segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Para pensar e sentir

 Uma realidade próxima de cada um de nós é o corpo em que nos constituímos. Com ele, espírito forma uma unidade indissociável. Sentir a integração entre mente e corpo, numa harmonia possível, corresponde à realidade da vida humana terrena. Os significados que atribuímos ao nosso corpo, pelo que ele é para nós, no seu todo e em suas partes, devem ser positivos, colocando-nos para cima, energizando-nos e animando-nos.

O sentido de “eu”: (meu/nosso) é atribuído a cada membro de nosso corpo. Olhemos para nossas mãos, sintamos como nelas nos encontramos e nos reconhecemos. Concentremo-nos tranquilamente, com o nosso pensamento, e procuremos perceber a sintonia que elas possuem com o nosso ser total: corporal e mental. Como devem ser nossos pensamentos e sentimentos para que associem nossas mãos a ideias positivas e não só estranhas aos nossos entendimentos.

De nossas mãos, passemos a atentar para outras partes que constituem nosso corpo: braços; pernas; barriga; peito/pulmões/coração; pés; ombros; cabeça; costas; pescoço; boca/olhos/nariz/orelhas; genitais; etc...

Quanto mais coragem tivermos para reconhecer-nos em nossas consonâncias e dissonâncias entre nosso “eu” e as formas e funcionamentos de cada uma de nossas partes, melhor será a integração conosco mesmo. É o “eu” que estabelece o sentido da união entre as partes e o todo. Somos esse conjunto existencial. As ações de todas e de cada de nossas partes são atribuíveis ao nosso “eu” inteiro. É através de nosso corpo que nos relacionamos com os corpos e almas dos outros.

É pela consciência que nos dimensionamos na integridade de nosso ser corporal e espiritual. Possuímo-nos, integramo-nos em nossa identidade/personalidade, permitindo-nos assim que estabeleçamos trocas, dando-nos de nós mesmos aos outros e recebendo dos outros aquilo que deles ou delas podemos agregar em nós - sem nos confundir-nos. Distinguindo-nos pelo que efetivamente somos e temos e pelo que os outros, efetivamente têm e são.

Postado por José Morelli 

"Para quem vier!"

 As pessoas costumam dizer que “a festa é para quem vier!”- No caso presente, não se tratava exatamente de uma festa, mas sim de uma palestra realizada no último domingo, dia 17 de setembro, às 15h00, como fora divulgado através deste jornal: “Palestra sobre AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) - a ser proferida pelo Dr. Marcelo Serpieri, doutor em medicina pela USP.

O palestrante mostrou com clareza que, até o momento, a maneira mais eficaz de combater a AIDS é a informação. Por isso, sua palestra consistiu de informações e explicações de todos aqueles dados que, desde 1982, vinham sendo coletados pelos cientistas e pesquisadores do mundo todo.

Embora se tratasse de um assunto complexo, a exposição foi feita de maneira acessível para que, tanto os adultos como os adolescentes e jovens presentes, pudessem acompanhar e entender.

Saber e reconhecer onde e como se encontram os perigos de contaminação e como evita-los ou contorna-los gera segurança. A ignorância, o medo e a insegurança não ajudam. Os números estatísticos mostram que a AIDS é um flagelo deste nosso tempo, assim como outros, que assolaram o mundo em épocas passadas: a febre amarela; a varíola; a gripe espanhola.

Resumidamente, a palestra permitiu aos participantes conhecerem melhor sobre: a natureza da doença; o vírus transmissor – o HIV ; os grupos de risco; os testes para diagnóstico; as fases de evolução da doença; o tempo para manifestação da síndrome; as infecções oportunistas; os riscos de contágio; os meios de preveni-los.

Houve oportunidade para perguntas. Através destas, o tema ficou mais adaptado aos participantes. Aspectos do interesse deles surgiram e puderam ser discutidos e aprofundados. Sem desconhecer o caráter realístico duro do assunto, a opinião geral foi de terem gostado da forma como se deu a palestra. Foi um ato de coragem olhar e encarar o tema, que tanta influência traz para os relacionamentos interpessoais.

O surgimento da AIDS não deve impedir os relacionamentos íntimos entre as pessoas, fazendo com que passem a ser vistos como ameaças de morte iminente. Os valores positivos e construtivos – a “festa” de as pessoas se proporcionarem prazer, sem culpa, deve prevalecer  em nossos pensamentos e sentimentos.  (Ano de 1986).

Postado por José Morelli

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Nossa Senhora da Penha de França: expressividade da Fé

 Diferentemente das localidades em que se encontram igrejas de Nossa Senhora da Penha, seja no Rio de Janeiro seja na cidade de Vitória, no Espírito Santo, cujas topografias se caracterizam como cumes de montanhas, a da cidade de São Paulo se encontra a meia encosta da colina, como costumava dizer o eminente historiador penhense, de saudosa memória, Dr. Sylvio Bomtempi. A fim de deixar um registro, de próprio punho, sobre a Penha dos primeiros anos do século passado, o Padre António Benedito de Camargo, vigário da paróquia por longos 55 anos, consignou no Livro do Tombo, em 25 de agosto de 1905, o seguinte:

“edificada sobre um alto, num descampado inteiramente plano, onde sopram todos os ventos, que fazem trazer a população isente de moléstias. É esta procurada continuamente por convalescentes, espécie de sanatório onde têm eles saído sãos, robustos, cheios de vida. É raro, por isso, aparecer entre os habitantes daqui moléstias de caráter grave”.

Dada a posição em que se encontrava e se encontra o Santuário Eucarístico de Nossa Senhora da Penha, voltado para o centro da cidade,  o arcebispo de São Paulo, à época, Dom Duarte Leopoldo e Silva, insistia junto aos padres redentoristas de que o lugar onde seria construído o novo santuário (hoje basílica) deveria permitir que o mesmo fosse visível à cidade e que, deste, a cidade pudesse ser vista e protegida pelo olhar atento de Nossa Senhora. 

Para melhor aquilatar o tipo de experiência dos que vinham para as antigas festas da Penha, vale recordar a descrição da festa em 1918, contada no romance “Menino Felipe – Primeira Viagem”, de Afonso Schmidt:

“Os trens partiam superlotados da Estação Norte. Pela estrada de rodagem da Penha, formavam-se cortejos de carroças cobertas de ramos verdes, enfeitadas de bandeirolas de papel de seda. Quando chegavam à subida do santuário, os romeiros deixavam os veículos à porta das vendas (próximo à passagem do Aricanduva), botavam um feixe de capim diante dos burros e galgavam a ladeira, à pé, conduzindo grossas velas de cera... A estação encontrava-se a meio quilometro de distância, num corte praticado na colina, à chegada de cada trem, era uma algazarra. Roceiros vendiam canas, batata doce assada, cuias de garapa e tigelinhas de quentão. Depois, os grupos se punham a caminho da igreja. Ouviam-se queixas de violão, risadas finas de bandolins. Os romeiros caminhavam devagar, colhendo flores dos arbustos que pendiam dos barrancos. Havia gente que parava para contar caso. Ou para tirar o calçado, que lhe espremia os pés. Quando chegamos ao largo da igreja foi um deslumbramento”...

 Tais experiências, relacionadas aos lugares altos, aparecem inúmeras vezes tanto no Antigo como no Novo Testamento da Bíblia de maneira sempre muito significativa. Já no primeiro livro, capítulo 8º do Gênesis, referindo-se à história de Noé e de sua arca, o autor sagrado escreve o seguinte:

“E no sétimo mês, no décimo sétimo dia do mês, a arca pousou sobre as montanhas de Ararat. As águas continuaram a baixar até o décimo mês e, no primeiro dia do décimo mês apareceram os cumes dos montes”. (Gen. 8:4-5)

Nesse mesmo livro encontra-se o relato sobre a Torre de Babel, no qual conta que Javé confundiu as línguas dos que a construíam, a fim de não chegarem a concretizar o ambicioso intento. Em resposta, Javé desce e aplica um castigo àquele povo, a fim de que este entendesse que não deveria fechar-se em si mesmo; mas manter-se aberto a outros povos:

 “Vamos construir uma torre cujo cimo atinja os céus! Tornemo-nos famosos e não nos dispersemos pela terra toda... (em resposta, Javé diz) Eia, pois! Desçamos lá mesmo e confundamos-lhes a língua, para que ninguém mais compreenda a fala do outro!“ (Gen. 11: 4 e 7). Babel significa confusão.

Outra passagem atribuída ao patriarca Abraão, mostra como Deus jogou duro com ele. Tendo-lhe prometido que teria uma descendência maior do que as areias do mar, pede-lhe que ofereça em sacrifício seu filho único. Com o intuito de prova-lo, Deus o chama:

“Abraão! Abraão!”. “Eis-me aqui, respondeu-lhe. E Deus continuou: “Toma teu filho, teu único filho, que tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá e lá oferecê-lo-ás em holocausto sobre um dos montes que te indicarei” (Gen. 22:1-2)

Abraão fez tudo como lhe foi pedido; porém, quando estendeu a mão e pegou a faca para sacrificar o filho, o Anjo do Senhor lhe apareceu e disse:

“Não levantes tua mão contra o menino e não faças mal algum! Agora sei que verdadeiramente temes a Deus, pois não me recusaste teu filho, teu filho único” (Gen. 22: 12)

No livro do Êxodo, Moisés vive a experiência de encontro com Deus desta vez no alto do monte Horeb:

“Moisés apascentava as ovelhas de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Tendo conduzido o rebanho para o outro lado do deserto, chegou à montanha de Deus, o Horeb... Então, no meio da sarça, Deus o chamou: “Moisés! Moisés!” E ele respondeu:  “Aqui estou!” Não te aproximes daqui. Tira as tuas sandálias, porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Êxodo 3: 4e5).

Foi ainda nesse mesmo lugar que Deus revelou a Moisés qual o seu nome:

“Mas se eles perguntarem o seu nome? Que é que vou responder-lhes?”. Deus disse a Moisés: “Eu Sou Aquele que Sou” (Javé).  (Êxodo 3:13-14)

Em outro momento, no monte Sinai, Deus entregou a Moisés as duas tábuas da lei, na qual haviam sido gravados os dez mandamentos:

“Moisés subiu para ir ter com Deus. Do alto da montanha, Javé o chamou dizendo: “Assim falarás à casa de Jacó: ... E agora se ouvirdes com atenção a minha voz, e observardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade exclusiva, escolhida dentre todos os povos; pois toda a terra é minha. E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” (Êxodo 19: 3-4e5).

Tendo sido informada, pelo Anjo, que sua prima Isabel se encontrava no sexto mês de gravidez, Maria apressou-se para ir ao seu encontro. O evangelista São Lucas assim escreve:

“Maria se dirigiu a toda pressa para a região montanhosa, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seio dela e ficou cheia do Espírito Santo. Então, exclamou em voz alta: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu seio! De onde me vem a felicidade de que a mãe do meu Senhor venha me visitar?”  (Lucas 1: 39 a 43).

No sentido de preparar seus discípulos, para os acontecimentos que iriam se abater sobre Jesus, sua paixão e morte de cruz, Ele transfigurou-se diante deles no alto do monte Tabor. Assim descreve o evangelista Mateus como isto aconteceu:

“Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou a um lugar à parte sobre um alto monte. Transfigurou-se diante deles: seu rosto brilhava como o sol e sua roupa tornou-se branca como a luz. Então lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com ele. Pedro interveio, dizendo a Jesus: “Senhor, como é bom estarmos aqui! Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Ainda falava, quando uma nuvem luminosa os envolveu, enquanto dela saía uma voz que dizia: “Este é meu Filho bem amado no qual encontro toda minha satisfação. Ouvi-o”. (Mateus 17: 1-5)

Da mesma forma como Moisés recebeu, no monte Sinai, as tábuas da lei gravadas com os dez mandamentos, Jesus também sobe a um monte, para dali promulgar as bem-aventuranças, que se constituem como aprimoramento da lei mosaica:

“Jesus subiu ao monte. Quando sentou, seus discípulos chegaram para perto dele. Tomou a palavra e ensinava-os assim: “Felizes os pobres em espírito, porque a eles pertence o reino dos céus. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos e humildes, porque herdarão a terra da promessa. Felizes os famintos e sedentos da justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque serão tratados com misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os promotores da paz. Porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque a eles pertence o reino dos céus...” (Mateus 5:1-11).

Condenado à morte de cruz, Jesus levou-a sobre os ombros até o monte Calvário. Do alto de sua cruz, Ele nos deixou como herança Maria, sua própria Mãe:

“Perto da cruz de Jesus, estavam sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. E Jesus, vendo sua mãe e perto dela o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis aí teu filho!” Em seguida, disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe!” E desde aquela hora o discípulo a recebeu aos seus cuidados”. (João 19: 25-27).

De maneira semelhante à experiência de fé, vivenciada pelos romeiros que subiam a ladeira da Penha, rumo ao antigo santuário, caminhando “devagar, colhendo flores dos arbustos que pendiam dos barrancos”, como foi descrito acima no livro de Afonso Schmidt; nos dias atuais, também, experiência parecida pode ser vivenciada pelos componentes dos grupos que vêm participar das visitas monitoradas à Penha. Ao subirem as escadas que levam ao alto da torre da Basílica, outros tipos de flores podem ir colhendo dos arbustos, até chegarem ao amplo terraço, localizado no mesmo andar onde se encontram os cinco sinos que compõem o carrilhão. Desse lugar visualizam a cidade se descortinando, no horizonte: “um deslumbramento”.

Postado por José Morelli

 

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Os ipês amarelo estão florindo

Apesar do tempo se apresentar assim, tão tumultuado. Com as estações do ano pouco definidas, mais uma vez, antes ainda da chegada oficial da primavera, os ipês, com suas flores de cor amarelo, já podem ser encontradas aqui e ali, embelezando ruas, jardins e quintais. O tom suave que tinge a delicada película dessas flores se destaca em meio ao verde das outras plantas ou aos variados coloridos de muros, paredes e telhados. A floração ainda vai se manter mais algumas semanas. Aqueles que forem atentos e se derem o direito de apreciá-la, deixando-se sensibilizar em suas retinas, suscitar ideias em suas mentes e despertar sensações de prazer ao vê-la, poderão experimentar em si mesmos a natureza em seu processo de contínua transformação.

É sabido que toda cidade grande convive com muita poluição. Com algumas exceções, na maior parte dos bairros de São Paulo, a quantidade de verde está aquém do que é recomendável, para que o ar possa ser melhor purificado, antes de ser inspirado pelos pulmões de humanos e de irracionais. Ainda assim, muitas espécies de pássaros passam pela cidade, nesta fase do ano. Tem havido mesmo um crescimento do número dessas espécies que permanece aqui, acostumando-se com o que a cidade lhes oferece como possibilidade de sobrevivência. Nem tudo está perdido, portanto! A vida é mais forte do que a ante vida!

A respeito dos ipês, diz-se que, quanto mais frio e seco o inverno, maior a intensidade de sua florada. A presença dos ipês floridos e dos pássaros são um sinal de esperança. A natureza é sensível e forte ao mesmo tempo. Os seres humanos também fazem parte dessa mesma natureza. Estes têm se destacado, principalmente nos últimos anos, no sentido de penetrar nos segredos da matéria, descobrindo lhe todo potencial nela oculto. Da exploração de suas descobertas, passaram a ganhar muito dinheiro e a se distanciarem entre si. Perceberam ainda que a concorrência os estimula para mais inventos e novas fontes de renda e de riqueza. Hoje, uns mais outros menos, se encontram como que embriagados com todo esse fascínio. Construíram-se uma roda-viva que, além de fomentar lhes vida, acaba também por triturá-la.

Publicado por José Morelli

 

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

“Diga-me com quem andas, e eu te direi quem tu és!”

 

                                                                                           A sabedoria popular consagrou esse ditado e, embora sejam identificadas honrosas exceções, ele tem como ser comprovado inúmeras vezes. Dentre todos e todas as pessoas a quem essa afirmação se aplica e no sentido positivo é a São José, esposo de Maria e pai adotivo do Menino Jesus.

Os evangelhos falam relativamente pouco a respeito desse personagem, que recebeu de Deus a missão de estar à frente e de responsabilizar-se pela manutenção e segurança de sua pequena-grande família, acompanhando-a em momentos fundamentais de sua trajetória terrena. O adjetivo com o qual o escritor bíblico o qualifica é o de que se tratava de “um homem justo”.

No capítulo primeiro de seu evangelho, Mateus insere a genealogia de José, uma forma de liga-lo à história do povo judeu a começar de Abraão, Isaac e Jacó, passando por Davi e Salomão e chegando ao seu bisavô Eleazar, ao seu avô Matan e a seu pai Jacó, através do qual José veio ao mundo. O evangelista conclui dizendo que, de José, esposo de Maria, nasceu Jesus, chamado o Cristo. Mateus não omitiu que foi da mulher de Urias, Betsabé, que nasceu seu filho Salomão. A apresentação da genealogia de José por Mateus mostra a descendência de José da casa de Davi e, ao mesmo tempo, mostra a inserção de Jesus no povo judeu que, embora predileto no chamado à salvação, não deixava de ser um povo pecador e carente da misericórdia divina.

Na sequência dos fatos, o evangelista Lucas, em seu capítulo primeiro, versículos 26 e 27, narra a passagem em que “o anjo Gabriel foi mandado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José, da casa de Davi. A Virgem se chamava Maria”.

Voltando a Mateus, capítulo primeiro, versículos 19 e 20, o evangelista diz que o esposo de Maria, “sendo um homem justo e não querendo acusa-la, resolveu separar-se ocultamente dela. Ele já havia tomado essa resolução, quando um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de tomar contigo Maria, tua esposa, porque o que foi gerado nela vem do Espírito Santo”.

É interessante notar que, para Maria, o anjo não aparece como em sonho e, no entanto, nas diversas vezes em que ele aparece a José é sempre na forma de sonho.    Talvez, com isso, os escritores bíblicos quisessem assinalar a proximidade de José a todos nós, seres humanos e comuns mortais. José sabia interpretar as vontades de Deus nos acontecimentos corriqueiros de sua vida.

Ainda no capítulo primeiro, versículos 24 e 25, Mateus relata que “José fez como lhe tinha ordenado o anjo do Senhor: tomou consigo sua esposa. Mas ele não teve relações com ela até quando deu à luz um filho a quem deu o nome de Jesus”.

No capítulo segundo, do versículo 4º. ao 7º., falando do recenseamento ordenado pelo imperador Cesar Augusto, o evangelista Mateus diz que: ”Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, para a cidade de Davi, que é chamada Belém, na Judeia – porque era da linhagem de Davi – para se registrar com Maria, sua esposa, que estava grávida. Ora, quando estavam lá, chegou o tempo em que ela devia dar à luz. Ela teve seu filho primogênito, enrolou-o em faixas, e o colocou numa manjedoura, porque não tinham lugar na estalagem”.

No versículo 13 do mesmo capítulo, Mateus explica que “Depois que os magos partiram um anjo apareceu em sonho a José dizendo: “Levanta, toma contigo o menino e sua mãe e foge para o Egito. Permanece lá até eu te avisar, porque Herodes vai procurar o menino para o matar”. José se levantou, tomou consigo o menino e sua mãe, de noite, e retirou-se em direção ao Egito”. Nos versículos 19 a 22, Mateus continua a contar que “Depois da morte de Herodes, eis que um anjo aparece em sonho a José, no Egito. E lhe diz: “Levanta, toma contigo o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque morreram os que haviam tramado contra a vida do menino. Ele se levantou, tomou consigo o menino e sua mãe, e reentrou na terra de Israel. Mas ouviu falar que Arquelau reinava na Judeia, tendo sucedido a seu pai Herodes, e ficou com medo de ir para lá. Avisado por Deus em sonho, retirou-se para a região da Galileia”.

No relato em que Lucas descreve, no versículo 21 do capítulo segundo, a ida de Jesus ao templo para ser circuncidado, os nomes nem de José nem de Maria são mencionados.

A última menção a José, sem citar o seu nome, é feita por Lucas no capítulo segundo, versículo 41 e seguintes: “Todos os anos seus pais iam a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando o menino completou doze anos, subiram, como de costume, para a festa. Depois que passaram os dias da festa, ao voltarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém sem que seus pais o soubessem... Depois de três dias eles o encontraram no templo, sentado no meio dos doutores, escutando-os e fazendo-lhes perguntas. Todos os que o ouviam estavam assombrados com sua sabedoria e suas respostas. Quando o viram, ficaram comovidos e sua mãe lhe disse: “Meu filho, porque agiste assim conosco? Teu pai e eu estávamos aflitos à tua procura!”

Marcos e João nada falam a respeito de José. A narrativa desses dois evangelistas partem do momento em que Jesus, já adulto, inicia sua vida pública levando aos seus conterrâneos e contemporâneos sua mensagem por palavras e ações.

Transparece nos textos de Mateus e de Lucas, acima citados, a personalidade inspiradora de José. Neles não consta frase alguma que tenha saído de sua boca. No entanto, pelas atitudes descritas, ressalta a figura cativante de um homem justo em suas intenções e posicionamentos, seja como esposo ou pai dedicado, seja como cidadão, sintonizado nos acontecimentos que exigiam prontidão nas decisões frente a inúmeros desafios que teve de enfrentar.

Na Carta Apostólica “Patris corde (Com coração de Pai)” - escrita pelo Papa Francisco, já dentro deste período de pandemia em que vive a humanidade, e a partir do entendimento que a comunidade cristã formatou em seu imaginário a respeito deste santo, nos mais de dois mil anos de história da Igreja, o período de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021 foi instituído como ano dedicado a São José. Por meio desta carta, o Papa nos convida a voltarmos nossos pensamentos para este santo, invocado como pai e intercessor dos necessitados, dos exilados e dos moribundos que, em vida, e na convivência diária com sua esposa Maria e seu filho Jesus, soube responder com fidelidade a todos os chamados que Deus lhe fez em vida.

“Diga-me com quem andas, e eu te direi quem tu és!”

Postado por José Morelli

 

Construídos pela Fé

Mais um oito de setembro, mais uma festa de Nossa Senhora da Penha de França e comemoração dos 347 anos de existência do bairro Penhense, excelente oportunidade para relembrarmos antigas histórias, cujos desdobramentos resultaram no que estamos vivendo hoje, na condição de moradores deste lugar, outrora conhecido e reconhecido como aprazível recanto paulistano.

Inspirando-se na iconografia de uma imagem de Nossa Senhora, encontrada no alto de um monte chamado de Penha de França, na região dos Pirineus, província de Salamanca - Espanha, a fé de um desconhecido artesão talhou, na madeira, a imagem de Nossa Senhora que presentemente se encontra no altar principal da Basílica da Penha. A história oral, transmitida de geração para geração, construiu uma espécie de lenda que conta a respeito de um viajante francês. Este trazia em sua bagagem essa imagem, acima referida. Depois de ter subido a encosta da elevação que levava aos Campos de Ururaí (nome antigo do planalto que vai da Penha até São Miguel Paulista), o tal francês resolveu descansar um pouco.  Ali havia água boa para beber e abundante. Restabelecido em suas forças, retomou a viagem. Horas depois, voltou a apear de seu cavalo para tomar um novo fôlego.  Reparou, então, que a imagem não se encontrava junto a seus pertences. Retornando ao lugar de seu último descanso, encontrou-a ali. Mais duas vezes continuou viagem levando a imagem consigo e, mais duas vezes teve que retornar para busca-la no mesmo lugar de antes. Entendeu que uma mensagem Nossa Senhora estava querendo lhe transmitir. Seu desejo era permanecer naquele lugar. Construiu ali uma pequena capela e, só depois de ter satisfeito o desejo manifestado por Nossa Senhora, é que se permitiu continuar viagem.  O documento mais antigo em que consta a existência da capela da Penha, de acordo com o pesquisador e historiador, Dr. Sylvio Bomtempi, é datada de 10 de fevereiro de 1667.

Essa primeira capela ou ermida, passados alguns anos, foi transformada em uma igreja maior. O tempo exigiu que reformas a ampliassem até o ponto em que ela se encontra nos dias de hoje. Localizada no topo da ladeira Coronel Rodovalho, o Santuário Eucarístico de Nossa Senhora da Penha brilha aos olhos de todos os que chegam ao bairro, vindos pela Celso Garcia, principalmente à noite, quando sua bela fachada se encontra especialmente iluminada. A presença desse santuário na Colina da Penha, desde os seus primórdios, atraiu gerações de paulistanos, cuja fé elegeu a Mãe de Jesus, sob o título de Penha de França, como Padroeira da Cidade e de seus habitantes, principalmente em momentos em que sofriam pela ocorrência de graves epidemias ou secas prolongadas.  

A fé de um grupo de escravizados negros, que trabalhavam em propriedades próximas da capela da Penha, fez com que eles instituíssem uma Irmandade: a dos Homens Pretos da Penha de França. Já em 1755 consta a existência desse grupo. Por ele foi projetada e construída a Capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário a poucos passos do Santuário.  No ano de 2002, com a comemoração dos 200 anos de sua aprovação oficial como templo católico, pelo bispo de São Paulo, festas anuais vêm sendo promovidas no mês de junho.

A terceira construção edificada pela força da fé popular, como as duas anteriores, também está localizada no núcleo central e histórico do bairro. Trata-se da Basílica de Nossa Senhora da Penha de França. De vários pontos, o visual desta Basílica chama a atenção daqueles que chegam ou passam por aqui. Como foi dito acima, é nesta igreja que se encontra a imagem, cuja chegada deu origem e nome à Penha.

Antes de se materializarem em construções, esses ícones do presente foram engendrados pela fé de nossos antepassados. A partir deles, histórias ainda podem ser lembradas e repassadas, diferenciais que fazem do Bairro da Penha o lugar que é e que o faz merecedor do apreço de todos os que, com ele, compartilham suas vidas.

Postado por José Morelli

 

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Tráfico humano

Minha avó materna, vira e mexe, costumava lembrar o provérbio, que ela já trazia em sua memória, desde o convívio com seus pais na santa terrinha de além-mar: “onde falta o pão (não só o do alimento material suponho) ninguém tem razão”. Em situações adversas, o instinto de sobrevivência fala tão alto, que o sentido de humanidade pode simplesmente escoar pelo ralo da pia. Os fatos (acontecimentos) se desdobram seja no sentido do positivo como do negativo. Sempre ouvi falar que a corda arrebenta em sua parte mais fraca. Essa é a lógica e não é de se estranhar que, no campo da antropologia e da economia, não aconteça algo parecido.

A chamada globalização compartilha benefícios e malefícios. Há os que têm mais chances de se defender dos revezes e há os que não as têm. O mercado cresce ou diminui de tamanho ao sabor das contingências (incluindo erros e acertos deste ou daquele). Se a crise toma conta das nações mais ricas, imagina o que não pode acontecer com as mais pobres?!... Na história antiga, durante o cerco da cidade de Jerusalém, entre os anos de 66 e 70 da era cristã, a cidade passou por uma fome tão grande, que foram encontrados relatos de mães que comeram seus próprios filhos recém-nascidos. No ano de 1975, um filme da cineasta Lina Wertmüller, conta a estória de um mafioso que, depois de ter matado e esquartejado um homem que havia desonrado uma de suas sete irmãs; passado algum tempo, em consequência das carências provocadas pela guerra, o mesmo passou a agenciar a venda de suas irmãs na prostituição.

Há algumas semanas atrás, Giusi Nicolini, prefeita de Lampedusa (ilha localizada no Sul da Itália e que vem sendo utilizada para o desembarque de refugiados, que fogem de países africanos que se encontram em profunda crise política ou econômica) descreveu o clima na ilha: “Cada novo naufrágio é uma tragédia para nós. Sofremos junto”. Nicolini destaca que a função da guarda costeira não é conduzir uma guerra; mas os traficantes de pessoas estão se tornando cada vez mais agressivos. No entanto, ela aponta como verdadeiro problema a instabilidade nos países dos imigrantes, a qual sempre desencadeia novas ondas de refugiados.

Um olhar mais amplo exige que nossa leitura da realidade alcance o mundo em sua totalidade. Centrar-nos apenas em nosso próprio umbigo seria uma postura extremamente limitada e que abriria espaços para desmandos de toda natureza. Sensibilizar-nos com o nosso próximo (esteja  o mesmo onde estiver) é incluí-lo como igual e merecedor de nossa mesma dignidade e valor: ou todos nós temos valor ou ninguém de nós tem valor.

Postado por José Morelli