domingo, 29 de março de 2020

Direita & Esquerda

Não é a primeira vez que utilizo o & (e comercial) para conectar palavras em títulos de matérias publicadas por mim nesta coluna. Com isso, quero chamar a atenção para o aspecto associativo dessas palavras, da interdependência existente entre elas.

Quanto à esquerda e à direita, só é possível identificar o sentido dessas palavras relacionando-as uma à outra em suas respectivas posições. A consciência e a subconsciência dos indivíduos e da sociedade construíram seus entendimentos a respeito do direito e do esquerdo, através de experiências vivenciadas no dia a dia. Ao observarem-se a si mesmos quando se utilizavam dos instrumentos do trabalho ou da escrita, perceberam que uma das mãos tinha mais facilidade de manejá-los, enquanto a outra demonstrava mais dificuldade. À primeira foi chamada de mão direita e a segunda de mão esquerda. Destros são aqueles que têm mais facilidade de se utilizar da mão direita e sinistros são aqueles que têm mais facilidade de se utilizar da mão esquerda. Essa mesma facilidade e essa mesma dificuldade podem ser percebidas com relação ao funcionamento das pernas e dos pés.

É curioso que, de acordo com os neurologistas, o lado direito do corpo humano é comandado pelo lado esquerdo do cérebro, enquanto que o lado esquerdo do corpo é comandado pelo lado oposto do cérebro. A facilidade de um é a dificuldade do outro e vice-versa. Ambos têm funções associadas e complementares.

Nos momentos de as pessoas fazerem uso de argumentos no sentido de defenderem seus pontos de vista, estas se utilizam das palavras que possam melhor definir o que pensam. Essas palavras se fecham e si mesmas. Uma única palavra pode dar a sensação de que a discussão foi vencida e, logo o eu do vencedor se sobrepõe ao daquele que se colocara na posição oposta.

Direita & Esquerda dizem respeito a um todo. Só um todo pode ser dividido em partes. O antagonismo entre as partes pode até ajudar no desenvolvimento de cada uma delas. As palavras em si são inocentes (inócuas), não passando de ajuntamentos de letras e de sílabas. São indiferentes quanto ao bem e ao mal que por meio delas podem ser produzidos.

Indivíduos e sociedade usam e abusam das palavras. Calam a boca uns dos outros. Importa, no entanto, não se ater apenas às partes: direita, do centro ou da esquerda. Bom mesmo é aprender a ter um olhar mais amplo que contemple o todo e suas partes, extensivamente e em suas profundidades.    

Postado por José Morelli

segunda-feira, 9 de março de 2020

Ousar

"Atrever-se", "ter coragem para" são os significados que o dicionário traz para o verbo “ousar”. “Ousadia” é o substantivo. Atrevimento, coragem, temeridade, audácia, galhardia são substantivos com sentido assemelhado à palavra “Ousadia”. Dos bandeirantes que adentravam o território brasileiro, expandindo suas fronteiras, pode-se dizer que foram homens ousados. O mesmo se pode afirmar de Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Chico Mendes, Ayrton Senna. Aqui e em outros lugares, no curso de toda a história, homens e mulheres, por suas atitudes e pensamentos, demonstraram possuir essa mesma característica em suas personalidades.

Toda ousadia exige dois componentes para que possa emergir: a ocasião ou a oportunidade que a vida oferece e a força pessoal de quem não se deixa por menos. Ousar, também, merece dupla conotação: no sentido positivo e no sentido negativo. Maníacos estupradores podem ser entendidos como ousados no que é negativo e não no que é positivo. A norma ética cabe em toda parte e a ousadia não poderia fazer exceção a essa regra.

É num contexto capitalista que se estabelecem as relações entre as pessoas, especialmente neste nosso momento histórico. Não é de hoje que o Brasil vem buscando um lugar de respeito junto às outras nações do mundo. Todos os brasileiros participam da situação maior que envolve o país. A situação adversa é um estímulo para a busca e surgimento de novas formas de interação. O todo é formado de cada uma de suas partes. Quanto mais o espírito de ousadia positiva conseguir permear o coração das pessoas, mais a nação brasileira terá a ganhar dentro e fora de suas fronteiras.

Falo da ousadia que inclui valores humanos e éticos. Um traficante de drogas pode parecer extremamente ousado; porém, a direção para onde se oriente toda essa sua energia mais serve à desconstrução da vida do que à construção. Importa avaliar sempre a orientação para onde se canaliza toda força pessoal e coletiva, se no sentido de uma evolução ou de uma involução/retrocesso.

O ser humano pode eleger seus caminhos com relativa autonomia. É um bem o direito à liberdade. No uso desse seu direito, todo cidadão tem seu espaço para ousar na vida. Aprender a conviver com a ousadia daqueles que buscam se diferenciar para avançar é uma necessidade para todos. Desse aprendizado os indivíduos ganham e a sociedade, em seu todo, também ganha, material e humanamente falando.

Postado por José Morelli

segunda-feira, 2 de março de 2020

Orgasmo

À semelhança de outras espécies animais e até mesmo vegetais, nossa espécie humana traz, em sua constituição física, a capacidade de se reproduzir, perpetuando-se no tempo e no espaço. A ocorrência do orgasmo marca o momento em que a energia vital se solta, percorrendo o corpo de ponta a ponta, provocando um ápice de excitação e de prazer.

O orgasmo pode ser conseguido na individualidade e no compartilhamento, seja em relações heterossexuais, seja em relações homossexuais. A excitação aumenta gradativamente na medida em que há estimulação. A descarga energética provocadora da sensação de orgasmo pode representar o desfecho de uma etapa do processo global de reprodução humana.

Nem toda relação sexual chega a essa sensação prazerosa de satisfação física. Por alguma razão ocorrem bloqueios proibitivos que a impedem de acontecer. Os seres humanos não funcionam apenas fisicamente. A mente, com todos os seus segredos, interfere no processo sexual, agregando mais elementos que determinam as formas de como este se desdobra.

A consciência de quem é e de como é de cada indivíduo pode se constituir como uma faca de dois gumes: se, por um lado, essa consciência pode reforçar a consecução de um envolvimento pleno e prazeroso; pode também representar bloqueios ao ato, dificultando sua plena realização.

A rápida queda da sensação de prazer, que acontece logo após à descarga orgástica, faz a mente voltar ao sentido da realidade, expondo-se a mil sensações díspares. Mesmo com a possibilidade de se utilizar dos meios de contracepção hoje disponíveis, ainda não se é possível separar a sexualidade de sua ligação com a explosão da vida, que é o surgimento de um novo ser na terra. Daí que, por mais que o sexo possa preencher tantas necessidades humanas, ainda assim, ele não pode ser tratado sem um sentido profundo de responsabilidade, devendo ser administrado com o devido carinho e cuidado.

Postado por José Morelli

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O leão e o ratinho

Tendo como personagens principais o leão e o ratinho, podemos imaginar muitas histórias. Se o fizermos, não seremos os primeiros a fazê-lo, sem dúvida. Por suas características marcantes, o leão e o ratinho já foram protagonistas de inúmeras histórias. Comparados entre si, suas diferenças saltam aos olhos: o leão, grande e forte; o ratinho, pequeno e fraco.

Essas diferenças, longe de impedirem o desenvolvimento das histórias, podem torná-las ainda mais interessantes e emocionantes. Não é tão difícil descobrir algumas vantagens que o ratinho leva, utilizando-se justamente de seu pequeno tamanho e menor força. Por ser assim, ele é mais ágil e capaz de entrar em buracos que lhe possam servir como abrigo e que são impossíveis de o leão passar e, menos ainda, entrar para capturá-lo.

Nossa história poderá ter desfecho rápido. Poderemos, no entanto, enriquecê-la com o desenrolar de ações surpreendentes. Além de ater-nos somente àquelas características mais próprias dos irracionais, podemos emprestar-lhes nossa racionalidade e emotividade. Os bichos passam a pensar e a arquitetar planos, a sentir medos e raivas. Projetamos neles atributos humanos. Assim eles passam a representar-nos e servir-nos como termos de comparação. Através destas histórias, conseguimos traduzir momentos nossos, vivências nossas.

Se não estivermos dispostos a imaginar história alguma, poderemos, pelo menos, observar nossa própria história de vida e aquelas que acontecem com as outras pessoas, à nossa volta. Veremos como essas histórias de leão e de ratinho se reproduzem não só no mundo irracional, mas também entre os seres inteligentes, grandes e pequenos, fortes e fracos, saudáveis e doentes, ricos e pobres. Essas mesmas histórias podem nos permitir que nos vejamos e nos entendamos melhor. Permite-nos, também, entender a dinâmica dos relacionamentos entre grupos sociais e entre nações, sejam elas grandes ou pequenas, pobres ou ricas, desenvolvidas ou subdesenvolvidas. Cada uma delas por suas possibilidades de explorar as características que lhe são próprias, utilizando-as sabiamente para defesa e preservação da vida, que é o bem mais precioso que cada uma possui.  

Postado por José Morelli

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Dr. Sylvio Bomtempi

De acordo com informações fornecidas por sua irmã, Nair, o Dr. Sylvio nasceu em oito de abril de 1.929, no bairro da Penha em São Paulo. Seus primeiros estudos fez na Escola Barão de Ramalho. O ginásio cursou-o no Colégio do Carmo dos Irmãos Maristas, situado no centro da cidade. Já o científico, como era chamado o curso médio na época, realizou-o no Colégio Anglo-Latino. Graduou-se em direito, pela Universidade de São Paulo, na Faculdade do Largo São Francisco, turma de formandos do ano de 1954, comemorativo do 4º. Centenário da Cidade de São Paulo. Exerceu a advocacia em escritórios na Rua Benjamin Constant (centro) e no bairro da Penha.

Além das valiosíssimas contribuições profissionais no campo da advocacia e do magistério, o Dr. Sylvio dedicou-se, com verdadeira paixão, à pesquisa histórica de São Paulo, especialmente dos bairros da Penha de França e de São Miguel Paulista. Em 1969 teve publicado seu livro: “O Bairro da Penha” editado pelo Departamento de Educação e Cultura da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo. No ano seguinte – 1970 - conquistou o primeiro lugar no II Concurso Municipal de História dos Bairros de São Paulo, com a publicação do livro: “O bairro de São Miguel Paulista”. No ano de 2000, em comemoração do V Centenário do Brasil e do 440º. Ano de São Miguel Paulista, a UNICSUL - Universidade Cruzeiro do Sul promoveu a edição do livro “Origens Históricas de São Miguel Paulista”. No ano seguinte (2001)- a mesma UNICSUL patrocinou a publicação de uma nova edição do livro sobre a Penha, intitulado “Penha Histórica”. Tendo sido membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o Dr. Sylvio colaborou ainda com um grande número de publicações de matérias históricas em periódicos do bairro e de outros veículos de comunicação da região e da cidade.

Um dos legados, deixado pelo Dr. Sylvio, foi o de sua relevante participação na Comissão que, na década de 80, lutou pela não derrubada da Antiga Matriz da Penha, uma vez que sua demolição já havia sido decidida pelos poderes públicos e pelas autoridades eclesiásticas da época.  Graças à tenacidade de valorosos cidadãos e cidadãs penhenses e paulistanos, a Penha pode hoje ainda contar com a presença do Santuário Eucarístico de Nossa Senhora da Penha e da importante pastoral que através dele é realizada.

Outro importante legado do Dr. Sylvio é a epígrafe, por ele redigida, inscrita na lápide de mármore que se encontra fixada na entrada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Esta epígrafe resume o sentido histórico da Igreja, construída pela Antiga Irmandade dos Homens Pretos da Penha de França, cuja ereção se deu em 16 de junho de 1802. Desde 2002, todos os anos, a Comunidade do Rosário vem realizando eventos religiosos e culturais com o objetivo de dar visibilidade ao patrimônio histórico, bem como promover a devoção a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito.

Dr. Sylvio faleceu no dia 26 de junho de 2017. Que ele descanse em paz, na companhia de Deus Nosso Senhor e de Nossa Senhora da Penha!

Postado por José Morelli

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Psicologia profilática

“É melhor prevenir do que remediar”, assim diz a sabedoria do povo. A profilaxia é a prevenção das doenças, o cuidado com a saúde para que ela se mantenha e se desenvolva. A psicologia profilática atenta para todos aqueles fatores que condicionam a vida das pessoas, influindo, positiva ou negativamente, na qualidade de seus estados mentais e emocionais.

Na psicoterapia individual ou em grupo (com um número relativamente pequeno de membros) é possível trabalhar num sentido profilático. Na interação terapeuta/paciente, busca-se detectar, avaliar e controlar, o quanto possível, esses fatores para que não impeçam ou dificultem a expansão da saúde e do bem-estar paciente. Nessa dimensão menor, o trabalho pode atender às pessoas na subjetividade de cada uma delas. Nem tudo faz mal a todos da mesma maneira, assim como nem tudo faz bem a todos da mesma maneira. Na verdade, cada um é cada um e as reações provocadas por um mesmo fator podem ser diferentes de indivíduo para indivíduo.

Na dimensão maior da sociedade, é possível também detectar certos fatores que impedem ou dificultam o desenvolvimento da saúde psicológica, nos indivíduos e nos grupos. A psicologia, associada a outras ciências humanas, tem condições de contribuir, tanto para a correta definição destes como para a identificação das maneiras de intervir no meio social, a fim de eliminá-los (se possível) ou controla-los.

A miséria e a fome, a presença e o aumento de doenças endêmicas, a falta do mínimo básico de instrução, o tratamento injusto e o não reconhecimento da dignidade pessoal, a manipulação da informação tendo em vista o interesse de minorias privilegiadas, são fatores que quebram a espinha dorsal das personalidades humanas. Esses fatores fazem mal à saúde da sociedade como um todo.

A necessidade de crescimento econômico e acerto nas contas governamentais não justificam o sacrifício imediato imposto às grandes massas de trabalhadores, desempregados e aposentados (e respectivas famílias). A meu ver, o atual momento nacional não passa pelo teste de qualidade de uma acurada avaliação psicológico-profilática.

Postado por José Morelli

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

“Bad boy”

Não são poucos os que apostam nas vantagens de se projetar numa imagem de “Bad boy" - "Garoto mau"! O mercado cria aos montes símbolos desse mundo tenebroso por meio de figuras reproduzidas em camisetas, revistas, brinquedos e mesmo tatuagens impressas na pele humana. O consumo valida todos esses investimentos a ponto de virar moda que se impõe às mentes, expostas aos mais variados ventos dos interesses mercadológicos.

Em tempos passados, a divisão entre bem e mal parecia ser levada mais a sério. Deus e o demônio eram vistos e reconhecidos neles mesmos. Nem por brincadeira se mencionava os seus nomes e menos ainda se fazia deles reproduções em desenhos irreverentes. Só se aceitava que a eles se referissem quando alguma razão forte o justificasse. Hoje, o bem e o mal parecem terem sido banalizados pela maioria das pessoas. Já não se respeita nem um nem outro. Muitos se permitem brincar com eles livremente, sem medo de castigos.

A sociedade se deseja ver e se entender leiga, desvinculada de crenças religiosas. Vê-se entregue às forças naturais apenas. Vê-se e entende-se realista, objetiva, científica. Os bons princípios da razão prática não conseguem motivar as escolhas do bem em detrimento do mal. A sociedade paga um preço altíssimo por conta disso.

A evolução do pensamento se dá em espiral. Na medida em que se avança na conquista de novos conhecimentos, diminuem-se as distâncias entre os extremos. O Bem e o mal vão sendo desmistificados. O entendimento de que o bem pode ser vivido e, necessariamente, não precisa ser visto como risco de ser mal entendido, desvirtuando a imagem de quem o pratica, confundindo-o como indivíduo ingênuo, fraco ou bobo. É importante que indivíduos e sociedade evoluam no sentido desse entendimento.

Apresentar-se como “bad boy” não passa de uma maneira de se esconder, de se defender atrás de uma máscara. Por meio desta, o indivíduo julga-se protegido. No entanto, trata-se de uma proteção que fatalmente implica em perdas irreparáveis. O investimento no mal cria círculos viciosos destrutivos, enquanto que o investimento no bem é capaz de criar círculos construtivos, nos quais o bem se desdobra, revertendo-se em bens maiores e mais consistentes.

Postado por José Morelli