quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Encaixes & desencaixes

O uso do & (e comercial) no título acima tem sua razão de ser. A finalidade dele não é apenas de conectar duas palavras, mas de associá-las entre si. Os encaixes servem de base aos desencaixes assim como os desencaixes servem de base (ponto de partida) aos encaixes.  

Podemos nos encaixar ou nos desencaixar de nós mesmos (de nossos desejos, de nossos projetos de vida, de nossas necessidades) e podemos também nos encaixar ou nos desencaixar daqueles ou daquilo que nos cerca, que se encontra à nossa volta.

O bom entrosamento dos jogadores da seleção brasileira ou de qualquer outro time de futebol resulta em acertos que podem se converter em gols e em vitórias. Encaixes ao serem passadas as bolas aos companheiros, desencaixes ao serem criadas jogadas inovadoras e que desarmam os esquemas táticos do adversário.   A falta de entrosamento pode servir como estímulo aversivo (que incomoda) e instigar a uma mudança na forma de se movimentar em campo. Cabe, principalmente ao técnico que observa o jogo a partir de fora, apontar os desencaixes que impedem o time de se entrosar nas jogadas. 

A harmonia externa depende da harmonia interna. Só se pode dar aquilo que se tem e não aquilo que não se tem. A vontade de colaborar com os companheiros (espírito de equipe) é o fundamento indispensável para que o time funcione como um bom relógio. Os olhos do jogador se voltam para o campo inteiro no interesse de perceber como passar a bola a quem se encontra melhor posicionado.

Racionalmente, temos a capacidade de atribuir significados às coisas. Interpretamos a nós mesmos e ao mundo ao nosso redor. Damos mais valor a algumas coisas e menos a outras. Fundamentados nessas valorizações, damos preferência àquilo que nos parece mais importante em detrimento daquilo que nos parece com menor significância. Uma energia mental é mobilizada direcionando-nos mais para uma direção do que para outra.

Emocionalmente, motivações que a humana razão desconhece também concorrem no conjunto de forças que nos impulsionam em nossas ações.  Medos ocultos, associações estabelecidas em acontecimentos do passado e que ainda permanecem como marcas que a vida não conseguiu apagar também influenciam no sentido de ajudar-nos ou de atrapalhar-nos naquilo que nos propomos fazer.

Quanto melhor nos conhecer-nos, mais bem equipados estaremos na tarefa de encaixar-nos & desencaixar-nos nas demandas de nosso dia a dia.

Postado por José Morelli

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Mãe-gente

Se depender apenas do filho(a), mãe é só mãe. Assim, este (a) a conheceu e se acostumou a vê-la e entende-la desde o nascimento. No entanto, antes de ter se tornado mãe, ela já se constituía como gente: gente-filha; gente-mulher; gente-irmã; gente-amiga/colega; gente-profissional; gente-cidadã. Primeiro veio a condição de gente, depois a de mãe, com suas seguranças e inseguranças, suas forças e suas fraquezas, como a todo e qualquer ser humano normal.

O papel de mãe se desenvolve a partir da vivência concreta. Assim como os braços adquirem habilidade e força através dos movimentos e do trabalho, assim também as expectativas da nova mamãe podem transformá-la em MÃE apenas ou em mãe-gente, mantendo-a em seus demais papéis, com os direitos e obrigações inerentes a cada um deles.

“Ninguém pode dar o que não tem”, assim adverte a sabedoria popular. A mãe que se assegura a si própria o direito de ser gente, pode transmitir ao filho (a) essa sua maneira de ser e de agir. É provável que o este (a), assimilando para si essa liberdade, consiga aceitar, com mais naturalidade, que sua mãe também a tenha e a coloque em prática.

O desenvolvimento da mãe-gente, em seus múltiplos papéis, pode também ser comparado com os galhos de uma árvore. Estes não são todos iguais no comprimento e na espessura. Assim, dependendo do exercício constante em cada papel, estes se desenvolvem em maior ou menor proporção, de acordo com os empenhos dispendidos no exercício dos mesmos.

O desenvolvimento da mãe-gente não acontece sem conflitos. As solicitações vêm de todos os lados. São muitas as demandas e cobranças. As ideias claras quanto ao que quer, aliadas a uma força interior e objetividade, quanto às condições e limites pessoais, ajudam para o equilíbrio no crescimento em cada uma das diversas frentes de atuação.

Para quem vive a experiência de ser filho (a), contribui avaliar os próprios conceitos sobre sua mãe, os sentimentos e sensações que depreendem dos relacionamentos com ela. Que direitos lhe são concedidos?... Que obrigações dela são esperadas?... Quais são as expectativas justas que dela são possíveis: de uma supermãe ou de uma mãe-gente?!...

Postado por José Morelli 

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Jogo: "Dentro-fora"

Existe um jogo, uma atividade, talvez o leitor/a já o tenha visto ou mesmo participado dele. Chama-se “Dentro-fora”. Para se jogar, é feito um círculo no chão com giz. É escolhido, em rodízio, um dirigente, que dá as ordens. Os outros participantes saltam para dentro ou para fora do círculo, de acordo com as ordens do dirigente. Na medida em que o tempo passa, as ordens podem ser dadas de forma mais rápida e, quanto maior a rapidez e modificações nas sequências das ordens, mais difícil será acertarem. Quem erra sai da roda e quem fica por último é o vencedor.

Trata-se de um jogo evidentemente, uma boa atividade para aquecimento do grupo. Como todo jogo, este também tem suas aproximações com a vida do cotidiano; uma vez que permite a apreensão de sensações que podem ajudar na percepção de aspectos importantes relacionados à personalidade de cada um, de suas maneiras próprias de interagir com os outros, com as coisas e com as situações emergentes.

Neste jogo são várias pessoas que participam, interagindo umas com as outras e com o espaço físico e temporal. Cada uma com o seu próprio ritmo e suas características individuais, o que possibilita competitividade. Decorre daí o afloramento de sentimentos de insatisfação/frustração, quando se perde e de satisfação/euforia quando se ganha.

Aqueles que mais se envolvem com o jogo têm maior chance de acertar, discriminando a ordem e realizando-a imediatamente. Os que estiverem menos envolvidos, dispersos ou inibidos, terão menor chance de se manterem no jogo até o seu final.

Se o dirigente usa uma mesma sequência para dar as ordens e, de repente, rompe essa sequência, é comum que um número maior de pessoas erre. Se o dirigente apressa o ritmo em que dá as ordens, isso cria maior dificuldade para distinguirem o sentido delas e dos espaços, dentro ou fora, que elas representam.

No dia a dia, nem sempre é tão fácil discriminar o que é “nosso” – de dentro – do que é “dos outros” – de fora. Ainda mais quando se considera que esses sentimentos são bastante fluidos, variando de situação para situação. Às vezes o que é “nosso” é aquilo que sentimos como mais íntimo, não incluindo mais ninguém além de nós mesmos. Outras vezes, “nosso” – de dentro – é a família, as pessoas de casa, da escola, da igreja. Outras vezes, ainda, é toda a torcida do time de nossa preferência, os brasileiros quando joga a seleção ou a nação inteira como quando esta participou, em esmagadora maioria, na campanha pelas “Diretas já”.

A sensação que temos, quando não conseguimos discriminar o que é “nosso” do que é ”dos outros”, o que está dentro do que está fora é uma sensação de confusão e de insegurança, muito desconfortável. Nesses momentos é preciso um mínimo de calma e de atenção e, pouco a pouco, ir recolocando coisa a coisa em seu devido lugar. Assim a sensação vai se transformando, devolvendo aos indivíduos o sentido da estabilidade e de segurança pessoal e de segurança coletiva.  

Postado por José Morelli

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Exercício com os olhos

Desde os tempos do colégio, aprendi este exercício e constantemente o pratico. A sala onde eram ministradas as aulas de física possuía uma infinidade de instrumentos, que permitiam a mestre e a alunos realizarem muitas experiências que se tornaram inesquecíveis. O professor era o padre Augusto Cherubini e foi ele que, numa das aulas, ensinou e recomendou aos alunos que o fizessem sempre que pudessem. Dele veio este legado, esta herança, pois naquele mesmo ano ele veio a falecer. Assim como o recebi “de graça” quero, da mesma forma, transmiti-lo a todos os leitores e leitoras deste blog.

O exercício consiste no seguinte: Procure um lugar tranquilo, em que possa ficar bem acomodado e onde a luz não seja muito intensa. Feche os olhos lentamente. Em seguida, movimente várias vezes as pupilas na horizontal, de um extremo ao outro, da direita para a esquerda, voltando sua  atenção aos movimentos que está fazendo. Depois, movimente os olhos na vertical, para cima e para baixo, várias vezes também. O terceiro movimento é na transversal: de cima, à direita, para baixo, à esquerda, indo e voltando tantas vezes como nas anteriores. O quarto movimento é também na transversal, agora ao contrário, de cima, à esquerda, para baixo, à direita. Para completar o exercício, gire as pupilas no sentido dos ponteiros do relógio e, por último gire no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio. O exercício inteiro pode durar de três a cinco minutos.

A musculatura dos olhos se beneficia com este exercício. Fica mais fortalecida, mais ágil, ampliando seu alcance de visão e capacidade. O treino de levar aos pontos extremos as pupilas torna-as mais aptas a verem o mundo em toda sua extensão, tanto no sentido físico como no psicológico. A coordenação dos movimentos ajuda a tranquilizar o sistema nervoso. Estas são algumas das vantagens, que tenho experimentado ao fazer este exercício e a razão de recomendá-lo aos outros de que o pratiquem sempre que os próprios olhos reclamarem de cansaço ou de dor.

Antes de terminar, quero insistir numa coisa que não é muito fácil, em qualquer exercício corporal. O envolvimento com os movimentos do exercício é fundamental para que surta o melhor efeito. Quando se está muito preocupado com algum problema, fica mais difícil deixar de pensar nele e nele se concentrar. Aí é que se encontra a importância de fazer um esforço para mudar o foco da atenção. Só esse esforço já o torna salutar. Centrar-se mentalmente em qualquer parte do próprio corpo é apoiar-se numa força que existe em cada ser humano e que, por si só, é um precioso dom que não se deve deixar perder.

Postado por José Morelli

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Deletar

A tecla “delete”, do computador, tem enorme serventia. Para quem se utilizava das antigas máquinas de escrever manuais, quanta dificuldade para corrigir qualquer letra ou palavra escrita de forma errada. Os corretores de papel e as tintas corretoras, além do trabalho que exigiam, nunca deixavam o texto sem alguma rasura. Hoje, com o auxílio da tecla delete, as correções podem ser feitas com grande facilidade: vai-se e volta-se mil vezes no texto para a construção final de um paragrafo, como este que estou acabando de escrever.

Deletar vem do verbo latino “delere”, que significa “destruir”, “matar”... Quanto poder tem o mero acionar de uma simples tecla! Isso me faz lembrar aquelas cenas de filmes históricos da Roma Antiga, em que o imperador se atribuía poder de decisão de vida ou de morte daqueles que lutavam nas arenas dos grandes circos, existentes nas maiores cidades do Império. Com apenas um gesto de mão com o polegar voltado para cima, ele decidia pela salvação da vida do lutador; se, por outro lado e pela razão que lhe aprouvesse, ele orientasse o polegar para baixo, sua decisão significava a morte do contendor.

O verbo deletar vem se tornando cada vez mais presente na linguagem corrente da sociedade. O uso das tecnologias de comunicação ampliou as possibilidades de envios e recebimentos de mensagens escritas. Com facilidade, estas podem ser acolhidas ou descartadas. A tecla delete dá esse poder de descarte. Pouco a pouco, essa prática na virtualidade nos vai condicionando a uma insensibilidade cada vez maior para decidirmos pela exclusão deste ou daquele, disto ou daquilo. Hoje, administramos uma profusão incrível de informações que nos chegam num tempo insuficiente para acolhê-las todas de uma só vez. Daí, não ter como não selecioná-las instantaneamente, mediante o acionar da tecla delete.

Porém, nas relações efetivas que mantemos pessoalmente, uns com os outros, essa facilidade do descarte não pode se dar sem que tenhamos cuidados especiais. As consequências imediatas de nossas tomadas de atitudes, nos relacionamentos interpessoais diretos, não são iguais às de nossas tomadas de atitudes nos relacionamentos mediados por tecnologias. A vida real exige muito mais responsabilidade da parte dos interlocutores.

Postado por José Morelli

domingo, 25 de agosto de 2019

"Penha de França - Expressões do Rosário

Mais uma comemoração de aniversário do bairro da Penha se aproxima. No dia 8 de setembro, próxima semana portanto, a Penha estará celebrando seus 352 anos de história. Foram muitos os que protagonizaram, através de suas contribuições individuais e coletivas, tijolo por tijolo, a construção deste lugar no qual caminham nossos pés hoje.

As expressividades foram muitas. Cada uma delas representativa de valores importantes que assinalaram as direções percorridas nesses mais de três séculos e meio de existência. Não são poucos os nomes pelos quais são chamados nossos rios e ribeirões (Aricanduva, Guaiaúna, Tiquatira...) bem como um número significativo de ruas (Aracati, Umbó, Paracanã, Betari...), que testemunham a presença de índios, num período que antecede à nossa história. Depois deles, tivemos aqui ricas famílias (portuguesas em sua maior parte) possuidoras de grandes extensões de terras, doadas pela coroa portuguesa na forma de sesmarias.

No livro, escrito por mim, cujo título consta na introdução desta matéria “Penha de França – Expressões do Rosário”, registro acontecimentos e personalidades que fizeram parte da herança europeia nos primórdios da Penha: o Padre Jacinto Nunes de Siqueira, construtor da primeira capela e, por isso, considerado fundador do bairro; o Padre Antonio Benedito de Camargo e o antigo casario onde viveu e, no qual, pernoitou Dom Pedro I em sua passagem pela Penha, poucos dias antes de proclamar a Independência do Brasil; o Coronel Antonio Prost Rodovalho e seu Palacete outrora construído na rua que leva o seu nome; a senhora Maria Carlota de Melo Franco e sua imponente mansão, no lugar em que hoje se encontra o Posto de Saúde da Penha, na Praça Nossa Senhora da Penha e outros.

Para fazê-las produzir, os proprietários de terras além da mão de obra dos indígenas, contaram também com o trabalho duro de escravizados africanos. Embora o protagonismo destes não tenha merecido o devido registro na história oficial, através das narrativas do livro “Expressões do Rosário” busquei fazer justiça ao legado deixado pelos membros da Antiga Irmandade dos Homens Pretos da Penha de França, construtora da Igreja de Nossa Senhora do Rosário (patrimônio tombado pelos órgãos de preservação histórica do município e do estado), num tempo em que ainda imperava o regime de escravidão no Brasil. O livro, além de versar sobre o bairro, também conta a história da presença dos africanos e seus descendentes até os dias de hoje.

Se o amigo/a leitor/a deseja conhecer melhor essa história, pode adquirir um belo exemplar do livro “Penha de França – Expressões do Rosário” tanto Livraria da Basílica de Nossa Senhora da Penha como na da Igreja do Rosário, pelo valor de R$ 50,00.

Postada por José Morelli

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Azul celeste

É sempre muito bom ler um livro com qualidade e, melhor ainda, poder compartilhar das idéias, nele contidas, com outras pessoas. É o que eu gostaria de fazer agora com você, leitor (a), ressaltando principalmente algumas constatações, relacionadas à cor azul, e contidas no livro: “As estruturas antropológicas do imaginário”, de Gilbert Durand. Este autor tece seus argumentos recolhendo importantes contribuições de outros reconhecidos pesquisadores, citando-as com maestria e compondo assim um belíssimo texto, com múltiplas tonalidades e variadas formas.

No contexto geral do livro, a simbologia é fruto da imaginação, resultante de um processo de aprendizagem em que os humanos foram se equipando de meios para codificar e decodificar objetos, associando-os entre si. A grandiosidade do céu azul mereceu da parte de alguns povos antigos um sentido de grande admiração, a ponto de o considerarem um deus, ao qual lhe destinaram um culto especial.  

Segundo o autor, a luz celeste é incolor ou pouco colorida. Frequentemente, na prática do sonho acordado o horizonte torna-se vaporoso e brilhante. A cor desaparece à medida em que a pessoa se eleva em sonho e faz-lhe dizer: “sinto, então, uma grande impressão de pureza”. Esta pureza é a do céu azul, privado e cambiante das cores, é “fenomenalidade sem fenômeno, espécie de nirvana visual que os poetas assimilam ao éter, no ar puríssimo...”

A psicologia contemporânea confirma de resto, esse caráter privilegiado do azul-celeste, do azul pálido”. Num dos mais importantes testes psicológicos, “esse azul é entendido como a cor que provoca menos choques emocionais, contrariamente ao preto e, mesmo, ao encarnado e ao amarelo”.
Como mostram os pesquisadores Goldstein e Rosenthal, as cores frias, entre as quais o azul, agem no sentido de um “afastamento da excitação;” o azul reúne, portanto, as condições ótimas para o repouso e sobretudo, para o recolhimento.  

No Brasil, nos dias de carnaval e início da quaresma a partir da quarta-feira de cinzas, o céu se recobre de nuvens brancas, algumas vezes, até mesmo de nuvens negras, anunciando fortes tempestades. Porém, com a aproximação do início do outono, as temperaturas vão se tornando mais moderadas, a luz do sol vai ganhando mais luminosidade e o céu se apresentando com seu azul mais intenso. A associação desses dois fatores permite maior recolhimento e tranquilidade, justamente, características apropriadas à cor azul celeste, objeto desta nossa partilha.

Postado por José Morelli