quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Duas sílabas

 A primeira é labial. O ar exalado provoca leve estampido com os lábios, produzindo um som que, associado à vogal e, tem a sonoridade: Pe. A segunda sílaba é lingual. A ponta da língua pressiona a parte posterior dos dentes da frente (da arcada inferior) e, em seguida, fazendo um pequeno volteio, faz produzir o som: nha. Esses dois sons unidos formam a palavra: Penha. Ao ser ouvida, o cérebro instantaneamente a registra. Referências passam a ser associadas a essa palavra: pedra, penhasco, colina, lugar alto, bairro da zona leste de São Paulo, morro e escadaria da igreja da Penha no Rio de Janeiro, Nossa Senhora da Penha padroeira do Estado do Espírito Santo, Nossa Senhora, popularmente reconhecida como guardiã e protetora da Cidade e dos habitantes de São Paulo. 

Tudo se origina do menor para o maior, do antes para o depois. As palavras, as coisas, as pessoas, os grandes mamíferos, as grandes árvores, as planícies, as montanhas, os rios, os continentes e os oceanos dependem para existirem de suas mínimas partes. Por mais que as vendas no atacado possam ter maior expressividade financeira, o varejinho, mesmo que pouco lucrativo, é fundamental. A vida humana exige pequenos cuidados para que possa se desenvolver. A higiene bucal é imprescindível para que os dentes se mantenham sadios e duradouros. O mesmo se pode dizer do banho e da limpeza das roupas a serem utilizadas no dia a dia. Discursos que revolucionaram os rumos da história foram feitos de palavras que se subdividiam em sílabas e letras.   

A vida presente é conectada com o que foi passado. De um chefe indígena americano é recordado o ensinamento de que, para se desenvolver com sabedoria, ao jovem é preciso que lhe sejam dadas asas e raízes. O presente exige que seja audacioso e criativo à semelhança das aves em seus altos vôos. Da mesma forma, o presente exige que não dispense a força que lhe vem das raízes, do passado do qual proveio e ao qual nunca deixa de estar ligado. A história ligada a cada bem ou patrimônio histórico pode ser desfiada como a lã que se desenrola de um novelo, podendo ser lida e relida momento a momento.  

Neste sábado, das 09h30 às 13h00, no Centro Cultural Penha, acontecerá um Seminário com o objetivo de discutir os patrimônios históricos da Zona Leste da Cidade de São Paulo. Estarão presentes membros dos órgãos de preservação da prefeitura, do governo do Estado e do governo federal. Será uma oportunidade desses representantes ouvirem e de serem ouvidos pela sociedade civil no que tange ao assunto.

Postado por José Morelli

Cigarro

Inúmeros são os possíveis sentidos simbólicos que podem ser associados ao cigarro: uns entendidos como positivos (construtivos ou associativos); outros como negativos (destrutivos ou dissociativos) Um desses sentidos, de conotação dúbia, é o de consumo. Enquanto o fumo se queima e é consumido, a fumaça produzida pela combustão é sugada e conduzida aos pulmões de quem o fuma. Depois de ingerida, a fumaça é lançada para fora esvaindo-se no espaço. O cigarro é percebido pelo fumante como diminuindo gradativamente de tamanho até se reduzir ao mínimo possível de continuar a ser levado à sua boca. No sistema econômico vigente, só consome quem tem cacife para tanto. Por isso, cigarro é, também, associado à idéia de poder, de ter dinheiro, de decidir o que quer e o que não quer, de ser dono das próprias vontades e decisões.

Paralelo a esse sentido, o cigarro ainda pode ser associado à condição adulta de autonomia e liberdade. Por indução das propagandas, cigarro é um produto que goza de aceitação junto a pessoas de todos os níveis, desde as mais sofisticadas até as de hábitos mais simples. No entanto, a propaganda prefere associar ao cigarro carros de luxo, roupas finas ou chiques porém descontraídas, homens charmosos e mulheres deslumbrantes. Estas são as imagens mais utilizadas para seduzir as massas no sentido de levá-las à dependência e ao vício. Prazer, satisfação, auto-afirmação, elegância, exibicionismo, charme, sedução, conquista, alívio de tensão, compensação, inserção no grupo, companheirismo, rebeldia social ou familiar, drible à solidão, descontração, estas e outras são idéias que podem passar pela cabeça de qualquer pessoa.

Na outra ponta, do sentido negativo, o pensamento humano pode associar ao fumar idéias de destrutividade, tais como: poluição ambiental, sujeira, veneno, morte prematura, falta de força de vontade, desconforto, prejuízo ao meio ambiente, falta de amor à saúde e à vida, mau hálito, autodestruição, câncer, suicídio, desprezo por si e pela vida em geral, vício insuperável, dependência química ou emocional, coragem, prepotência, desafio às normas estabelecidas e de bom comportamento,

Embora a listagem seja incompleta, os sentidos simbólicos negativos ou positivos, citados acima, são uma pequena amostra das idéias que podem vir à cabeça de fumantes e não fumantes. O intuito da abordagem deste tema é o de contribuir com aqueles que quiserem pesquisar os próprios motivos que os levaram a aderir ao cigarro ou a rejeitá-lo de tê-lo como companheiro de “infortúnio”?! 

Postado por José Morelli

“Bobeou, dançou...!”

Fatos são fatos, indiscutivelmente. Contra eles, dizem, não há argumentos. O problema se encontra nos comentários que são feitos a respeito desses mesmos fatos, as interpretações, as conclusões que são tiradas a partir deles. A realidade é sempre muito abrangente, compreendendo tanto os fatos em si mesmos como suas repercuções em todas as direções e sentidos.

A crise dos bancos norte-americanos vem ocupando grandes espaços na mídia. No entanto, em meio a toda esta confusão, não se pode esquecer de que a vida é Viva. O mundo tem mesmo suas necessidades, por conta de sua contingência material (quantificada). O que é bom em curto prazo pode não sê-lo em médio ou longo prazo. Os negócios sempre sofrem oscilações em suas importâncias. Dependendo dessas oscilações, os investimentos nas bolsas de valores ou em qualquer outro ativo se deslocam de uns para outros. E vai entender todos os meandros da economia, movida por um capital (grana) capaz de voar mais rápido do que a luz do Sol? De qualquer forma, os quadros que se apresentam embutem aspectos da realidade em que o mundo está vivendo neste seu momento histórico.

Há quem espere a casa pegar fogo para tomar alguma providência e há quem se antecipe a esse desastre, adotando as medidas preventivas necessárias para que este seja evitado. Parece que não foi o que fizeram as autoridades responsáveis. E o efeito dominó da crise está aí. Uma mobilização geral dos G.4, G8, G20. Toda essa crise teria sido causada pelos gastos com as guerras do Iraque e outras (armas e soldados)? Ou teria sido por conta do estímulo ao consumo desenfreado e a compulsividade de muitos que se endividaram aproveitando-se de empréstimos lastreados em hipotecas de imóveis supervalorizados?

Daqui do lugar que estamos, em quem acreditar? Quando se ouve falar muito de alguma coisa, será que ela é mesmo tão importante como tentam fazer que pareça?  O imediatismo nem sempre é bom conselheiro. A insegurança é presa fácil do medo? Pode-se entrar de “gaiato” numa história que não se tem muito a ver?

Não esquecer que a vida é viva. Acreditar em si é fundamental. Acreditar no outro também é imprescindível. A informação completa dos acontecimentos e de seus entendimentos instrumentaliza a todos para construção de seus melhores juízos. Interesses escusos levam a boicotes nas informações. Todos correm o risco de serem ludibriados pelos medos que rondam indivíduos e sociedades. Por isso, o recomendável é “não bobear”; pois, quem assim o fizer, “dança mesmo e bonito”!  As lições existem para que todos delas aprendam!

Postado por José Morelli

 

Memória auditiva

Como é bom ter ouvidos sadios, capazes de experimentar sons e ruídos!... E pensar que, para muitas pessoas, o mundo é absolutamente silencioso. Outro dia, a televisão mostrou o trabalho maravilhoso (inédito) de algumas fonoaudiólogas brasileiras, ensinando surdos-mudos a falar, através de exercícios na piscina. O som, produzido na água, é mais bem captado pelos deficientes auditivos. Fica difícil imaginar, para quem nunca teve esse problema, como é viver sem audição.

Tivemos e temos a sorte de ouvir. Desde antes de nos conhecermos por gente, já ouvíamos e registrávamos os diferentes tipos de sons e de ruídos, aprendendo a diferenciá-los. Desenvolvemos a capacidade de retê-los em nossa memória, associando-os a momentos e a

lugares. Um som pode transportar-nos no tempo e no espaço. O barulho de uma cachoeira, o canto dos pássaros, fazem-nos recordar passeios que fizemos.

Algumas pessoas têm mais facilidade de memorizar através daquilo que vêm outras daquilo que tocam com as mãos, outras daquilo que sentem o cheiro ou saboreiam o gosto. E há aquelas que memorizam mais facilmente o que ouvem. Sons e ruídos ficam guardados na memória anos e anos. E, ao ouvi-los novamente, trazem de volta o passado, com uma série de outras recordações. Assim, temos a chance de rever e, quem sabe, refazer um ou outro “filme” de nossa vida. Elaboramos e reelaboramos fatos de nossa história.

Aqui em São Paulo, convivemos com muito barulho. À noite, parte desse barulho diminui. Em momentos de insônia, nossos ouvidos vão se distraindo com os sons da noite. São os galos que cantam, dialogando uns com os outros, confirmando a hora certa dos relógios, São os carros que passam na rua. O barulho do vento ou da chuva. O latido de algum cachorro ou o miado e algazarra de gatos. Enquanto os ouvidos se distraem, a imaginação viaja e fantasia

A audição do mundo externo permite-nos desenvolver a percepção de nós mesmos e do ambiente que nos envolve. Entramos em contato com a natureza. Sensibilizamo-nos com ela. Estabelecemos novos laços de ligação com ela, harmonizando-nos conosco mesmos e com a realidade externa. Nossos ouvidos nos ajudam a aprimorar-nos em nosso ser pessoal.

Postado por José Morelli

 

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Sorrir

O sorriso é uma expressão facial que envolve principalmente a boca e os olhos. Existem vários tipos de sorrisos. Numa propaganda, veiculada na televisão faz algum tempo, foram mostrados exemplos de sorrisos, lembra-se?... Sorrir é uma manifestação do sentimento. Do íntimo, a alegria e felicidade, como uma resposta, perfaz seu caminho, tendendo a se desabrochar num sorriso. O sorriso é comunicação/interação. Acompanhado ou não de palavras, ele é capaz de dizer muitas coisas. Quando uma pessoa sorri, com sinceridade e espontaneidade, a pureza do seu sentimento é mostrada com poder, contagiando o outro a corresponder sorrindo também.

Falso ou verdadeiro. Quem pode julgar um sorriso?... A experiência mostra que existem sorrisos falsos. A ninguém é permitido a ingenuidade de negá-los. Através das histórias infantis, as crianças já tomam conhecimento das dimensões boas e más da realidade, descobrindo como os seres humanos são capazes de falsear os sentimentos, quando querem conseguir seus intentos a qualquer preço.

Mesmo sendo verdade que existem sorrisos falsos, não vale a pena ter medo de sorrir e de acolher os sorrisos dos outros. Acontece de pessoas criarem esse medo. Numa visita que fiz a uma antiga colônia de férias da Febem, em São Vicente, chamou-me a atenção a impossibilidade ou a incapacidade das crianças que ali estavam de sorrir. Existem adultos amargos, que não conseguem sorrir nunca. A expressão que mostram no rosto indica o clima extremamente melancólico que trazem no coração e na mente.

É próprio do homem sorrir. Uma característica de sua condição racional. O sorriso supõe entendimento. Sorrir é aceitar e aceitar-se. A dimensão física do sorriso, pelo envolvimento do rosto, essa parte tão proeminente do corpo, implica na aceitação das boas ou más condições em que este se encontra, seja ele conservado ou não, bonito ou feio, com boa dentição ou não. O sorriso de um bebê, mesmo antes de ter dentinhos, é cativante.

O sorriso é sinal de um bom estado emocional. Ele, ao mesmo tempo em que manifesta esse bom estado, contribui também para que a saúde se desenvolva ainda mais. Dar uma atenção ao próprio sorriso, cuidando para que ele se aprimore em suas manifestações, é uma verdadeira terapia. 

Postado por José Morelli

Coração

 O coração possui grande importância como centro do aparelho circulatório, lugar de onde o sangue é bombeado a toras as partes do corpo, através das grandes artérias, das veias e dos capilares.

É importante, também, pelo sentido que conquistou em nossas cabeças, pelas ideias e fantasias que formamos dele. O coração, na maneira popular de dizer, é sede do amor, das paixões, do ódio, da indignação e da dor, provocada pela decepção.

O coração é um símbolo, O seu lugar, no peito um pouco à esquerda, é simbólico. Encostar a cabeça no peito, na altura do coração, pode ser entendido como o apoio da razão sobre as emoções: a harmonia entre estas duas fontes de energia, que comandam a orientação de nossas vidas.

A saúde do coração, assim como a doença, influencia na saúde e na doença do corpo inteiro. Saúde e doença de duas ordens: orgânica e funcional ou psicológica (conceitual) e emocional. Estas duas ordens não se excluem. Muitos pensam que a saúde e a doença nunca são só puramente física ou puramente psicológica. Uma certa dose de ambas sempre está presente, quer na doença do todo do corpo ou de qualquer de uma de suas partes.

As necessidades do coração são, da mesma forma, de duas ordens: fisicamente, é preciso que o coração tenha o indispensável para funcionar bem (todas as suas partes estejam perfeitas, a química do organismo o revigore constantemente, o sangue serja daquela densidade adequada. Na ordem dos pensamentos e das emoções, o coração precisa ter satisfeita suas necessidades. Essas necessidades têm a ver com aquele equilíbrio entre o sacrificar-se e a justa compensação, entre a afirmação e próprio valor e a afirmação do valor dos outros. Consequentemente, tudo isto permite a possibilidade de trocas constantes, num jogo cujo desfecho pode contribuir para a saúde o prejudica-la.

Postado por José Morelli

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Quadro clínico

 Temos a noção do que é um “quadro”. Nossa imaginação logo o constrói, toda vez que ouvimos falar, em nossa língua, a palavra que o representa. É da natureza do quadro, mostrar-se. A expressão “quadro clínico”, portanto, é apropriada para dizer de como se encontra, num dado momento, o doente. A palavra “clínico”, que tem origem grega, significa: inclinado/ deitado, alguém que não está bem de saúde e necessita de uma atenção médica especial.

Os quadros convencionais não se movimentam. Apresentam-se estáticos, parados. Aquilo que é, por eles, mostrado hoje, continuará a sê-lo amanhã, no próximo mês, daqui a um ano. Já o quadro clínico de um doente evolui: é dinâmico, vivo, movimenta-se podendo progredir ou regredir, melhorar ou piorar. Neste ponto, a comparação com o quadro não é perfeita. As imagens em movimento, que hoje existem em grande quantidade, poderiam expressar melhor esta particularidade dos quadros clínicos.

Uma foto. O quadro clínico é como uma foto. Para poder acompanhar a evolução do estado do doente, é preciso fotografa-lo de tempo em tempo. Pela comparação das primeiras imagens com as mais recentes, é possível medir a direção e a rapidez com que a doença se retrai ou evolui. Não é possível acompanhar tudo. Procura-se, então, observar os aspectos mais relevantes e representativos em cada caso.

Na psicologia, quantificar é mais complicado. A vida mental e emocional possui maneiras e maneiras de se manifestar. Os testes são bons instrumentos de medição. Com eles, podemos alertar-nos sobre aspectos básicos de um problema. É preciso ter muita abertura na hora de interpretar os resultados. Nada é absoluto. A mente e os sentimentos podem ser extremamente velozes em suas mudanças. A lógica do ser ou não ser nem sempre se aplica. Na subjetividade de cada indivíduo as contradições, que podem ser comparadas a nós, nunca deixam de estar presentes.

Nós, desses difíceis de serem desmanchados, nunca faltam em qualquer quadro clínico de problemas psicológicos. Identificá-los é uma tarefa que exige esforço e coragem. Quanto a desatá-los, é um desafio para a vontade firme de quem deseja libertar-se. O estímulo é saber que libertar-se é renascer, é passar de um estágio da vida para outro, é perder para poder ganhar algo novo, um processo que nunca é desacompanhado de algumas dores. Dores que servem como fertilizantes para a produção de novas alegrias de viver com mais qualidade.

Postado por \José Morelli