acompanha-la a um psicólogo. Seu interesse era de que ele recebesse um parecer quanto à sua necessidade de tratamento, aceitando de que fosse ajudado profissionalmente. No dia e horário marcados, os dois se apresentaram no consultório.

Iniciada a sessão, o psicólogo se dirigiu aos dois perguntando o que os trazia ali. O silêncio do moço forçou que a jovem tomasse a iniciativa da resposta. Mesmo com dificuldade, esta passou a contar o que vinha acontecendo no relacionamento dos dois. Disse da situação insuportável em que se encontrava a convivência na intimidade da casa e em lugares públicos. O problema de bebida dele e a violência com que ele a tratava principalmente quando estava alcoolizado. Os prejuízos sofridos pela destruição de seu carro numa dessas suas fúrias. O desprezo que recebia dele perante outras pessoas com maus tratamentos absolutamente inaceitáveis.

O psicólogo ouviu atentamente tudo o que ela disse. Em seguida, voltou-se para o companheiro da moça e perguntou-lhe: “E você, o que diz de tudo isso?” – Tentando demonstrar que estava tranquilo, ele respondeu: “Comigo está tudo bem, está tudo ótimo, não tenho nada a reclamar!”.

A conversa continuou na tentativa de tornar a questão ainda mais bem elucidada. Outras perguntas foram feitas aos dois, sendo que a iniciativa das respostas partia sempre da moça, ansiosa de esclarecer as maneiras como cada um se comportava. Ao final da sessão, o psicólogo manifestou a conclusão a que havia chegado.

Dirigindo-se à jovem, disse-lhe: “A você, pelo descontentamento que demostrou, vai ajudar muito que passe por um tratamento psicológico”. Depois, dirigindo-se ao rapaz, afirmou: “Você não precisa de terapia, uma vez que se encontra satisfeito com a situação!”.

Para que uma ajuda psicológica surta efeito é preciso que o paciente se veja e se sinta na necessidade de melhorar a si mesmo e a própria vida. Sem essa consciência e sem essa vontade firme de receber ajuda e de se ajudar, qualquer tentativa de tratamento não resultará efeito algum.

Postado por José Morelli

Quando me predisponho a ler...

Quando me predisponho a ler, meus olhos se voltam para as palavras escritas, estejam elas onde estiverem. Saio de mim mesmo e me projeto para o que se encontra fora de mim. Dependendo do grau de envolvimento com que me dedico ao que faço, ligo-me às ideias transmitidas por quem as quis conta-las e perenizá-las no tempo e no espaço.

Lucas foi o evangelista que, depois de ter investigado “cuidadosamente desde a origem” a vida de Jesus, resolveu expô-la por escrito, começando com o anúncio do nascimento de João Batista, o precursor do Messias prometido ao povo de Israel. (capítulo primeiro, versículos de 5 a 25).

Utilizando como referência o tempo de gravidez em que se encontrava Isabel, casada com Zacarias, e que já fazia seis meses que trazia João Batista em seu seio, passa a descrever o anúncio de outra gravidez, agora a de uma prima de Isabel, Maria, que se tornaria a mãe de Jesus. Diferentemente do primeiro anúncio em que o Anjo se dirigiu ao pai, Zacarias, neste segundo anúncio, o Anjo se comunicou diretamente com a mãe.

O texto de Lucas descreve, passo a passo, o diálogo entre o Anjo e Maria, explicando-lhe como tudo se daria: “Não tenhas medo, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Hás de conceber no teu seio e dar a luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus... O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra”. Em seguida, o Anjo transmitiu-lhe a notícia da gravidez de Isabel.

Prontamente, “pôs-se Maria a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade de Judá... Ao ouvir Isabel a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?” (versículos de 39 a 43).

Lido com atenção, o texto de Lucas traz o dom de transportar o leitor no tempo e no espaço, um tempo em que viagens só eram feitas à pé ou em lombo de burro e os caminhos, entre as pequenas cidades, não passavam de trilhas abertas sobre montanhas. A leitura envolvente traz a quem lê o passado recontado no presente, reavivando-o em toda densidade expressa literalidade das palavras lidas e dos possíveis significados às mesmas associados.

Postado por José Morelli